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Mudança de blogue

12 de dezembro de 2013

Caros leitores,

a partir de hoje publico no blogue http://revistacult.uol.com.br/home/category/blog-marcia-tiburi/

Obrigada a todos que acompanharam os textos nesse Filosofia Cinza.

Um abraço

Marcia

 

 

 

 

A DROGA NOSSA DE CADA DIA

7 de dezembro de 2013

O artigo abaixo foi publicado no Jornal Pioneiro de Caxias do Sul no suplemento Dialeto na semana que passou semana a propósito do meu livro Sociedade Fissurada escrito em parceria com a Andréa Costa Dias

A droga nossa de cada dia.

Quando usamos a expressão “drogas” estamos falando de um objeto tratado por todos nós como o maior tabu de nossa época. Temos medo das “drogas” e, por isso, agimos com duas posturas básicas em relação a elas. Em primeiro lugar, evitamos falar sobre o tema como se, pelo silêncio, ele pudesse se desmanchar no ar.  Em segundo lugar tratamos as drogas como “o mal”, o flagelo que atinge aqueles que são “fracos”, que “não tem cabeça boa” ou “andam em más companhias”.

Com o uso genérico do termo “drogas” acobertamos a complexidade da vida das substâncias sobre as quais sabemos pouco ou quase nada. Transferimos o problema da “relação” para as drogas “em si mesmas”, como se elas fossem a causa de algum mal do qual nós seríamos apenas as vítimas. A nossa relação com as drogas é ampla, muito maior do que imaginamos, mas não gostamos de saber disso. Costumamos defender ou atacar substâncias diversas em função de medos obscuros que podem ocultar também interesses nada claros.

Raramente nos ocupamos em questionar o que estamos fazendo com as chamadas drogas em uma escala social e não apenas individual. Em relação à elas somos, antes de mais nada, moralistas e preconceituosos. Costumamos confiar na psiquiatria, bem como nas neurociências como campos que detém o saber sobre a vida das substâncias e seus efeitos sobre nós. Contudo, no âmbito do senso comum, não conhecemos os estudos especializados senão pela mediação dos meios de comunicação que jamais nos apresentam a complexidade das pesquisas científicas. Entendemos quase nada dessas ciências, mas costumamos confiar nelas porque são apresentadas a nós como detentoras da totalidade da verdade quanto às drogas. E esta postura só fortalece a sustentação do círculo vicioso e até mesmo cínico da sociedade no qual as drogas são o bode expiatório. No Brasil, por exemplo, há um preconceito muito grande contra a maconha promovido em diversos níveis de discurso, do governamental ao senso comum, passando pelo religioso e pelo moralista, que é o mesmo tipo de preconceito que impede pesquisas científicas sérias e que, em escala social, impede avanços possíveis sobre os quais poderíamos ser responsáveis. Mas o Brasil ainda é uma país que prefere o autoritarismo à responsabilidade.

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As ciências e os meios de comunicação determinam o modo como vemos as drogas. Curioso, no cenário dos interesses, é que não se veja a participacão das ciências humanas, da antropologia, da história e da sociologia nas pesquisas. É que estas ciências mostram que as chamadas “drogas” tem história, que os usos e costumes em relação a elas são muito diferentes no tempo e no espaço. Que há muitos fatores sociais e políticos implicados naquilo que é tratado como sendo dependência química ou toxicomania e até mesmo tráfico.  Tratado como mera prática de bandidagem, ocultam-se aspectos políticos diretamente relacionados  ao sentido indesejado da legalização por parte do governo. Essa moral não nos permite questionar o que são realmente as chamadas drogas. Em nossa cultura vemos que o álcool não é um tabu tão grande quanto a maconha, que as anfetaminas não sofrem tanta estigmatização. Esquecemos que o açúcar era uma droga que, aos poucos foi deixando de ter este lugar no nosso imaginário social. Mas não nos perguntamos pelos motivos segundo os quais certas substâncias são tão condenadas e outras não porque perdemos o senso histórico e, ao mesmo tempo, não ligamos para motivos sociais. As drogas só podem ser compreendidas se prestarmos atenção na rede que organiza o seu sistema.

Olhamos para as drogas de acordo com a moral vigente bancada pelo pensamento proibicionista conservador que espera sempre as coisas permaneçam como estão.

A ideia de droga é é tão construída pela ciência quanto pela sociedade. Em nosso cotidiano todos nós temos experiências relativas a drogas. Lembrando que nossa relação com o mundo das “drogas” e das dependências é ampla, podemos falar em esteticomanias e não só em toxicomanias. As esteticomanias (mania do corpo perfeito, “vício” em internet, em redes sociais, em sexo, em comida, em televisão, etc.) se referem a nossos corpos que são, ao mesmo tempo, nosso espírito. Neste sentido, é interessante perceber que não há uma relação direta entre drogas e vícios, podemos ser viciados em práticas que não tem a ver com “drogas”. Nem toda droga vicia. Embora tudo o que nos pareça substancial nos cause apego. Também o “vício” deve ser questionado, pois que falamos em vício sem perceber que participamos todos de um círculo vicioso de preconceitos que não nos levam a nenhum lugar melhor comparativamente a onde estamos.

Há muitos modos de dependência além da química, como a psíquica e até mesmo a conceitual. Podemos dizer de alguém que troca o álcool por um deus, que ele simplesmente trocou de absoluto. Trocou uma ideia que o fazia agir por outra.

Todos temos experiências relativas às drogas, muitos tem experiências absolutas com as drogas. É que assim como podemos dizer de Deus, não importa se ele existe. Assim não importa se as drogas existem de fato ou não, mas importa o que fazemos com elas, e o que elas significam para nós.

Creio que o lugar de tabu nos diz claramente que há interesses em jogo e que a nossa generosidade democrática deveria começar justamente por romper com o tabu. Certamente evitaremos muito sofrimento na vida cotidiana aprisionada no círculo vicioso do medo contra o qual só a lucidez pode lutar.

Marcia Tiburi, filósofa, é autora de Sociedade Fissurada – para pensar as drogas e a banalidade do vício. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Quem quiser acompanhar o Seminário que deu origem ao livro, veja: http://www.sempreumpapo.com.br/mondolivro/?page_id=1311

Ainda que o último fio seja intangível ao nossos olhos

18 de novembro de 2013

Texto da exposição “Trouxeste a Chave? ” que abre na Galeria Mônica Filgueiras no dia 18 de novembro e vai até dezembro.

Ainda que o último fio seja intangível ao nossos olhos

Marcia Tiburi

 

corpografias para blog

 

Corpográficos. Vulcanográficos, ambigráficos, personográficos. Tramográficos, aracnográficos, espacialográficos. Ascensográficos.  Impulsográficos. Aerográficos. Corrosivográficos. Levitográficos. Sabergráficos. Vorticegráficos. Pelegráficos. Inundográficos. Rebentográficos. Anjográficos. Riscográficos. Ventográficos.

Branca de Oliveira é acostumada com complexas tecnologias. Leva-nos, contudo, neste trabalho a uma viagem na potencialidade do material mais simples da história da arte: a grafite. À aventura na forma mais básica das artes visuais: o desenho. Não é somente o retorno ao elemento fundante do gesto imagético, mas um aprofundamento no fantasma da tecnologia que, historicamente, nos dispensou as mãos. Branca volta a elas, devolve-as ao gesto e ao corpo que, desenhando, pratica seu primeiro movimento: ir além de si. Esse gesto liga, relaciona, anexa. Tenta, testa, e por isso risca, arranha, suja, deixa acontecer. Funda nexos.

Toda a experimentação é desenho. Desenho é design, é gesto de significação.  Mas desenho é também grafo. Grafo é linha que conecta e desconecta uma coisa com outra, e a linha à outra linha. Grafar implica uma gramática: grafamos com vértices, arestas, paralelos, setas, laços, nervuras, ranhuras, arcos. Olhar esse trabalho de Branca de Oliveira implica deixar-se levar pelas linhas, aceitar seus emaranhados; ao mesmo tempo, duvidar deles. Prestar atenção em seus limites e direcionamentos.

Podemos, sem dúvida, olhar para os símbolos, os signos, os sinais. Para o universo de conteúdos aos quais nos lança esta experiência. Mas eles seriam completamente outros se não fossem desenhados.

É que o desenho nos traz a sombra. O desenho nos dá o erro; no mais básico dos gestos, a potencialidade do que poderia ser e não ser. O desenho não é somente o grafo e sua história, mas é ainda o desajuste no mapa, o que estremece na planta, o que alucina na imagem desenhada, a imagem corpografada nascida nesse ponto simples da mão que atua com a grafite. A imagem levitografada, ambigrafada é toda não imagem. Às vezes, quando algo escapa, é então que algo foi desenhado.

Ficamos sabendo que a mutegrafia é diurna, que é também noturna. Olhando bem, vemos que o corpo desenhado é corpográfico. E que é possível corpografar. Basta começar por algum lugar como ela começou. Problema seria fazer o começo. Então nosso olhar roda, roda; roda até encontrar o quadrado mágico, o palíndromo, o design… Ambigrafamos quando transformamos qualquer um, em verso e reverso… problema, sabemos, é versar e reversar. Por isso, olhar atentamente é o caminho. Sabendo que o desenho de Branca de Oliveira começa no morfismo, mas rompe com ele: dimórfico mórfico, eis como seria o caso de tentar entendê-lo.

Mas um desenho não se entende simplesmente, antes, é preciso vê-lo. Encantados com a narrativa, curiosos da alegoria, concentrados no conjunto de detalhes que nos põem em estado de vertigem mental, fixamos os olhos. Ora, o desenho é um gesto sempre sutil que exige a concentração mais delicada. Quanto há para interpretar? O que se pode dizer?

Não é preciso dizer nada. Basta ver, ainda que o último fio seja intangível aos nossos olhos.

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Feche os olhos para olhar – Descompanhia de Dança

3 de novembro de 2013

Feche os olhos para olhar

Quando eles apareceram para mim: Juliana Adur, Peter Abudi e Yiuki Doi, tinham lido o Diálogo/Dança (SENAC, 2012) que escrevi por anos trocando cartas sobre dança com Thereza Rocha. Havia o “Feche os olhos para olhar” da Descompanhia de Dança dirigida pela Cintia Napoli da qual eles fazem parte. Fui assistir.

Na sala do Centro Cultural São Paulo tudo havia desaparecido no escuro ao redor. Também eu. Entrei logo que a porta fora fechada e os bailarinos começavam o rito. Entrei com meu corpo, por que é com o corpo que a gente anda, vem e vai, mas logo vi que algo do meu corpo continuou lá fora como deve ficar quando respeitosamente nos dirigimos ao momento da dança alheia. O escuro ao redor fazia saber que os olhos estavam já fechados, mesmo que os bailarinos, mais adiante, nos pedissem para fechá-los. Cada movimento na direção do assento onde eu devia ficar quieta não se devia notar. Tentei desaparecer, fui feliz.

Quando o corpo da gente some é que entendemos alguma coisa sobre ele. Quando o corpo some, é que cada movimento foi medido. Ao contrário, quando se dança, o corpo não some, fica todo presente porque a medida desaparece dando lugar à linguagem. Nós que assistimos, permanecemos medidos fora da linguagem, abandonados ao espaço no qual não sabemos viver sem regras. Cuidando para não sermos vistos, não olhamos. Olhar seria de arrepiar, e nos faria acordar. Quando, ao ver um espetáculo de dança, buscamos o estado de desaparição, o fazemos como quem se esconde de um perseguidor que só pode se esconder na atenção total ao que se vê enquanto se nos vemos a nós mesmos.

É então que a dança mostra a sua mágica. O corpo sumido diante do corpo que dança descobre a presença total. A presença total surge no silêncio daquele que tenta desaparecer no encontro com a presença do corpo bailarino. O corpo adensa quando precisa se fazer mínimo. Mas apenas se adensa porque os bailarinos performatizam sobre o corpo desaparecido do vidente o lugar de um outro corpo. Aquele que chegando dentro da sala de dança, lembra de um corpo que ficou lá fora.

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O começo de um espetáculo de dança (será um “espetáculo” de dança?) para quem vai assistir é sempre o próprio corpo que, parado, parece a antítese da dança. Mas quem diz que não se dança parado não sabe o que é dança. Na verdade, não é possível saber o que é dança, porque a dança só se experimenta como prazer ou sofrimento no corpo. Como poesia: silêncio e som.

Com que corpo eu vou à dança que você me convidou?

Em  “Feche os olhos para olhar” descobrimos que olhar é dançar. Descobrimos, porque os bailarinos fecham nossos olhos e nos ajudam a olhar.

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Fechando os olhos para olhar, começamos a olhar no tempo do olhodançar.

A dança é o corpo existindo quando esse corpo inteiro que respira, fala, anda, olha, percebe que vive e que está em movimento parado: danço. A consciência é uma palavra gasta, mas ela tem sentido quando pensamos que se trata de cair no corpo, como quem cai no sonho. A dança opera uma revolução contra o meu estado de ser do mundo. Se seu corpo lhe foi roubado pela publicidade ou pelo trabalho, pela injustiça ou pela dor, a dança é um resgate. Se os inimigos do corpo, os seus detratores e caçadores, estão sempre por perto, a dança os afasta. O estado de dança é um estado de corpo devolvido a si mesmo, por quem se move dançando, por quem, olhando, percebe que seus olhos são todo um estado de corpo.

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No “Feche os olhos para olhar” é o que aprendemos a ver o invisível que somos, o invisível onde estamos. Ali, vemos que ver não é bem assim. A dança não é ali o que “ensina” a ver, embora os bailarinos brinquem levando-nos a um outro lugar. Aonde nos levam é ao lugar do olhodançante do qual fomos roubados. A dança é o que estamos olhando-juntos, enquanto, dançamos-juntos, mesmo quando sentados, mesmo quando parece que estamos apenas assistindo. Lá fora ficou o corpo aviltado por séculos de repressão, ali dentro ele está vivo.

O olhar nos leva a dançar e nos levando a olhar nos devolve ao estarsendo da vida. O espetáculo “Feche os olhos para olhar” é todo feito de convites a saberdançar. Ele é feito daquele “dansçaber” que começa  com um estar-não-estando, aquele mesmo que experimentamos pelo avesso quando chegando na sala de dança queremos sumir com nosso corpestorvo. O “dansçaber” da Descompanhia nos retirou desse corpo, nos levando a olhar outro corpo, outro mundo. E nos pôs nele novamente por meio de uma devolução à vida. O corpo foi devolvido ao corpo no exercício do escuro que faz ver.

“Feche os olhos para olhar” nos convida por meio da narrativa encenada, um traço de teatro-dança que atravessa o cenário do tempo dançado pelos três bailarinos. A narrativa é só um traço, não um resumo de um sentido, não um resumo de coisa alguma. O dançado está ali, somente dançante brincando conosco no dansçaber do corpo que fala, anda, pula, faz coisas de todo tipo. Como quando se apoiam nas coisas conhecidas e comuns: a chaleira e a xícara de chá, as roupas (a saia rosa), ha via no espetáculo uma gelatina. As legendas:

Abraçar,

Dançar sem se mexer

Espirais

Falar o que se pensa

Mover no nível baixo

Tocar alternado.

Vão dando o caminho do rito. Tudo é acontecimento.

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Os bailarinos falam. Em alguns momentos do espetáculo a bailarina enuncia o “começo” fazendo do começo sempre uma potencialidade . A voz é corpo que dança. A voz que nos convida, nos ensina, nos deixa parados. O papel da voz nos acorda para outros verbos: ouvirdançar é um deles. No tempo em que olhodançar é nossa prática descoberta, ouçodançar torna-se uma novidade efêmera e eterna. Mas o que isso quer dizer: ora, cada um que pense, que descubra o que isso pode querer dizer para si mesmo…

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Quem quiser saber mais:

http://descompanhia.blogspot.com.br
1° – http://www.youtube.com/watch?v=8J22rmQRzOM

2° – http://www.youtube.com/watch?v=rHYvSROgcrQ

“Por que o senhor atirou em mim?”

30 de outubro de 2013

“Por que o senhor atirou em mim?”

Em memória de Douglas Rodrigues, 17 anos, assassinado por um PM em 27 de outubro de 2013

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É muito importante fazer uma análise da violência atual, mas isso não trará Douglas Rodrigues de volta. A impotência das análises serve, no entanto, à violência. E alimenta o senso comum.

Sabemos que vários outros jovens vem sendo mortos pela Polícia Militar e isso é, por incrível que pareça – por mais estarrecedor que pareça – uma explicação total do que vivemos em nosso país. Para o bom leitor não é preciso nem meia palavra. A pergunta feita por Douglas quando tomou o tiro no peito que o levou à morte é estarrecedora porque já está respondida e ela põe em cena a nossa falência como sociedade.

No entanto, não creio que ideia de que temos o governo que merecemos explique o que estamos vivendo. Nós merecemos mais, merecemos algo melhor. Como Douglas merecia. Eu penso nos pais de Douglas, em seu irmão. Em seus colegas e penso que não merecemos isso. Que Douglas merecia um futuro bom. Li que um motorista de caminhão incomodou-se com a manifestação em nome de Douglas, que incomodou-se com os caminhões queimados, com a interrupção da rodovia Fernão Dias no dia seguinte à morte de Douglas. Pensei que aquele que não tem capacidade de colocar-se no lugar dos outros, que não consegue imaginar o sofrimento alheio, é alguém que precisa rever seus conceitos. É claro que não desejamos sofrer as consequências diretas das dores alheias, mas não se trata de uma dor alheia. E vivemos neste país, todas as consequências da ditadura cínica que nos quer arrebentar a cada um que não concorde com ela. Que país é esse? O país onde Douglas Rodrigues de 17 anos foi morto à queima roupa por um PM.

Neste sentido, cito o senhor taxista com quem conversei ontem. Ele perguntava mais ou menos assim: por que o governador Alckmim se pronunciou –  estarrecido e todo dominador – contra o espancamento do coronel dia desses e por que o mesmo governador não pronunciou-se quando do assassinato do menino?

Douglas Rodrigues foi assassinado pelo soldado Luciano Pinheiro. Luciano Pinheiro, quem será? Não o conhecemos. Poderíamos saber o que pensa? Como se sente? Por que fez o que fez? É muito difícil colocar-se no lugar dele. Não é tão difícil colocar-se no lugar de Douglas. Lembro dos mortos vivos que, nos filmes, tiram a vida de outro sem explicação. Não gostaria de reduzir a interpretação social dos fatos, mas PMs e  governador atuam como mortos vivos. O governador representa-se como a figura abjeta que, como um conde drácula, governa esse estado de coisas, esse reino do mal estar, esse império do ódio em que não haverá justiça nem para vivos, nem para mortos. Por isso talvez a campanha “Fora Alckmin” seja toda movida por jovens que tem medo de uma figura dessas que representa o mal radical entre nós. Rei do império do ódio em que todos estão condenados à morte diariamente.

Mas eu não gostaria de escrever sobre a questão da violência com nenhum tipo de exagero retórico. Tenho visto muito exagero retórico e muita histeria por parte da televisão. A televisão que eu não assisto diariamente (não tenho tv em casa há anos, mas vejo tv por aí nas ruas) tem sido o principal aparelho de repressão e precisamos tomar cuidado com ela como sempre. Televisão é um meio de comunicação que deverá ser democratizado como qualquer outro. É para isso é que tem trabalhado a midia alternativa que sustenta a democracia no meio da atual ditadura cínica dos meios de comunicação fazendo a cabeça do povo com a retórica baixa e imbecilizante que usam. Praticam o pior tipo de violência simbólica, aquela que conserva o estado injusto contra as pessoas enquanto, ao mesmo tempo, seduz as pessoas.

Assim como temos que “ocupar” o governo temos que “ocupar” a televisão… Mas sem violência e com muito cuidado, por que o assassinato é, na nossa democracia cínica (uma ditadura cínica…), realmente distribuído para todos pelo governo.

***

O assunto da violência é muito complicado e no âmbito do senso comum é muito difícil falar dele. Tenho notado que as pessoas defendem certos tipos de violência mesmo quando querem combatê-la e que criticam a mesma violência que praticam ficando enroladas num círculo vicioso. Vejo que há uma propaganda contra a violência dos black blocs e não contra a violência dos policiais. Por que uma violência é permitida ou consentida e outra não? Será que podemos avaliar isso com cuidado? Outra questão: por que choca tanto  que os vidros dos bancos sejam quebrados e não choca tanto que professores sejam espancados? Estamos em uma sociedade que valoriza mesmo mais os vidros do que as pessoas?  Ou será que os meios de comunicação denominam “vândalos” um outro – e primeiro – para evitar que sejam chamados eles mesmos de “vândalos” pela violência que praticam com sua comunicação cheia de violência? O uso da expressão “vândalo” e “vandalismo” entre nós tem sido ridícula. Mas quem se dedica a pensar no que está realmente se passando? Onde está nosso discernimento?

A complexidade da violência atual, expressa no espancamento e assassinato que PMs tem dirigido à população a mando do Estado tem também combinado com o estranho “direito” que muitos praticam em particular. E não é só no governo e na PM. Tenho percebido pelo menos dois tipos de mentalidade discursarem no mundo cotidiano: 1 – uma que é a do fascista potencial que encontra nesse momento o seu ódio ao outro e seu desejo de humilhar realizado; 2 – o cidadão que busca ser razoável e olha para o nexo entre particular e universal, entre individuo e sociedade. Esse último ainda deseja um mundo melhor.

O que os outros realmente querem?  Douglas teve a resposta. Nós todos agora sabemos do que se trata.

Penso que tudo o que venhamos a dizer  só pode ser dito em nome de que a morte por assassinato de nosso jovens pela polícia não se repita.

Que Douglas não seja esquecido.

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Educação/Transformação: Tristeza e Alegria

23 de outubro de 2013

Essa semana participo de vários encontros sobre educação.

O texto abaixo foi escrito (embora eu tenha mudado algum detalhe) a pedido do Renato Gomes do SESC de Caiobá no Paraná. Onde estarei na sexta pela manhã no Terceiro Forum Social de Educação.

Partilho o texto a quem possa interessar.

Educação/Transformação: Tristeza e Alegria

Marcia Tiburi

Participamos atualmente de um momento de muita tristeza e ressentimento no campo da educação. O cenário político é o da inibição, do medo e da impotência. Precisamos pensar nisso, buscar entender o que isso tem significado em nossas vidas enquanto somos professores, educadores, estudantes ou gestores em educação. Toda ética possível em educação depende de nossa capacidade de estarmos presentes como cidadãos nesse momento em que a violência física e simbólica vividas atingem de algum modo a todos nós dedicados à profissão de ensinar.

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A tristeza é o que o poder tem provocado nos cidadãos. Sabemos que a tristeza é um afeto negativo. Aquele afeto que, segundo Spinoza, filósofo holandês do século 17, produz apatia e inibe a vontade de ser que é própria a todo o ser que vive. Spinoza sabia que os governos e os sacerdotes precisavam da tristeza de seus “súditos”. Hoje, podemos dizer que conhecemos a tristeza quando temos um mau encontro com as pessoas e as coisas com as quais nos deparamos na vida. Reconhecemos o mau encontro quando, em dada circunstância, temos vontade de fugir. Vontade de parar, de abandonar o barco… Quando algo nos acontece e queremos nos esconder debaixo do tapete…

Podemos dizer que o ressentimento tem tudo a ver com isso. O ressentimento é justamente o afeto que nasce da nossa impossibilidade de fugir, de encontrar o tapete onde enfiar o nariz sangrando nos embates do dia a dia. Nietzsche, filósofo alemão do século 19, viu no ressentimento um afeto negativo, que aprisiona e não liberta. Aquele afeto não resolvido comum a quem não consegue esquecer alguma coisa ruim que aconteceu, de algum mau encontro que permanece em nosso sentimento como uma torneira mal fechada. É o afeto típico daquele a quem chamamos de “mal resolvido”. Talvez porque não tenha conseguido fazer nenhum tipo de acordo com aquilo que o maltrata, mas isso só significa o quanto a coisa toda lhe pesa.

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O que não conseguimos resolver só permanece atuando em nossa afetividade porque não soubemos esquecer e seguir vivendo justamente em nome da alegria de viver que nos trouxe até aqui. Sim, é a alegria de viver que nos faz viver. É o sentimento da vida simplesmente acontecendo que nos enche de vontade de viver, ou seja, que nos toma como alegria pura e simples. Difícil falar disso em uma sociedade em que a depressão parece epidemia, em que as pessoas só se alegram por meio de algum tipo de entorpecimento.

Mas assim como a tristeza não é ingênua, a alegria também não é. A alegria de que falamos filosoficamente não é a alegria boba, aquela alegria de plástico vendida pela publicidade; não é a alegria da indústria cultural que nos ilude de uma vida sem sofrimento, sem trabalho, com abundância de capital, cheia de riquezas materiais. Esta seria a alegria falsa, a alegria que o sistema nos promete para mascarar a sua própria pobreza espiritual.  A alegria de que falamos é filosófica, no melhor sentido do termo. Ela diz respeito à capacidade de esquecer, de sair do ressentimento, de buscar outras formas de vida. A capacidade de agir na direção da emancipação em relação à barbárie pode ser sua tradução. O desejo de simplesmente estar no mundo também é uma forma de alegria. A alegria é sempre uma irrupção criativa contra a oferta de tristeza de um mundo de opressão e medo.

A alegria de sentir que existimos, de experimentar a vida como uma forma de potência geradora e auto-criativa é o contrário do entristecimento promovido pelo poder, pela violência, pela ordem econômica opressora que pretende apenas manter-se a si mesma como está e onde está. Desconsiderando, certamente, a existência humana que estamos aqui, neste mundo, para experimentar.

A educação deve ser uma prática de promoção de um certo modo de alegria, a alegria da emancipação. Ela é, portanto, a teoria-prática da liberdade que se baseia na lucidez que está para além de toda simples racionalização, pragmatismo ou utilitarismo. A educação é para o educador a vontade de trazer a alegria, de partilhar a alegria, de democratizar a alegria. A relação com o conhecimento é uma forma de alegria, a relação com o outro também. O conhecimento por sua vez se confunde com a educação enquanto campo de experiência: prática-teórica da vida ou teoria-prática da vida cuja razão é a alegria. Ora, a alegria é uma força revolcuionária.

Por isso, precisamos urgentemente nos perguntar: o que pode a educação? O que a educação tem significado em nossa época? Como vemos a educação? Como nos relacionamos com ela? Responder a estas perguntas pode parecer fácil para quem, atuando como professor, educador, reflete diariamente sobre sua própria prática. No entanto, mesmo que o profissional da educação saiba muito bem o que faz, o que nem sempre é verdade, sabemos que no nível da cultura, a educação é uma área muito desvalorizada. Estas perguntas são importantes, portanto, para qualquer cidadão. Também para aquele que não se pergunta sobre isso por que pensa que a educação não lhe diz respeito. No entanto, sabemos que a educação é para a vida toda. Que nos educamos todos os dias até o fim de nossas vidas.

A desvalorização da educação na esfera cultural, social e econômica, resulta em ignorância geral e em desconhecimento sobre o próprio sentido da educação em escala social. Essa desvalorização ajuda apenas a promover o entristecimento e o ressentimento que tem nos devorado a todos. Vivemos no círculo cínico de um sociedade antiética e antipolítica no qual a educação é vítima de todas as mentiras dos poderosos. A tarefa de cada educador é, hoje, tentar interrompê-lo.

Mas como conseguiremos isso se, no âmbito social, político e econômico, a educação é rebaixada à mercadoria? Como podemos tratar aquilo de mais precioso que temos em termos de transformação social, aquilo que dá significado à nossa existência como educadores, como uma mercadoria? A infelicidade que vemos hoje no campo da educação tem a ver com esse rebaixamento à mercadoria. E com a concomitante humilhação que professores e estudante, bem como cada escola, sofre sob as lides do sistema que produz este tipo de processo. Do mesmo modo, é como mercadoria que a família, que poderia aliar-se à educação, se serve dela. Para muitos pais, a escola é um investimento, para vários outros, nem sequer é isso. A desvalorização generalizada da educação na esfera da cultura pode vir a ser introjetada pelos próprios professores que, muitas vezes entristecidos com o rumo de sua profissão, se entregam ao “mais do mesmo”, ao conformismo e à apatia. Do mesmo modo que os estudantes que deveriam ser emancipados por meio da escola e da educação voltadas para a vida e a exuberância criativa que caracteriza o ser humano.

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Contra esse estado de coisas, podemos voltar ao sentido mais profundo da educação enquanto teoria-prática em que está em jogo a nossa alegria de viver enquanto esta alegria de viver implica estar em contato com o outro. Conviver e ensinar a conviver é o exercício diário dos professores. E, neste sentido, a educação é sempre uma ética. Ética, pois por meio da educação aprendemos a respeitar o outro, a reconhecê-lo. Educação é o nosso caminho social e pessoal para a transformação do todo e de cada um. Transformação que é a própria ética que pode refazer desde dentro o cenário político aviltado de nosso tempo. Certamente a educação é o único caminho para sociedades inteiras e para nosso país em especial. Falta-nos, no entanto, projeto. Ou melhor, vontade política para que a educação realize sua potência mais íntima. No entanto, esta vontade política só pode nascer no âmbito de cada um no encontro com os outros com os quais fazemos “comunidade”.

Enquanto profissionais da educação, mas também enquanto cidadãos que desejam ser felizes por meio daquilo que fazem e vivem, podemos fazer das nossas práticas de educação, dentro e fora da sala de aula, o bom encontro que nos há de transformar. E não o mau encontro enganador que muitos desejam que a educação venha a ser. Uma educação contra o ressentimento, contra a tristeza, em nome do conhecimento, da liberdade de ser e estar, da arte, de nossa exuberância criativa, é isso o que desejamos e aquilo pelo que temos que lutar no cenário sombrio de nossa época.

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A diferença entre feminismo e feminino

17 de outubro de 2013

A diferença entre feminismo e feminino

Para a Lorena Duarte, colega feminista que me chamou a atenção do fato

A diferença entre feminismo e feminino não é um “sm” no lugar do “n”. Mas a confusão das letras pode causar certa dor de cabeça…

Poster by Cuban artist José Gómez Fresquet (Frémez), circa 1970. Image: cwluherstory.com

Poster by Cuban artist José Gómez Fresquet (Frémez), circa 1970. Image: cwluherstory.com

Nesta semana, o Diário Catarinense publicou uma entrevista, fruto de uma conversa que tive com a repórter Kiara Domit por ocasião da feira do livro de Criciúma. A conversa foi super simpática, no final da festa, quando todos estavam cansados. Mesmo assim foi legal e eu respondi as perguntas, ainda que num clima coloquial, com muita lucidez.

Só que saíram uns erros. Hoje o jornal me mandou um pedido de desculpas e me avisaram que publicaram uma correção.

O correto é: “EU DESCONFIO MUITO DO FEMININO“.

O todo da entrevista pode ser lida aqui:

http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/variedades/noticia/2013/10/eu-desconfio-muito-do-feminino-4299159.html

O que causou estranheza foi aparecer a frase “Eu desconfio muito do feminismo”. Por que eu disse feminino e saiu feminismo. No entanto, a matéria era bem feminista, como acredito que a própria Kiara é.

Verdade que foi publicado um trechinho da entrevista. Eu prefiro, aliás, mandar as respostas por escrito… não é a primeira vez que  acontece um erro me envolvendo. Até porque os meus temas são sérios, graves, até polêmicos como pensam certas pessoas.

O que eu chamo de feminino? A construção dos ideias da masculinidade que pesam sobre as mulheres: maternidade, sensualidade, formas corporais, gênero, gestos, papéis. Eu penso a teoria feminista como um gesto feminista de desconstrução que tem que passar pela desconstrução do feminino. A liberdade real das mulheres – travestis, transhomens e todo mundo – surge desse processo.

Por que as pessoas precisam ser femininas? Não precisam. Mas “quem” precisa que outra pessoa seja feminina??? Esta é uma pergunta melhor…

Já o feminismo, eu o defendo sempre. E assumo o meu como um desejo de dialogar com o mundo em defesa da singularidade de cada pessoa, no qual estejam inclusas mulheres em sua pluralidade radical.

Mês de novembro vem aí e o Dossiê Judith Butler que organizei para a Revista Cult com um debate importantíssimo para o nosso tempo em que as “identidades” precisam ser repensadas… E o feminismo é o nosso jeito de começar sempre bem e seguir melhor ainda.

(Há textos meus em livros, neste blog e no site da Revista Cult com trabalhos mais específicos sobre o tema, quem quiser saber mais só procurar.)