Skip to content

Um conto de inverno num dia de verão

16 de fevereiro de 2012
tags:

Publiquei a crônica abaixo há uns dias na coluna chamada Houve uma vez um verão do Jornal Zero Hora de Porto Alegre. Na fotinho, eu e meus irmãos, menos a Cris que era muito bebezinha.

Marcelo, Magda, eu e Beti

Estávamos acostumados com as temperaturas abaixo de zero no inverno. Lembro de bem menina ter lido algum dos russos pensando que falasse das nossas redondezas enregeladas. Em nossa Vacaria natal nunca se chegou ao calor portoalegrense que só conheceríamos na adolescência. A capital do estado era a notícia de algum lugar onde havia praias e não nevava. Onde um dia iríamos para estudar. Havia ainda o outro lado do Brasil que aparecia nos mapas. Lá onde outro escritor diria que “o sertão é dentro da gente”. No meu caso, foi o frio que se tornou paisagem interior. Carrego-o comigo e suporto todos os desertos.

 

Tão comum era a brancura da geada que à sua ausência chamávamos verão. Verão era o termômetro acima de zero e o cheiro de flor da cerca viva, o jardim colorindo, frutas nas árvores, vagalumes na noite. Uma estação inteira seria incompreensível. Verão era o dia em que se podia ver o sol e contar as nuvens que corriam pelo céu formando monstros. Eram manhãs em que nasciam cãezinhos, gatos ou um bezerro novo. Os adultos, habitantes de um inverno eterno, nos avisavam do perigo das cobras e os achávamos muito velhos.

 

Numa manhã em que o bafio vítreo da noite gelada ainda não tinha se dissipado, meu irmão, um ano mais velho do que eu e sempre mais sortudo, acordou mais cedo e chamou-nos para ver um simpático animalzinho cinzento que se debatia enrolado na tela da cerca ao fundo do quintal. Minhas irmãs mais novas gritavam emocionadas. Claro que a estranheza do bicho combinava mais com sonho do que com realidade.  Brincamos com ele a manhã toda até que alguém, avisado pelo povo da rádio,  levou-o para uma câmara resfriada acabando com nossa festa .

 

Éramos quatro antes que minha irmã mais nova nascesse no começo do verão de 1980. Mostramos a ela o nosso pinguim que ficou conosco por um dia, mas hoje quando perguntamos se lembra dele, insiste em crer que estamos mentindo. Ela, o pinguim e o leitor estão fora da foto…

 

A pergunta de como o animal fantástico fugira para nossa casa até hoje não foi respondida. Eu fiquei sabendo que nem todo frio é ruim, que entre verão e inverno há apenas uma diferença poética.

9 Comentários leave one →
  1. 16 de fevereiro de 2012 8:20 pm

    Olá, Marcia! Fico feliz que tenha organizado um blog, para o pessoal ter acesso aos seus textos mais novos, e links! Você é uma provocadora, poética e filosófica, e tal “vocação” torna-se importante a partir do momento em que parecemos estar cada vez mais presos a (re)produção do senso comum. Sobre a crônica, é bem interessante… todas as minhas reminiscências de infância estão ligadas a rua cheia de crianças, sobretudo no verão. Nos invernos, as ruas eram habitadas até a tarde, mas quando a noite caía as mães chamavam e a gente tinha aula e tinha que dormir cedo. A noite caía mais cedo também, por causa da proximidade com o interstício (acho que essas alterações de mais luz menos luz também interferem no nosso ânimo). Terminar com “entre verão e inverno há apenas uma diferença poética” foi fenomenal. Um abraço, seu blog está nos meus favoritos!

  2. 16 de fevereiro de 2012 10:12 pm

    bonito trechinho da tua paisagem interior
    (nas armadilhas adoráveis da sutileza)

    assinei o feed e agora sempre vou saber do que postar por aqui

    um beijo!

  3. 17 de fevereiro de 2012 12:33 pm

    que delícias de lembranças!
    carregar o frio para encarar os desertos… é uma linda!

    *e tu na foto?? a de azul?! [o cabelo rebelde haha, hj tão lindo, q vc cortou todo! =( ]

    beijo

  4. MICHELLE permalink
    17 de fevereiro de 2012 11:09 pm

    MARCIA,
    QUE FOTO ALEGRE DE SE OLHAR!
    É CURIOS0 PARA MIM MESMA: HÁ ESCRITOS SEUS QUE LEIO – E É MINHA VOZ QUE OUÇO, MESMO EM SILÊNCIO – , OUTROS QUE OUTRAS PESSOAS LÊEM – E É A VOZ DELAS QUE OUÇO – E HÁ OS QUE LEIO E É SUA VOZ QUE OUÇO… LENDO ESSE CONTO, DO QUAL GOSTEI MUITO, PERCEBI ESSAS DIFRERNÇAS QUE AGORA, ME SOAM TÃO ÓBVIAS.

  5. 18 de fevereiro de 2012 11:34 am

    Bom dia! Finalmente lhe encontrei ‘ao vivo’… Comprei a Trilogia Íntima, devorei Magnólia, estou degustando A Mulher de Costas e, com certeza, sorverei O Manto. Não vejo a hora… Isto mesmo, tem sido uma experiência quase visceral meu contato com seus textos literários. Com os filosóficos, se é que existe bifurcação, hoje, graças a você, gosto muito de ler, ouvir e pensar filosofia, e, agora, estou compreendendo tudo o que tenho lido dos filósofos desde os catorze anos. Você ‘concretizou’ a filosofia, deu-lhe corpo e sentimento. Ah, e antes que tomem esta opinião como parecer, sou apenas uma leitora. Obrigada!

  6. 18 de fevereiro de 2012 11:57 pm

    Que lindo. Que todo inverno seja assim… Mágico!

  7. Claudimar da Silva permalink
    19 de fevereiro de 2012 1:40 pm

    Esse conto é deliciosamente melancólico. Sou um grande admirador seu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: