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CORDAS

21 de fevereiro de 2012

Foi preciso comprar a corda na loja de ferragens da rua de trás, onde um homem gordo, de óculos e barba por fazer, suores mal lavados manchando a camiseta de algodão sem mangas, passa o dia na mira da televisão semelhante a um rádio, tendo sobre o balcão a sua frente um copo d’água que enche de pedras de gelo em intervalos curtos. É este homem, vertendo o líquido gelado e espalhando as pedras transparentes no pescoço vermelho de calor, que me venderá a corda, olhando-me através das lentes, através do copo, através da água. Não temos nada em comum que não seja o balcão, ele atrás, eu defronte, a venda e a compra. Ou será a contramão da história, ele indo, eu voltando, o tempo de quem fica e o tempo de quem vai? Ou será a sede, aquela que o umedece, a que me falta?

Não, não será a sede. A sede voltará minuto a minuto. Ele encherá a forma quadriculada com a água da torneira, abrirá o frigobar sob o balcão, depositará o recipiente plástico, voltará a fornir o copo com as pedras semivisíveis e não terá passado mais de um minuto.  Erguendo-as no bojo das mãos ásperas em torno do grosso pescoço revestido de gordura e pelos, como quem delicadamente se perfuma, ele não desviará o olhar da televisão, a não ser para retirar das prateleiras os materiais pedidos, quando outro como eu, alguém, ninguém, entrará na loja esperando atenção.

Os olhos escondidos atrás das lentes não dizem a hesitação que deixa o copo de lado. Não adivinho seu cálculo, se cobrará o da tabela ou acrescentará um pouco mais. Não haverá desconto, não pedirei. Procura a corda, não pergunta o que vou fazer com ela, diz-me sério em sua atividade plástica, sempre de olho na televisão, que a espessura boa para varais é bem menor, que há ainda mais finas, as usadas por crianças para colocar bandeirinhas na escola, que ninguém mais compra cordas grossas como estas, deste material ultrapassado, isso era do tempo em que se andava a cavalo, em que se transportavam pianos. Sequer toca-se piano hoje em dia, sabe que é um instrumento de cordas como o violão, nem pensar, instrumento de corda é coisa para gente fina, afirma no resmungo meio gutural, que cessa apenas quando gira a roldana, onde o fio bem cardado está preso. Com um sinal da cabeça, segurando uma potente tesoura de jardinagem, finalmente me olha sinalizando o tamanho, aqui, ou maior, pergunta-me ainda sem falar, não é preciso, olha-me como quem afirma algo que preciso saber, como se tivesse descoberto o próprio medo. Surpreende-me dizendo de uma vez, com os olhos fixos nos meus, coisa de assustar, que a corda é do tamanho do meu medo. Cresce em mim o medo que o mantém vivo, o mesmo que me mata.

De que vive a senhorita, se eu que vivo de vender prego, martelo, arame e alicate, torquês e pé-de-cabra, lâmpada, roldana, cabo de vassoura e ganchos de todo tamanho, como a senhorita pode ver? A que mundo pertencerá, se precisa de uma corda tão volumosa, é artista? Se fosse artista iria à loja da outra rua, onde vendem cordas de violão – ou trabalha no circo? Vá me desculpar, não se ofenda, diz oferecendo-me a água, as pedras de gelo e um resto de finitude incontida nestas tantas perguntas sem sentido. Digo-lhe que estou com pressa, preciso só de dois metros, é para a oficina de meu pai, que há de amarrar umas tábuas com firmeza. Quanto custa, menos de dez o metro, me responde, a mais fininha é mais cara, é encerada, hoje inventam de tudo para ter o que vender. Eu não reclamo, ele me diz. Peço o comprimento básico. Não reclamo, ele retoma, vivo disso, de que vou reclamar? Também eu não reclamo, pago a mais do que me cobra, não tenho tempo de pensar nas notas de papel que trago na carteira, se o valor corresponde ao objeto, peço-lhe que não embrulhe, levo na bolsa. Melhor guardar bem, são as palavras que me reserva, como quem acorda de repente para o que vim fazer ali. Olha, moça, ele ainda insiste, mesmo sendo uma coisa qualquer, merecia ser bem embrulhada, vai que seu pai não use agora, se for preciso guardar, é melhor conservar direito. Pense um pouco, diz-me, enquanto os dedos gordos e pequenos enrolam o papel pardo. Não precisa se preocupar com algo tão grosseiro, aviso, que meu pai não se importa, o senhor tem que ver a oficina, um desgosto, não entendo porque conto estes detalhes, pregos enferrujados, nada destes pregos limpinhos que o senhor tem aí, nada destes arames virgens, só coisas que matam, fazem sangrar os dedos, aqueles pregos enferrujados, tetânicos, só uma corda pra pôr ordem no que não tem, não sei porque falo tanto, na oficina do meu pai morre um pedaço, morre outro, sobram alguns que unirei com as cordas agradecendo a ajuda do vizinho.

*

Mulher, a moça era feia como um espelho trincado, o cabelo azulado, a roupa era uns trapos de chão, disse que tinha pai operário na oficina, eu duvido que tenha pai, me enganava com olhos dirigidos pros meus ombros, pro meu pescoço, parecia uma vampira, como se quisesse saber o que estava atrás de mim, perguntei o que queria com uma corda, disfarcei, não foi assim direto, claro que eu disfarcei, eu que não ia me meter com a vida dessa gente estranha e desconfiada, vai que esteja doente e precise morrer, que seja daquelas que acham que precisam da morte antes da morte, não é a primeira vez que vendo essa corda, vai que precise da antecipação do fim, que tenha essa bobagem dos apressados, uma prepotência, uma burrice, uma falta de percepção, do que fazer, de laço com a família, de função na vida, mas vai que precise, mais do que queira, é o que eu nunca entendi, que precise morrer antes da morte, é a coisa que mais me impressiona, a falta de lógica deste povo, quem não sabe que a morte tem sua hora? Eu tenho a minha, você a sua, cada um dura o quanto convém à hora de cada um, quem não respeitaria esse jogo, o jogo da vida, tem a vez da morte, se a borboleta precisa ser lagarta e a cigarra precisa ser besouro, é que antes vem a vida e depois vem a morte, não adianta evitar, mas tem é que haver mais respeito, é um acerto da natureza, é uma organização das coisas, podia ser diferente, mas não é, e não sendo, é assim mesmo, a vida não é linha e fim de linha, é mais o conjunto dos nós, e não é o que se ata e desata a hora que bem se entende, a vida não é linha de costura, quase que eu disse, é mais parecida com agulha, é o que eu ia dizer para ela, que não merece a vida aquele que não sabe conviver com os nós, mas eu não quis me meter, mas vai que se fizesse de tonta, eu também não quero julgar, se bem que com aquele cabelo era louca mesmo, e não convém brincar com gente louca, tem quem se faz de tonto, nem todo mundo se faz, uns são, e vai que ela fosse, e vai que estivesse fingindo, e vai que fosse doente, fosse desse tipo de gente que fica triste porque nasceu e vai morrer, falta de realidade, falta de ver televisão, de pensar nas contas do final do mês, esses que ficam pensando em morrer me dão muita canseira, como se tivesse que ser diferente, são uns atazanados que não percebem que a vida tem lógica, quem não aceita a lógica é burro, ou está fingindo, vontade de dizer a ela que a falta de lógica é que estraga tudo. Queriam ter três olhos, duas bocas, cinco braços? A ordem das coisas é a ordem das coisas, cada um que nasce assina um papel a ser desempenhado, cada um que nasce decide, mesmo quando esquece o que decidiu, viver é um milagre atrás do outro, ah, se eu fosse pastor de igreja, o mundo não estaria assim, neste jogo sujo, sujo, comigo ia ser sem perdão, quem quer decidir acha que uma cordinha frouxa mesmo parecendo forte vai resolver o problema, depois fica este monte de alma penada trafegando pelas ruas sem ter para onde ir, acreditando que ainda tem futuro, esperando salvação, vindo conversar com a gente com aqueles olhos esbugalhados, eu vi que aquela ainda estava viva, quando vi olhei bem dentro dos olhos pra ver se ela reconhecia que tinha sido pega em flagrante, mas duraria pouco, vendi a corda, que eu não sabia bem que atitude tomava, depois me deu uma pena, uma pena, que eu saí pra rua e chamei, moça, moça, volta aqui que a senhorita esqueceu o troco, mas ela já tinha dobrado a esquina.

O conto acima foi publicado na linda Revista Coyote que está nas bancas. Agradeço à minha amiga Aurora da Graça Almeida de São Luís do Maranhão que o digitou inteiro já que eu não o tinha mais no meu computador. 

(TIBURI, Marcia. Cordas. Coyote, Revista de literatura e arte, Londrina, n. 23, 2011)

63 Comentários leave one →
  1. 21 de fevereiro de 2012 2:44 pm

    não só o título é capaz de prender quem, por ora, cair neste enredo intrincado: há nós bem traçados neste percurso, paradoxalmente, exile das personagens…

    sinto uma angústia ao ler estes teus textos… cinzas?

    beijo, Flor

  2. 21 de fevereiro de 2012 3:00 pm

    Doido, doido, doido. Escrevendo, aplausos não são audíveis a quem quer que sejam dirigidos. Aplausos onomatopéicos é coisa de gibi; seriam indelicados aqui, deselegantes. E o gordo era gordo por opção de balcão. Filosofo de televisão e contas de fim de mês. E a moça era alma penada. Já penava na tão falada e mal fadada bacia das almas. Era louca de olhos e olhar. Era antropófaga, vampira de momentos e imagens banais; e não existe imagem banal; há muito mais por trás do ‘bom dia!’ ‘boa tarde!’ ‘como vai?’. Talvez fosse escritora e por isso antropofágica. Não estou aqui pra julgar ninguém. Vim do tuitter apenas para ler o conto que ali fora anunciado; aquilo é uma feira de paixões humanas sem fim. Não repare nos meus modos. Não tenho cerimônia mesmo. Sou muito interiorano para cerimoniais polidos. Eu falaria por muito mais tempo das personagens envolvidas em “Cordas”. Mas chega. O conto é doido, doido, doido. Tudo já foi dito. Eu não diria com tamanha profundidade de domínio. E eu me apaixonei pelo conteúdo. Mais do que isso, virei seu fã. Beijo virtual suave em cabriolas por sua tela, Márcia linda Tiburi!

  3. maria tomaselli permalink
    21 de fevereiro de 2012 3:26 pm

    baita conto!

  4. MICHELLE permalink
    21 de fevereiro de 2012 4:40 pm

    COMO RAFAELA, TAMBÉM SINTO ANGÚSTIA. É UMA ANGÚSTIA MEIO ALEGRE… OU SERIA UMA ALEGRIA MEIO ANGUSTIADA…? MAS É SEMPRE UM PRAZER!
    TODOS TEMOS NOSSAS AMARRAS, NÃO É? UMAS E DESFAZEM, OUTRAS SÃO IMPORTANTES E PRECISAM SER MANTIDAS.
    BEIJOS
    MI

  5. 21 de fevereiro de 2012 8:20 pm

    Vertiginosamente maravilhoso! Por falar nisto, em fios e laços, comecei a me ‘enrolar’ n’ O Manto’. Dá tanto orgulho ser sua compatriota, que você seja mulher e mãe, que nos brinde com sua proximidade aqui neste blog! Fico deslumbrada sim, os grandes autores sempre me foram tão distantes, a maioria homens, estrangeiros. É um regozijo ter você na minha mesa de cabeceira, aqui, quiçá, um dia, em todas as bibliotecas do Brasil. Acho você genial, sobretudo porque é tão jovem! Parabéns! 

  6. 21 de fevereiro de 2012 9:38 pm

    Bom que digitei o conto! Assim todo mudo tem o que MT pensa e escreve ante seus olhos!!!

  7. 21 de fevereiro de 2012 11:53 pm

    A ação de comprar a corda ou a necessidade dela perde o sentido diante a sedução pelo vendedor, o foco não tem importância, só a sedução e essa sedução é torna-se a própria ação do texto. mas para que preciso mesmo de uma corda? Cordas prendem tanto quando um homem, seu calor e pedrinhas de gelo, mas a cena também liberta a comprador da importância de ter algo, prender algo.

  8. 21 de fevereiro de 2012 11:54 pm

    o comprador

  9. 22 de fevereiro de 2012 1:52 am

    Uaau…Que saudades disso tudo!
    Amo essa sua narrativa envolvente.
    Beijos

  10. Deborah Malheiros de Mello permalink
    22 de fevereiro de 2012 12:29 pm

    Incrível como os ‘mortos’ se dão ao direito descutir o sentido da vida…
    Belo texto!
    Obrigada pelo prazer da leitura.
    Bjs

  11. logoapokatastasis permalink
    22 de fevereiro de 2012 5:04 pm

    Reblogged this on logoapokatastasise comentado:
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  12. Rodrigo Bertazzo permalink
    23 de fevereiro de 2012 1:39 am

    Existe um lugar e um momento. Um lugar e um momento onde somos realmente livres. O lugar: nos pensamentos, sem palavras. O momento: na decisão. As consequências, os verdadeiros e justos, carregam no bolso ou na bolsa, sem reclamar nem por um segundo do peso. Bjo

  13. Vitor Flores permalink
    24 de fevereiro de 2012 2:58 pm

    Claustrofobia mental. O Tempo se expande e não parece que vai passar, nunnnccaaa.

  14. pedro_ishi permalink
    24 de fevereiro de 2012 2:59 pm

    aprendi a gostar dos melancólicos.

  15. evelyn barboza permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:03 pm

    quero magnólia…!!!

  16. Flavia Flaria permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:08 pm

    Amei o Conto. Esse é realmente um belo texto. Parabéns!

  17. 24 de fevereiro de 2012 3:08 pm

    Gostei.

  18. 24 de fevereiro de 2012 3:10 pm

    Estou candidata a ganhar um ex. da 3.ed. de Magnólia!!! Coloca meu nome mil vezes!!! rsrsrsrr

  19. 24 de fevereiro de 2012 3:16 pm

    Da corda ao pensamento. Dar corda à imaginação. Direto na veia mais este maravilhoso conto. Valeu! Eu gostei.

  20. darkdavid10aqw permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:22 pm

    mas ela já tinha dobrado a esquina.

  21. CIntia permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:22 pm

    Amo como você descreve, os pensamentos, a parte visual, do espaço… o ritmo, o tempo. E eu queria que a moça voltasse.

  22. Rafael de Lima Moraes permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:31 pm

    Sensacional!!

  23. Karina Jucá permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:32 pm

    mas ela já tinha dobrado a esquina.

  24. 24 de fevereiro de 2012 3:41 pm

    Conto intrigante, instigante e arrebatador. É maravilhoso ganhar tempo com leituras assim. Sinto-me atada pelo enredo tão bem construído. Parabéns sempre, Márcia Tiburi!

  25. Gilvan Albuquerque permalink
    24 de fevereiro de 2012 3:45 pm

    O texto é, como sempre, angustiante e agudo! Quero o livro, hein!

  26. 24 de fevereiro de 2012 3:57 pm

    A moça sumiu…a corda é para armar sua rede na sombra!…enquanto ê O Manto!!!!!

  27. 24 de fevereiro de 2012 3:59 pm

    A moça sumiu…a corda é para armar sua rede na sombra!…amparo para ler O Manto!!!!!

  28. Rosangela permalink
    24 de fevereiro de 2012 4:05 pm

    Lindo texto e muito reflexivo! De corda em corda, vivemos nós, as mulheres, sempre a esperar que um laço nos ate para sempre a alguma felicidade.

    Bjo, Marcia, e parabéns pelo blog!

  29. André Amorim permalink
    24 de fevereiro de 2012 4:58 pm

    Ah… Que conto Bacana…
    Esse olhar sinestésico, apreensivo e revelador foi um experiência interessante…
    Valeu a pena a leitura… A digitação…
    Fiquei curioso de conhecer a revista…

    Beijo…

  30. 24 de fevereiro de 2012 5:45 pm

    Esse texto em prosa me lembrou muito Saramago e Hilda Hilst, pelo formato. Diálogos que chegam bem próximos da forma coloquial da língua, misturados a um ritmo sofrêgo do leitor. Mas necessário para a virada do texto: de prosa reflexiva para o final fantástico que é característica de um conto.
    Gostei muito pq tenho lido os seus artigos e vasculhado a net à procura de mais. E é a primeira vez que leio um texto literário seu. Me encanta muito saber que és talentosa nesse genêro tbm. Parabéns.

  31. 24 de fevereiro de 2012 6:26 pm

    adorei os nós, desatei em interpretações. Fértil.

  32. 24 de fevereiro de 2012 6:31 pm

    Sobre quem não sabe conviver com os nós e a ordem das coisas, essa é uma trama provocativa!
    Recentemente tomei conhecimento de um professor dos meus tempos de faculdade que cometeu suicídio no jardim de entrada de sua residência, utilizando um cinto. Ele foi a pessoa digamos mais “próxima” que conheci a cometer tal ato, seu post me fez relembrar do que aconteceu, ele parecia ser uma boa pessoa.
    De qualquer forma também não entendo, essa pressa, essa falta, essa tal necessidade. Tomara que o ato dessa moça, sim, tenha lógica! Abs!

  33. Gustavo Costa Pinto permalink
    24 de fevereiro de 2012 6:51 pm

    ACEPÇÃO DUPLA – POESIA E PROSA – PARA ESTE BELO CONTO:

    Um homem se mensura pelo ato;
    não importa o que teve, cria ou leu.
    Importa o movimento provocado

    que inopinadamente sucedeu
    a outros homens iguais. Iguais na dor
    que entretanto nos alimenta a sede.

    Saber-se poço, sim, do que é passado
    Mas nunca se atirar à mesma rede.

    Um ato é mais que a força da palavra.
    É ainda maior do que o não dito.
    Agir – estar no mundo – independente

    do que se diz ou pensa. Estar no mundo
    sabendo que de fato não se está
    no mundo – esse que vemos e onde somos.

    Errar é conseqüência de um conceito:
    o mundo assemelhar-se ao que supomos.

    Reside a semelhança nessa busca
    de qualquer ser humano: a liberdade,
    que é somente ideal. Não repercute.

    Um dia alguém soprou e nesse sopro
    seguimos levitantes pelos anos.
    Intuitivamente fenecendo

    nessa arte de se descobrir
    na mesma roda eterna do destino.

    Viver então é repetir os gestos.
    Os gestos que já foram repetidos
    os gestos que serão somente gestos

    iguais. De homens iguais. Dias iguais.
    Em tese, pelos mesmos pressupostos,
    é possível dizer sem desatino

    que estamos à mercê desse destino:
    nascemos e morremos. Simplesmente.

    Uma Corda Bamba no horizonte turvo: o primeiro(e único) gracejo ofertado à minha consciência.

    Analiticamente, deduzo que, na Biopolítica do pão e circo, assumi uma persona ingrata: a do trapezista mambembe – daqueles que padecem da fome de encontrar, com sapiência, uma razão qualquer para a existência. Rejeitei o pão, por me perceber tão faminto.
    No cálculo do meu degredo, descobri que os diversos nós que engendram o meu trajeto – rumo ao nada – não são meus verdadeiros obstáculos. Meu pessimismo imanente acalanta-os com uma sábia destreza. Só o mistério arde.

    A corda foi lançada. Pra onde, por quem e um porquê: inventei um sentido pra tentar mitigar a minha queda. A corda treme: ora ondula-se, ora torna-se estática. A corda me ilude! Tem certos dias que a corda se mostra frágil, carcomida e inócua. Fico feliz, pois serei vítima da fraqueza da corda e não da minha própria instabilidade. Dou passos densos e largos, na tentativa de superá-la em seu desgaste natural. Mais uma blague, um reflexo da minha projeção. A corda é impiedosa em seu jogo de espelhos.

    A corda é sempre rija. No torpor, meu desespero aflora. A corda é mutante e estranhamente bela. O tempo, seu subordinado, é o construtor do cadafalso. E a corda, ditosa, segue escusa na sua inimputável tarefa de estrangulamento.

    • 24 de fevereiro de 2012 9:52 pm

      Gustavo, que poema impressionante. Vc tem um blog ou livros nos quais possamos acompanhar o que vc escreve? obrigada por colocá-lo aqui. Abs, Marcia

    • maria paiva permalink
      29 de fevereiro de 2012 7:23 am

      Impressionante.

  34. 24 de fevereiro de 2012 7:06 pm

    Eu não sei quem está mais perdido em idéias soltas: se quem compra ou se quem vende.

  35. Aline Vanin permalink
    24 de fevereiro de 2012 7:37 pm

    Cada nó desse texto me levou a muitas reflexões. Senti uma angústia a cada linha, o que já é esperado quando leio alguns dos teus textos – mas considero um incômodo bem interessante. Parabéns, Marcia.

  36. maria paiva permalink
    24 de fevereiro de 2012 9:26 pm

    Ler desamarrou minha alma.

  37. 24 de fevereiro de 2012 10:01 pm

    Gente, e eu cheia de dedos depois de ter-lhe feito um elogio! Você abriu um concurso para eles! De qualquer forma, se é para que mais gente leia Magnolia, vale seu sacrifício! Cada vez mais gosto do que você escreve!

    • 25 de fevereiro de 2012 7:18 pm

      Doris, vc foi a sorteada, se vc já tem o Magnólia, te mando outro livro. Beijos, Marcia

      • 25 de fevereiro de 2012 7:48 pm

        Fiquei muito contente! Será meu melhor presente de aniversário! Além da Trilogia Íntima já tenho Olho de vidro. Um super abraço! Obrigada!

      • 26 de fevereiro de 2012 12:42 pm

        Então, Doris, manda pra mim o seu endereço para o email contato@marciatiburi.com.br que eu te envio outro que vc não tenha. Parabéns pelo aniversário!!! beijos, Marcia

  38. Lara permalink
    25 de fevereiro de 2012 1:51 am

    e, talvez, no fim, um e outro aprenderam um pouco mais a desatar nós, ou conviver com eles. a mim, me instigou essa aprendizagem, tão necessária.

  39. olimar freitas da silva permalink
    25 de fevereiro de 2012 2:06 am

    oi.
    nao vou ficar puxando seu saco, mesmo pq nem tens saco pra puxar, nao lhe conheço pessoalmente, minha escrita e pobre , mas sua literatura ou melhor seus dizeres e saberes me arrebatam, li nao entendi quase nada, mas algo em vc que me atrai e me faz reinventar minhas ideias sobre mim e sobre a grande presença da vida. me da logo meu livro e para de enrolaçao . bix

  40. Melchisedec permalink
    25 de fevereiro de 2012 4:18 am

    Este texto me lembrou de algo muito interessante sobre as potencialidades de que falava Aristóteles, das quais ouvi Márcia falando num programa exibido há muito tempo. A morte como potencialidade da vida e vice-versa, o ‘jogo de poderes’ no qual aquele que alimenta pode ser também aquele que fará faminto, ate que não reste nada. Uma característica linda, tanto da filosofia quanto da literatura, e acredito que nesse caso tenhamos muitos das duas, é esse poder fascinante de fomentar as potencialidades, onde o ‘tudo’ pode ser ‘nada’ e o ‘nada’ pode ser ‘tudo’, sempre de acordo com a lente que utilizamos para contemplar, assim como os personagens se veem através do copo, da água… ótima construção de texto, adoro ler o que a Márcia escreve e discutir com ela, mesmo que, por agora, apenas em meus pensamentos.

  41. Jáderson Porto permalink
    25 de fevereiro de 2012 1:16 pm

    Gostei bastantão do conto, lembrei de uma venda que eu frequentava quando criança.

  42. 25 de fevereiro de 2012 1:19 pm

    Texto cheio de sensações: cheiros, cores, impressões. Delícia de leitura prá todos os sentidos…

  43. Roberto Terra permalink
    25 de fevereiro de 2012 1:36 pm

    Dá sensação de “cabo de guerra” um puxa outro puxa… A corda ganhará mais liberdade e o balcão é quem tem mais razão.

  44. 25 de fevereiro de 2012 1:43 pm

    Querida ,
    Em primeiro lugar : te amo ( estranho ,né? ) !
    Oque tenho aprendido sobre filosofia…é com a vida ,no dia a dia.
    Com essa enorme vontade que tenho de aprender.

    Bom ,sobre o conto ,posso dizer que me arrepiou ! Vi tudo como se estivesse lá,na própria cena.
    Ao mesmo tempo me fez refletir ,que existem realmente aqueles que não acham sentido em nada na vida em que vive. E poderiam até mesmo aproveitar esse nada para ser feliz , como por exemplo : escrevendo um ou vários livros .
    Não sei esplicar ,mas amei o conto e toda a observação !
    Um Beijo Márcia Folhaça .

  45. Marilia Schmitt Fernandes permalink
    25 de fevereiro de 2012 1:46 pm

    Dá corda, ata, desata…dá tempo ao tempo, realinhava, remenda, arremata, arrebenta e por fim… arrebata!

  46. 25 de fevereiro de 2012 1:51 pm

    cheio de literatura!

  47. 25 de fevereiro de 2012 1:52 pm

    (…) dos bons encontros e os seus bons contos.

  48. Vera Luduvice permalink
    25 de fevereiro de 2012 1:53 pm

    Seu texto arrebata, envolve. Prende a corda, refresca a água, banaliza a televisão, na esquina a morte.

  49. Jettro7 permalink
    25 de fevereiro de 2012 2:11 pm

    Muito bom, Não sei se gostei mais da descrição da moça ou do homem… o fato é que de ambas as posições você arrebentou, Parabéns!!!

  50. Caio Sumatra permalink
    25 de fevereiro de 2012 2:13 pm

    Genial, Marcia. Genial! Incrível como podemos ser espelhos daquilo que não somos, mesmo sem querer, ingenuamente. Todos nós carregamos um peso de História por trás de nós. São nossos espectros do passado, moldando quem nós somos. Não há uma verdade exata, linear, única. Aliás, talvez seja única mesmo. Única para cada pessoa… Parabéns Marcia! Ótimo conto!!

  51. Meiriane permalink
    25 de fevereiro de 2012 2:24 pm

    Fiquei presa!

    Mesmo sendo um texto bastante “cinza” para se ler numa manhã de sábado, me senti mais forte, mais viva. Obrigada, Márcia! Sou tua fã.

  52. 25 de fevereiro de 2012 3:21 pm

    Fui tecendo tramas e dramas com a corda, tramas grossas, pesadas, urdidas. Os dramas são pessoais, únicos e existenciais. Vai saber? Fiquei enredada na leitura, adentrando no recorte das vidas que se cruzam por acaso e constroem significações e sentidos.

  53. 25 de fevereiro de 2012 3:50 pm

    Conto envolvente que cria expectativa entre o texto e o leitor. Através de um narrativa simples, o conto “Cordas” aborda temas encontrados na sociedade. A narrativa mostra dois mundos diferentes (duas cordas): o mundo do homem gordo (representividade de fartura) que dá muita importância à televisão e possui uma loja de ferragens (capitalismo). E o mundo da mulher, o qual não se sabe se realmente usará a corda comprada para o suicídio, sendo que essa visão ficou mais objetiva em relação ao pensamento de que homem gordo teve para o uso do objeto pela cliente.
    Podemos criar um paralelo metafórico em relação à corda que pode ser vista como a vida, pois possui seus nós e pode ser rompida através de um ato brutal, no caso do conto o homem usa a tesoura de jardinagem para cortar o tamanho que acha que apropriado para o uso da mulher. Dessa forma, o homem rompeu (cortou) a corda da maneira em que ele achava apropriado, sem ao menos perguntar à cliente se aquele era o tamanho ideal de que ela necessitaria para o uso do objeto.
    Gostei muito do texto, pois através do uso de sinestesias e cromativismo, faz com que o leitor visualize os fatos e as cenas narradas parte à parte. O bacana foi que a autora utilizou os dois pontos de vista: primeiro o da mulher em relação ao homem gordo e depois o ponto de vista do homem gordo em relação à mulher. Dessa forma, nota-se que através de um objeto (a corda) foi possível criar dois mundos, duas histórias. Parabéns pela brilhante e envolvente narrativa.

  54. Daniele permalink
    25 de fevereiro de 2012 4:54 pm

    “(…) falta de realidade, falta de ver televisão, de pensar nas contas do final do mês (…)” Já escutei isso, várias vezes…Tipo, assiste Big Brother que a depressão e vontade de morrer passa…a televisão acaba com a tristeza e ter que correr em busca do pão de todo dia também…rs…Minha avó sempre me diz isso…Tem muita gente que pensa assim, como este vendedor personagem…Engraçado que muitas pessoas acreditam mesmo que a tv mostra realidade e se anula pois prefere as emoções das mocinhas de novelas e as festas do “BBB” do que viver a própria vida…Não sei se captei o real tema do conto,se é que ele tem um…Mas me identifiquei, de certa forma, com a melancolia e até a aparente loucura da moça que compra a corda, principalmente pq vi no vendedor minha avó, meu pai, entre outras pessoas que usam a tv como uma prótese para seus próprios olhos…

  55. 25 de fevereiro de 2012 5:15 pm

    Márcia, até fazendo literatura você não deixa de ser filósofa. Adorei!

  56. Moisés Nathan permalink
    26 de fevereiro de 2012 12:37 pm

    Adorei o seu conto. Aliás, tudo o que vc escreve eu gosto!

  57. 24 de abril de 2012 12:25 pm

    Oi Marcia! Há poucos dias conheci teu blog, e vou lendo aos pouquinhos. Gosto muito de ler, e o que eu conhecia de você era através do Saia Justa, e algumas opiniões suas que li aqui mesmo (um tanto radicais). Mas não conhecia a tua escrita.
    Sou do tipo de pessoa que quando escolhe um livro, reza para se surpreender com a história. E devo dizer que isso acaba de acontecer.
    Que feliz que me sinto neste finalzinho de manhã após ler este belo conto!
    Virei tua fã agora!
    Bjos!
    Bibiana.

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