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O Filho

28 de fevereiro de 2012

Quando o menino nasceu, vi uma sombra escura apagar o brilho que entrava pela janela, parecia sombra de árvore, mas veio com um vento gelado em pleno verão, como se invertessem o dia, vi um filme quando mocinha, o dia em que a terra parava, era a mesma sensação, mas o menino cresceu, diferente do pai, não quis ficar na ferragem, preferia tocar violão, só que tocava mal o coitadinho, arrebentava as cordas que davam em cheio no rosto, eu sempre o achei muito magro, a arrebentação sangrava a testa, coisa feia de ver o coitadinho assim ferido, se ferindo, cansado como um passarinho que escapou das dentadas de um cachorro bravo, cada dia mais magrinho como se perseguido pela morte, não de morte, que ninguém se incomodava com ele, mesmo adolescente nunca atrapalhou os vizinhos, parecia um vagido de fome, nunca tomou coisa alguma, um suco, um leite com chocolate, nada que fizesse bem nem mal, eu fazia feijão, ele não comia, macarrão, ele nem tocava, era magrinho como uma pena e a cada dia que passava parecia lhe sumir um dos lados, até que um dia acordei mais cedo ouvindo um grunhido de corvo, cria cuervos, dizia meu pai quando era vivo e morava aqui conosco sempre sentado na soleira da porta esperando passar a Graciema, a vizinha da saia curta, a única alegria do velho, eu nunca me importei, nem ela, era um moça que entendia a miséria da vida, mas meu pai ficava ali e iam sumindo aqueles lados do menino, até a nossa memória ia apagando pelo costume de não ver, um dia ficou só o fiapo do papel visto de lado e se eu quisesse falar com ele tinha que esperar um assobio ajudado pelo vento que entrava pela janela, porque a boca gastava todo o sopro pra emitir uns cicios vagarosos quando ele precisava de alguém, fosse eu, fosse outro  que o mudasse de lado, com o tempo fui colando o lado que ainda aparecia na parede com cola branca, antialérgica que era pra ver se durava, a Graciema passou por aqui e sugeriu um spray que fixava grafite, mas eu achei um exagero de caro e não precisava disso de fixar os traços, era mais uma questão de cor, mas fixador de cor a Graciema disse que não existia, e o pai dele na ferragem disse que nunca comprou uma coisa destas, devia ter em outro tipo de loja, de material para artistas, não coisa de peão de obra, que ali não haveria de ter nada que iludisse ninguém, só coisas úteis, nada de bobagens, nada destas esquisitices, nem corda de violão, só corda séria, corda de verdade, não adiantava insistir, eu não insisti, que eu não sou besta, deixei o garoto colado na parede até que veio uma chuva quando a janela estava aberta e o coitado molhou tanto que não adiantava mais querer salvar, embrulhei bem dobradinho, depois de secar ao sol, ficou enrugado, desapareceu o sorriso num trejeito de esgar, parecia que gritava atônito, a Graciema sugeriu que eu passasse a ferro para voltar à forma original, mas eu que conheço estas coisas sei que nunca voltaria, forrei uma caixinha com papel pardo, perfumei um pouco pra ajudar a não dar cheiro, e guardei no armário em um lugar bem silencioso que é pra eu esquecer, de vez em quando abro a porta devagar,  toco na caixinha pra saber a temperatura, uma vez abri e vi que continua lá, mas se alguém pergunta onde está meu filho, eu só digo que foi estudar longe.

12 Comentários leave one →
  1. 28 de fevereiro de 2012 2:10 pm

    Bom dia Márcia.
    Quantas pessoas temos em nossas caixinhas forrada, ou não, de papel? Quantas nos damos conta de que não vingarão, nem prá elas e nem prá nós. Quantas relações já nascem fadadas ao encaixotamento?
    Tiburi vc sabe como promover a reflexão. Não dá para ficar no raso, na superfície. Fazer uso da filosofia as vzs não convém. Mexe, entorna, transborda, desinvagina, aborta,desencadeia. Um abraço.

  2. 28 de fevereiro de 2012 2:25 pm

    E eu vou ler mais umas vezes. A sala aqui está barulhenta, talvez a pouca concentração tenha me feito pensar em uma outra faceta de sua veia literária. Talvez seja apenas originalidade! Noutro lugar teria dificuldade de reconhecer como tiburiano!

  3. Benedito de Oliveira Santos Júnior permalink
    28 de fevereiro de 2012 2:25 pm

    A história da mãe soa como uma desculpa. Dói-lhe menos criar a hiostória toda. Uma folha dobrada a se encontrar com ela nos seus acasos de gaveta, em suas buscas do que vasculhar.

    Dói-lhe a distância de quem viajou. O despeito de quem ficou. O sentimento de quem se acha abandonado pelo passado, sem admitir a necesidade do presente que o outro busca. Eventuais encontros com ele na gaveta a livra da dor egoísta pela partida.

  4. mariana permalink
    28 de fevereiro de 2012 3:01 pm

    li ao som de estrela estrela, do ramil e foi me causando uma sensação de sincronia com o ritmo quase sem pausa da canção. depois pensei que ele bem poderia ser o papel dobrado que vai no céu, céu, como um balão, sempre a ver a mãe lá de cima. e essa mãe, que fala tudo numa só respiração, como as tias do interior a contar um causo. sem tempo para ponto final. um presente este blog :]

  5. Aurora da Graça permalink
    28 de fevereiro de 2012 3:04 pm

    Você tem razão, Doris. Afinal, é uma outra faceta da Tiburi porque ela uma escritora de imaginação fora do comum. Como uma bolha de chiclete sua veia literária explode em nossa cabeça. Essa forma é a nova literatura? A história do Filho fica latejando. Haja porta fechada do armário…

  6. Gustavo Costa Pinto permalink
    28 de fevereiro de 2012 7:03 pm

    Todas as forças que a alma humana cria
    pareciam chorar ouvindo o brado
    que vinha do equilíbrio dissipado
    pelos sons ilusórios da alegria!

    Teremos de viver a mais profunda!
    a mais profunda das contradições:
    a força que alimenta os corações
    decorre de um essência moribunda!

    Naturalmente, tudo se desbota:
    a luz que nos dá vida é a que nos mata;
    ninguém se furta à hora da derrota.

    Somente eu fiquei na ânsia ingrata,
    como um viajante que perdesse a rota
    sentindo a dor universal sem data!

    Uma alteridade parda traduzida na esqualidez de uma criança colada à parede – sempre a ruir. Um filho, supostamente morto em seu nascedouro, aviva-se no féretro da dor-apêgo. No mais, é o que nos resta: acalentar nossa criança pra preencher a lacunosa experiência da existência.

    Lindo Conto! 🙂

  7. Andreia Reis Dos Santos permalink
    28 de fevereiro de 2012 7:51 pm

    Quem nunca teve uma caixinha…..eu tenho uma..só espero q qdo eu abri-lá nada tenha virado pó….

  8. Tiago Savio permalink
    29 de fevereiro de 2012 12:41 am

    Oi Márcia. Que ótima a voz narrativa desse conto, ficou lindo. Saudades. Beijo.

  9. maria paiva permalink
    29 de fevereiro de 2012 7:27 am

    Que emocao.
    Que emocao.

  10. 29 de fevereiro de 2012 10:49 pm

    Marcia, concordo com a Dóris.
    Fui lendo, lendo, lendo e não consegui identificar você neste texto.
    Não pelo conteúdo, não pelo questionamento e sim pela forma.
    Poderia afirmar que este texto não é seu… Mas com que finalidade Tiburi faria isto???rs
    Ando fraca de palpites. E esta foi só a impressão que me passou.
    Grande beijo, e grande texto!

  11. Vera Luduvice permalink
    1 de março de 2012 12:15 am

    Novamente a corda a enlaçar o texto. Bacana.

  12. 4 de março de 2012 5:52 pm

    Gosto muito desse!

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