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MÃE DESNATURADA

1 de março de 2012

Da minha coluna da Revista Cult 

A auto-enunciação do desejo das mulheres e a desconstrução do mito da maternidade

A maternidade é um mito que necessita de urgente desmontagem crítica. Eis a tarefa que a filosofia feminista deve colocar para si mesma hoje em contextos culturais que não promovem a liberdade de escolha das mulheres, pela qual, a propósito, apenas elas podem lutar.

Em tais contextos administrados pela ideologia masculinista, mulheres que abortam ou afirmam não querer ter filhos são vistas como anormais. Do mesmo modo, mães que não ajam segundo certo padrão de maternidade em que a dedicação total à criança é a lei, seja por cansaço ou falta de afinidade com o mundo dos cuidados, são vistas facilmente como perturbadas.

Pelo simples fato de desejarem carreira, diversão ou uma simples vida mais livre, muitas mulheres se sentem culpadas, ou desistem de um projeto profissional ou pessoal. Praticam a maternidade como a condenação heteroimposta.

Certo é que colocar pessoas em um mundo como o nosso não é uma tarefa para quem não esteja muito bem preparado, mas raramente se pergunta a uma mulher se ela está, pois que não se espera dela que não esteja. Há um dever imposto às mulheres, mas ele é mascarado pelo argumento do “desejo que toda mulher tem de ser mãe”. O termo “mulher” acaba por designar o ser do qual se pressupõe um desejo que será sempre o de ser mãe. O dever reza que seja hábil para a maternidade pelo simples fato de poder parir fisicamente crianças.

Na cultura masculinista, “mulher” não é um conceito, mas uma ideia formada de preconceitos. Isso quer dizer que se pressupõe um saber sobre o desejo (o que sente, pensa e quer) o ser heterodeterminado “mulher” antes que ele mesmo se pronuncie sobre algo como “seu próprio desejo”. Nesse sentido, a pergunta “o que quer uma mulher?” não ajuda a sair do mistificatório circuito masculinista que, ao tornar misterioso o desejo feminino, faz parecer que exista um desejo universal da “mulher” (ela mesma um universal), e não desejos individuais e singulares de cada pessoa humana.

No processo de mistificação, o sistema masculinista usa um padrão discursivo sempre fundado na ultrapassada ideia de natureza que aos poucos se torna clichê cansativo. Contra a pré-suposta “natureza da mulher” ou a suposta maior proximidade da “mulher” com a “natureza” coloca-se o homem como um ser de cultura e de racionalidade. A mulher fica com a “sensibilidade”, o instinto, a irracionalidade etc.

Não quero ser mãe

Uma mulher enunciar “não quero ser mãe” soa como algo absurdo à moralidade patriarcal desde que a maternidade é vista como função natural, não determinada culturalmente. Segundo o preconceito da “natureza”, uma mulher deve querer ter filhos e não deve pensar nem dizer que não quer. Por trás dessa ideia, vai o subtexto: “mulher” não deve ter opinião, muito menos desconstruir opiniões vigentes. Pois uma mulher que fale negando a natureza, sobretudo da sacrossanta “maternidade”, nega duplamente o estigma dado pelo masculinismo: além de expressar-se, o faz dizendo que não quer ser mãe quando se esperaria dela o contrário, que não se expressasse e se tornasse mãe.

A simples negação na segunda potência põe o discurso masculinista em xeque. A frase tem o poder de negar a marcação como mãe (lembremos que a mulher é sempre marcada: como bela, boa, gostosa; ou feia, frígida, mal-amada etc.) por meio da qual uma mulher se tornou escrava da cultura da qual ela não pode participar senão na condição que esta mesma cultura a priori determina para ela, manipulando sua consciência, seu corpo, sua ação.

Só que o masculinismo é uma retórica prepotente que manipula agilmente suas armas: a “mulher” que se pronuncie contra ele (e basta pronunciar-se) será marcada com heterodeterminações desabonatórias. A “mãe desnaturada” é como o escravo que ousa desobedecer ao patrão e não é interpretado senão como um fujão mal-agradecido.

A maternidade como imposição cultural é uma manipulação dos corpos femininos e, como tal, não é ética. É isso que está em jogo quando mulheres são tratadas como “meios” do projeto de vida de outros e não como um fim em si. Somente o autoenunciado do desejo feminino é capaz de libertar as mulheres. Ele é o ato feminista por excelência, a ação discursiva e performativa que faz do feminismo uma ética em que está em jogo a soberania do desejo feminino.

A soberania que apavora os moralistas quando se fala em aborto é a mesma que enerva o cafetão. A mãe desnaturada é o nome que o moralismo encontra para sustentar autoritariamente a suposta verdade sobre o desejo das mulheres. Na contramão, a pergunta “o que quer o homem com o desejo das mulheres?” talvez nos ajude a entender melhor os subterrâneos de nossa cultura.

20 Comentários leave one →
  1. 1 de março de 2012 1:32 pm

    O pré/julgamento, em geral, neste universo realmente masculinista desce guela abaixo como remédio. amargo. que não cura. nem acalenta.
    Seu artigo é corajoso pela capacidade sua de se expor.

    • 1 de março de 2012 1:45 pm

      Não penso que seja uma “autoexposição” crítica. Meu papel de filósofa é expor mesmo, não ter medo de expor uma ideia. Se trata neste artigo da exposição de um argumento a ser levado a sério universalmente.
      Bom que mulheres falem de suas questões. Só isso combate o masculinismo que está sempre com os discursos prontos. Obrigada pelo comentário. abraços, Marcia

  2. Rafa Venancio permalink
    1 de março de 2012 4:40 pm

    Certamente, há muito desse universo masculinista nos meus discursos e comportamentos, porém é algo que tenho tentado mudar ao tentar compreender essas relações simbólicas que são lançadas para nós. Por isso, é relevante seu papel como filósofa ao expor essas ideias para, no mínimo, fomentar o debate crítico a cerca do tema. É assim que, aos poucos, vou construindo uma visão mais ampla do que é ser humano. Obrigado, Marcia.

  3. 1 de março de 2012 5:20 pm

    Essa discussão de gêneros é muito complicada, qualquer opinião que eu expresse aqui pode ser refutada com um simples “mas você é homem”. De qualquer forma, tudo bem. Márcia, a opção de uma mulher ter ou não filhos é sim tratada pelos outros como anormalidade, embora eu acredite que seja uma opção da mulher/do casal. Em um mundo complexo e tenebroso como o nosso, dá pra entender o porquê de alguns casais ou indivíduos preferirem não ter crianças e tal. Agora (espero não ser tratado como moralista) a partir do momento em que a mulher (e o homem) não tomam as devidas precauções no momento do sexo (usando métodos contraceptivos) então ambos estão cientes do que podem estar causando a si e tantos outros.

  4. Débora permalink
    1 de março de 2012 5:50 pm

    Olha…
    Adoro criança mas não penso em ser mãe.
    Muitas amigas falam que eu tenho o “dom”, mas sempre respondo que tem uma ENORME diferença em gostar de crianças e querer ter uma.

    Vc já leu o livro: SEM FILHOS: 40 razões para vc não ter – Corinne Maier

  5. 1 de março de 2012 9:01 pm

    Ainda desconhecia em plenitude os ismos da vida quando decidi que não seria mãe. Lembro que sempre brinquei de bonecas, no entanto, não lembro de niná-las, eu as sentava diante de mim e lhes dava aulas. Nunca me imaginei mãe, sempre considerei que, por maior que seja o regozijo proporcionado pela maternidade, e deve ter um, pergunte a qualquer mãe, o preço é a própria liberdade. Então, minha condição de ser livre é tão confortável que estou felicíssima com minha decisão! 
    Quanto ao aborto, como médica, considero um problema de saúde pública, mas, a institucionalização do mesmo é uma atitude também machista, pois, exporá a mulher aos riscos que é a interrupção de uma gravidez, mesmo assistida e com todos os cuidados médicos. Fiz uma pós-graduação na França e tive a oportunidade de fazer anestesia para IVGs (interrupção voluntária da gravidez). Tudo era muito multi-disciplinar, organizado, protocolado, bem conduzido, asséptico, pois isto é o mínimo que a mulher nesta situação merece. Mas, mesmo neste contexto, não vi menos angústia nas mulheres pós-abortamento. Não importava o nível de religiosidade das que vi, a dor era notória. Também não sei o tanto de culpa, apenas a sensação de vazio relatado era unânime. Então, o melhor seria a sociedade (família) deixar de ser hipócrita e começar a educar suas filhas para serem donas de seus corpos e destinos. Quem sabe, o próprio aborto seria melhor encarado. Criam-se as mulheres como bibelôs e imbecis até a idade fértil e querem que, sem mais nem menos, elas comecem a saber de tudo, inclusive o mais importante, que não devem engravidar inadvertidamente. Não tenho o direito de ser contra ou a favor do aborto. Cabe a quem vai abortar esta opinião. É ela que estará exposta e o mínimo que se pode dar é apoio. O aborto é um direito mas não é justo. Justo seria ter o direito de escolher não engravidar, ter educação e todos os meios de prevenção à mão. Justo seria fazer muito amor ou sexo sem esta preocupação atroz!
    Ah, recebi o livro, muito obrigada!

  6. Carla permalink
    1 de março de 2012 11:07 pm

    Comprei a edição da Revista Cult só pra ler este artigo, pois tinha certeza de que quando o lesse refletiria exatamente o que eu já pensava desde a minha infância, o desejo de não querer ser mãe por escolha própria. Nunca caí nesta cilada do discurso masculinista, não carrego a tal da culpa em não ser mãe, e fico besta, com uma certa raiva até, quando vejo mulheres incorporando o discurso do “mulher só se realiza quando se torna mãe” e até mesmo criticando outras que tenham um conceito diferente. Curioso que só tive vontade de ser mãe uma única vez, quando estive apaixonada, mas aí não conta porque neste caso eu estava doente… hahahahaha. Deste mal não sofro mais, pois evoluí,sou uma metamorfose ambulante.
    Grande beijo pra ti, Márcia e parabéns pelo artigo.

  7. Ricardo permalink
    2 de março de 2012 11:12 am

    Não seria essa tal ‘ideologia masculinista’ uma tentativa de equilibrar pela via da cultura uma realidade que se nos apresentaria como naturalmente desequilibrada?
    Afinal, não deve ser à toa que enlouquecemos mijando pelos postes e espalhando símbolos fálicos de concreto pelas cidades…
    Sem discurso pronto na ponta da língua, espada afiada, flecha envenenada, revólver carregado, dedo no gatilho, inveja e ódio em dia, como reagiríamos ao poder desconcertante dessas verdadeiras – e absolutamente necessárias – divindades mitológicas?
    Como sobreviveríamos à monstruosidade de nossas mães, desnaturadas ou não?
    E quem nos garante que não estaríamos condenados a ser os filhos da sombra escura capaz de apagar qualquer brilho, como um vento gelado em pleno verão, coitadinhos assim feridos, sangrando, cansados como passarinhos que escaparam das dentadas de uma cadela brava, a cada dia mais magrinhos como se perseguidos pela morte, magrinhos como uma pena, sumindo até virar fiapo, colados na parede esperando uma chuva, sem salvação, embrulhados, dobrados, secos, enrugados, sem sorriso, gritando atônitos, manipulados numa caixinha com papel pardo perfumada para não dar cheiro até sermos guardados em um lugar bem silencioso, fadados ao esquecimento?
    E, sendo assim, quem ainda perguntaria por nós?

  8. 2 de março de 2012 1:19 pm

    amada,
    adorei! senti como o texto tivesse sido escrito para mim [que tb não pretendo ter filho], em resposta a esse bando de gente chata que não respeita a opinião, o direito de escolha alheios!

    beijo

  9. Vitor Flores permalink
    2 de março de 2012 3:52 pm

    Determinismo. ….
    Aquelas que embarcam nesta obrigação certamente sofrerão por toda vida. Pois, não serão boas mães, boas esposas, etc. Entram numa interminável cadeia de cobranças.
    O Mundo apodrece e me olham como se eu fosse um anti-Cristo, quando digo que não quis ter filhos…..

    Vitor

  10. 2 de março de 2012 4:20 pm

    Faltou dizer que a maior parte dessa cobrança por ser mãe vem das próprias mães das mulheres.

  11. Carla permalink
    3 de março de 2012 1:08 am

    Comprei a edição da Revista Cult em que foi publicado este artigo, pois tinha certeza de que, quando o lesse, apenas confirmaria o que já era um desejo desde minha infância, o de não querer ser mãe. Nunca senti a tal da culpa por este meu desejo ‘negativo’, visto como estranho pela sociedade patriarcal e até repudiado por muitas mulheres. Fico besta, e me dá uma certa raiva até, quando vejo mulheres incorporarem o discurso de que “mulher só é completa quando se torna mãe”. A única situação em que tive vontade de gerar filhos foi quando estive apaixonada, mas neste caso não conta pois estava doente… hahahahaha. Deste mal não sofro mais, evolui, sou uma metamorfose ambulante na minha sexualidade.

    Parabéns por este artigo que simplesmente externou meus conceitos, desejos e pensamentos. Grande beijo.

  12. 4 de março de 2012 1:32 pm

    Não quero ter filhos. Nem minha mulher. Quando e se quisermos, teremos. Já há gente demais nesse mundo para pormos mais, daí que adotar é sempre uma opção interessante, talvez no nosso futuro. Mas o que me encasqueta nem é tanto a decisão, afinal, ela foi tomada em conjunto, as ideias se materializaram e coincidentemente optamos por não ter filhos. O que me pega mesmo é em que medida os casais – as mulheres em especial, dada a cruz genética a mais que carregam – estão proferindo suas ideias conscientemente e decidindo por sua conta e risco. Em que medida estamos cedendo?
    Lamento ainda o fato de o casal ter de suprimir/reprimir/exprimir suas vontades por causa da condição de casal, não de indivíduo. Por mais que eu considere que as pessoas devem ter suas individualidades resguardadas mesmo estando juntas por opção, no fim das contas, é a mulher o alvo da maior parte das responsabilidades: parir, sair de casa, denunciar um agressor, ir aos estudos, “trair”, reificar-se. Tudo isso no homem (exceto, lógico, parir) é mais facilmente assimilado pela sociedade.
    O machismo nada mais é que um grito, um ulo selvagem na peça contra o “coadjuvantismo” no qual os homens sempre estiveram. E estarão.

  13. alice permalink
    4 de março de 2012 3:27 pm

    texto bastante bacana
    esta é só mais uma das tantas imposições que as mulheres
    sofrem ao longo de suas vidas.
    Quando dizemos não e não estamos dispostas a calor-nos
    diante da “ditadura machista” somos chamadas de feministas.
    Eu digo Não mesmo e continuarei dizendo se necessário.
    Gosto muito da sua postura… parabéns pelo texto.

  14. 4 de março de 2012 9:31 pm

    nunca quis ser mãe, mas sou uma mulher maternal…
    ótimo texto, passou da hora de desconstruir esse fardo.

  15. Tatiane permalink
    11 de março de 2012 11:33 pm

    Tenho 28 anos, sou casada e não quero filhos, até o momento meu marido também compartilha da mesma postura, e quanto mais velha vou ficando meu desejo de não ser mãe aumenta na mesma proporção. E, realmente, tenho evitado falar neste assunto, digo apenas que não tenho planos para ter filhos, quando alguém me pergunta com todas as letras “você não vai ter filhos?”, de forma geral não exponho simplesmente minha opinião, guardo pra mim minhas razões, já que a reação das pessoas é, imediatamente, condenatória, ou consideram minha escolha como uma afronta, uma atitude egoísta, e, finalmente, a pior de todas as sentenças: não adianta você não querer, quando deus mandar, você vai ver só.

    • 12 de março de 2012 1:41 am

      Chega a dar medo das pessoas nessa hora. Acho que essa é uma descoberta e um direito. Que bom que vc já está na frente do seu tempo. Um beijo, Marcia

  16. Evelyn permalink
    3 de janeiro de 2013 1:54 pm

    Esse artigo ficou perfeito!!!!!!! Está escrito exatamente tudo o que eu penso.

  17. Davy permalink
    9 de setembro de 2013 3:57 pm

    Maravilha ler o artigo e tantos depoimentos tão bem expressos. Gostei de ver as opiniões dos meus ‘congêneres’ – muitíssimo lúcidas. E gostei também das ‘outras’, as opiniões de mulheres decididas, inteligentes. Sem dúvida, a maternidade é um dom, um bem, uma bênção – para quem a deseja. Para os demais, e é bom que continuem minoria – ‘nem phudendo’, como se diz atualmente. Quanto ao aborto, proponho que a pílula do dia seguinte é a salvação. Quem leu o capítulo “Onde Foram Parar Todos os Criminosos’, no livro ‘Freakanomics’, sabe do que estou falando. A tese proposta ali é que filhos não desejados são os ‘filhos da puta’ de amanhã, e como tais irão se comportar a não ser que algum milagre interceda. Parabéns por essa espinafração merecida à arrogância do ‘masculinismo’. Mas as mulheres ‘paridas’ que pretendem vingar sua má sorte impondo-a a outras também são culpadas!!!

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