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FIM DO MUNDO

13 de março de 2012

Da minha coluna da Revista Cult do mês passado

Sobre as vantagens e desvantagens da crença no fim do mundo para a vida

 

2012 é um ano marcado com o que para uns é possibilidade e, para outros, mera neurose popular, a curiosa crença no fim do mundo. Nem uma coisa nem outra, a crença no fim do mundo inventada pelas religiões é, de certo modo, uma hipótese tão importante na economia política da qual as ideias fazem parte como a teoria do Big Bang ou as narrativas míticas de povos em geral, sejam os gregos, os africanos ou americanos nativos que se ocupam de um começo. O gênese bíblico até hoje faz muito sucesso. Mundo é uma ideia que ocupou filósofos metafísicos de Platão a Leibniz, de Descartes a Kant, até os contemporâneos. Uns dizem “o mundo”, outros dizem “meu mundo”, enquanto é bom lembrar que Giordano Bruno falava em “mundos” e acabou sendo morto por isso. Daí que muitos tentem controlar a ideia de mundo evitando que se pense na ideia de um “outro mundo possível” em termos sócio-econômicos, por exemplo. O controle sobre o que podemos chamar de mundo das ideias que circulam por aí pela religião ou pela publicidade define práticas tão simples como o desejo de comprar um carro ou a música que se há de ouvir.  Das ideias advém as ações. Nenhuma novidade.

A crença no fim do mundo se tornou ainda mais popular com a advento dos meios de comunicação de massa. A religião compartilha com eles o poder de difusão das ideias. Se antes o sacerdote falava para a multidão no púlpito, hoje ele fala nas telas para maiorias impressionantes e nem precisa acreditar no que diz. A força da crença no fim do mundo prova que vivemos num mundo carregado de religião ainda que pareça secularizado: dizer que o capital é Deus e que a mercadoria é o fetiche não é novidade. Problema é de quem acredita nisso e de quem, não acreditando, precisa engolir. Só que, enquanto crença, o fim do mundo é, como aquela coisa de podre que havia no hamletiano reino da Dinamarca, uma parte incômoda no pacote da crendice que religião e publicidade vendem, cada uma, à sua maneira.

Para crer em qualquer coisa é preciso não pensar, seja em Deus seja na “marca”. No cálculo geral que a razão faz sobre a vida, para muitos é melhor simplesmente crer e deixar de lado o ponto de interrogação que deveria acompanhar nossos atos de pensamento mais básicos. A crença no fim do mundo está em voga, mas a crença na eternidade do mundo também. A verdade dominante pode até admitir o juízo final judaico-cristão, mas a profecia das minorias, seja a maia, a oriental ou a africana deve ser ridicularizada. Seria para evitar a tristeza, a depressão das massas, a melancolia inevitável da ideia?

De que melancolia ou de que depressão se trata de evitar? Quando se fala nestes afetos negativos na indústria geral da felicidade que promove o desejo pelas marcas, objetos e corpos perfeitos, é preciso pensar em dois pesos e duas medidas: há uma depressão fomentada – a falsa pela falta de poder de compra – e outra a ser evitada – a verdadeira, pela percepção do sem-rumo no qual se estabelece a vida em sociedade. Fato é que as pessoas não creem realmente, elas apenas precisam dos resultados e efeitos positivos que as crenças tem diretamente sobre a vida. A consciência acomodada pode não ter paz, nem prazer, mas terá sua satisfação imediata e ilusória comprando ou injetando drogas autorizadas ou não. Ou simplesmente crendo que tudo está bem.

“Fim do mundo” pode parecer uma ideia inútil, mas nos ensina o sentido da profecia em nossas vidas, ajudando-nos a pensar a verdadeira questão do futuro: teremos futuro? Futuro é uma palavra abandonada no vocabulário da felicidade comercial vendida em nossos dias. Se o planeta desaparecerá um dia e com ele a espécie humana é questão inevitável. Não somos para sempre, mas olhar para a nossa morte implica rever o sentido da vida. E este desejo não está à venda no mercado.

 

 

6 Comentários leave one →
  1. 13 de março de 2012 4:14 pm

    marcia, ao pensar esta questão de “fim do mundo” gosto de tecer uma trama, teia, ou um pari (gradeado indígena para pesca) com cinco nós: a noção de “terminalidade” de julio cabrera, o “paradoxo da informação” de steven hawking, a ideia de “o seguro total” no “princípio da crueldade” de clément rosset, a metafísica indígena da “predação generalizada” de astecas e tupinambás, e claro, marcia, sua genial reflexão do “corpo oculto” em sua “filosofia cinza”. a trama me fornece coisas interessantíssimas, como por exemplo, um “elogio da depressão”: acesso privilegiado ao(s) mundo(s), talvez mais poderoso que a “angst” de heiddeger, ou mesmo, a ideia de “inteligência libidinal”, algo mais fundamental que até mesmo a “inteligência afetiva”. como assim? simples, a depressão me abre a todas as potências e significados da finitude (todas as coisas tendem a um fim inevitável e irrevogável – em outras palavras, tudo é ao mesmo tempo naturmortal e anticultural) e a libido é minha relação fundamental com mundo(s). pensando o fim do mundo por essa trama de cinco pontas (um pentagrama ? – rs) me coloco na seguinte condição: estou-aí (para brincar com heiddeger) no(s) mundo(s) ao mesmo tempo deprimido e lascivo.

  2. Marcello permalink
    13 de março de 2012 4:14 pm

    Parece que de alguma forma a sutileza infernal das mentiras que sempre prevaleceram para a manutenção das vantagens de uns poucos à custa de sofrimento inútil de muitos tem chegado ao ponto em que o cômico desvela o trágico…a roda gira em falso, a cortina não desce. Sem uma primavera ética, como evitar o outono para lobos e cordeiros?

  3. 13 de março de 2012 9:18 pm

    Pode até acabar, mas que dê tempo de cobrir o fim, do mundo ou o meu! Particularmente, se é pra desejar um fim, desejo o fim da cultura que conhecemos, e sem direito a recomeço. Um começo seria mais apropriado.

  4. Patricia permalink
    15 de março de 2012 6:08 am

    Márcia, oi

    Como vc segue vivendo ok, se como eu parece não ter fé nas pessoas, consequentemente na sociedade e na vida?
    A fé em seja lá o que for não é só um jeito de não enfrentar o fato de que essa vida não tem sentido algum?

  5. José Eduardo Oliveira De Vincenzo permalink
    28 de março de 2012 5:09 am

    Márcia Tiburi, uma mulher que ficará na história, na parte boa da história, ao lado de outras importantes mulheres para a humanidade.

    Legal estar vivendo ao mesmo tempo que você, mas gostaria de também poder viver o que o futuro dirá sobre você.

    Uma diferente e interessante abordagem vc fez do tema “fim do mundo”, mas bem complexa, uma leitura difícil, densa, um tanto incapaz de prender leitores e leitoras.

    Precisei ler três vezes para conseguir montar uma idéia geral sobre o texto, assim mesmo sei que muito está me escapando.

    Sim, te incomoda tudo que manipula o mundo, que manipula as pessoas, principalmente se a manipulação for comercial, ou de consumo.

    Mas há muito mais nesse texto, tanto que seria possível várias páginas para comentá-lo.

    Há e não há. Há porque percebe-se a angústia das questões e não há porque percebe-se que há consciência de que as respostas são desconhecidas. Desconhecidas da humanidade, embora tanto ela tenha tentado conseguí-las, sem êxito, sequer sem aproximação.

    Minha hipótese para a situação eu comparo com a do cão perante o automóvel.

    O que será que o cão pensa do automóvel? Não é um bicho, não é uma planta, não é uma pedra. O cão não deve saber o que é, não deve ter uma categoria de enquadramento para o automóvel, mas se adapta a ele, passa a conviver com ele e não o questiona. Pelo menos ele não atribui o automóvel a Deus, já que para os animais, aparentemente, Deus não existe.

    Um cão muito acima da média, em capacidade cerebral, talvez tentasse entender melhor o automóvel, talvez conseguisse um enquadramento diferente do automóvel para si. Talvez conseguisse reconhecer que o automóvel é um treco meio mágico, mas não de Deus, pois mesmo um cão com capacidade muito acima da média, aparentemente, não reconhece Deus.

    Mas ele não passaria disso, não teria inteligência suficiente para entender o automóvel em seu todo, nem em suas partes mais simples.

    Assim vejo o ser humano tentando decifrar os mistérios da vida, da morte, do Universo. Não temos capacidade suficiente para tal. É parecido com estarmos encerrados em algum invólucro, cuja forma externa desconhecemos, mas tentamos identificá-la pela forma interna, que pode não ter relação alguma com a forma externa.

    Mas a soma de nossas capacidades, ao longo de milênios, poderá nos aproximar desse conhecimento, cada um dando sua pequena contribuição, como você tem feito em boa parte de sua vida, também com boa parte desse seu texto.

    Beijos internéticos …risos…

  6. 22 de dezembro de 2012 5:14 pm

    Hoje estou aproveitando para ler antes do fim do mundo seus textos que sempre inspiram. Se esta manobra toda para manter um controle social são necessárias e para a maioria é só continuar fazendo mais do mesmo porque está bom, então pensar diferente e ler isto em seus textos e compartilhar na nossa diferença é prova de que é possível questionar, dialogar constantemente e simplesmente viver construindo a cada dia uma ética comum.

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