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ROCKFILOSOFIA

19 de março de 2012

Publicado originalmente na Revista Cult. Como hoje tem aula sobre Rock e filosofia no Curso FILOSOFIA POP  da UNIVERSIDADE MACKENZIE,  aí está pra quem quiser ler.

Rockfilosofia – Gênero musical foi tão radical para a cultura quanto a psicanálise e o feminismo

Filósofos pelo mundo afora vêm se dedicando a compreender o fenômeno do rock. Na França e nos Estados Unidos, pensadores escrevem filosofias e ontologias do rock. No Brasil, Daniel Lins vem falando do encontro entre Bob Dylan e Gilles Deleuze. Esta que vos escreve trabalha em um diálogo/rock com o músico Thedy Corrêa. Podemos estabelecer diálogos entre bandas e estilos da vasta história do rock e filósofos da tradição. Podemos tentar entender o que há de filosófico nas letras, canções e performances do rock. A questão do rock é cultural e antropológica e, quando a tratamos como questão filosófica, há um mundo de reflexões a serem construídas.

Podemos vê-lo como questão de linguagem baseada em uma ontologia (do modo existência) da obra gravada. Podemos pensar também no que seria a filosofia depois do advento do rock, pois ele foi uma transformação tão radical da cultura quanto foram a psicanálise e o feminismo, a partir dos quais devemos também pensar a filosofia como experiência reflexiva de um tempo.
Podemos falar de rock como um “cogito do tempo”, como o chamou o filósofo francês Jean-Luc Nancy. Podemos também entender em que sentido o rock é ele mesmo uma expressão filosófica, um método como pensamento-ação-expressão e, nesse sentido, como a própria filosofia pode ser ela mesma um tanto “rock”. Ou rockfilosofia, aquela que, contagiada de rock, propõe pensar dançando, provocando, causando efeitos e livrando-nos de todo autoritarismo.

O grito elétrico como prática estética essencial

Foi Jean-Luc Nancy quem percebeu que o problema do rock já estava de certo modo posto na República, de Platão. No livro quarto da utopia platônica, a atenção à música é um problema de educação e de política. A ideia que vinga no texto é a de que é preciso cuidar do que os jovens ouvem, já que “não se podem mudar os modos da música sem abalar as mais importantes leis da cidade”.

Se os modos musicais são sistemas harmônicos que têm correspondência nos afetos é porque eles alteram o modo de ver o mundo. Alteram o sentimento e o comportamento dos jovens. Por exemplo, o modo dórico tem a ver com as virtudes cívicas; o frígio, com as virtudes guerreiras; o lídio, condenado por Platão, com os maus costumes e a embriaguez. A sensação de periculosidade do rock tem sua pré-história.

Nancy vê o rock como algo mais do que musical. Há nele determinado afeto, um pathos. Tal pathos tem a ver com a força de contágio que as culturas – até mesmo Platão – perceberam estar na música. No caso do rock, esse pathos tem a ver com “eletricidade”. Tal é, para o filósofo francês, o signo sensível e simbólico do rock. A guitarra elétrica é o instrumento no qual ela se concentra. Ela é o meio que permite a “comunicação de energia” constitutiva do rock, que mudou nosso modo de escutar, de viver e de pensar.

Proponho que pensemos o rock como uma complexa prática estética que é também política e que, tendo sua própria especificidade ontológica como manifestação de vontade (no sentido da vontade da natureza de que falou Schopenhauer), afeta o sentido do mundo. Quero dizer que o que o rock traz ao mundo é uma autorização contra o autoritarismo. Ele faz isso por meio da prática estética que foi recalcada ao longo da história: o grito.

A questão do grito é antiga. A importante obra sobre a escultura do Laocoonte, escrita por Lessing no século 18, põe uma questão simples: poderíamos chamar de bela a escultura, caso a boca de Laocoonte estivesse escancarada? A representação do grito de dor podia mostrar o feio na arte no lugar do belo. A compreensão da arte naquele tempo como representação da beleza – e o inevitável ocultamento – estaria comprometida.

Assim como a arte contemporânea, o que o rock vem fazer no contexto da cultura é justamente mostrar o que não deveria ser mostrado – o que abala a estrutura da cidade, como na República, de Platão. Seu índice é o grito. Como o Uivo, poema de Allen Ginsberg, poeta que encantava figuras como Bob Dylan. Só que o grito do rock não é apenas o uivo da poesia, não é apenas o grito da voz humana do cantor. Ele é o grito da guitarra elétrica, da máquina, o grito que nenhum humano pode dar desde que o próprio humano emudeceu diante do processo histórico e da tecnologia.

O grito do rock é elétrico, é o elétrico como grito. O grito ou a explosão do que, não devendo ser mostrado, todavia apareceu. Isso que nos encanta enquanto nos ensandece, nos irrita, nos afronta e, ao mesmo tempo, quer salvar alguma coisa em nós.

Salvar o quê? O grito é descarga da dor, a interpelação que obriga o outro a ouvir, mesmo quando o que ele diz é apenas mudez. O rock é o inconsciente musical, assim como a fotografia é o inconsciente ótico, na forma de um sintoma social elevado a fenômeno de massa de uma cultura marcada por uma ferida – um trauma – que não deixa de se abrir. Nesse contexto, que o rock sobreviva entre nós é um sinal de que ainda estamos vivos.

11 Comentários leave one →
  1. 19 de março de 2012 2:48 pm

    No meu tempo de juventude tive minha banda de rock, no interior da Bahia em que a tradição do samba impera ter uma banda de rock não era uma boa ideia para quem não tivesse coragem do “GIRTO”. Até hoje há o olhar atravessado e desconfiado dos que acreditam em uma única possibilidade de ser dizer que é de um país ou cultura.
    Acontece que o rock é a-patriado, o samba não me deixava e não deixa que eu grite, o rock aceitava minhas ansiedades e gritos.
    Envelheci, no momento em que escreve esse comentário ouço música para meditação, o rock me ajudou a ouvir também o silêncio

  2. Vera Luduvice permalink
    19 de março de 2012 8:43 pm

    Oba. Tô indo pra aula no Mack!

  3. Washington Alan permalink
    19 de março de 2012 10:44 pm

    Depois desse texto, só nos resta orar:

    “Elvis Presley que estais no céu,
    Muito escutado seja Bill Haley. Venha a nós o Chuck Berry, Seja feito barulho à vontade, Assim como Hendrix, Sex Pistols e Rollings Stones.
    Rock and roll que a cada dia nos melhora,
    Escutai sempre Clapton e Neil Young, Assim como Pink Floyd e David Bowie.
    E não deixeis cair o volume do som 102,1 de estação.
    Mas livrai-nos do Pagode e do Axé. Amém!”
    FANÁTICOS, UNI-VOS. SÓ O ROCK N ROLL SALVA!

    PS. Não resistir…

  4. 20 de março de 2012 2:15 am

    Reblogged this on paintboxtalks.

  5. Daniele permalink
    20 de março de 2012 2:25 am

    Para ler escutando Nirvana!

  6. 21 de março de 2012 2:06 pm

    Olha, bacana a postagem mas a analogia com a Filosofia que se propõe tem uma raiz a meu ver mais profunda. Esta raiz vem do pós guerra ou seja, do trauma gerado em gerações de países beligerantes como os USA, Inglaterra até mesmo França e Alemanha. Assitindo ao documentário Life da BBC sobre a vida de Keith Richards dá para entender os traumas, a necessidade do volume, da rebelião contra o modus operanti da sociedade vigente, o “No Future”. Por que se sabe claramente que não vai se viver para sempre e que nascer é processo mortal. Então para o Rock tudo se trata de uma questão de contexto histórico: Rock n Roll (negros+brancos, pós segunda guerra) ,Psicodelismo(Vietnã+Racismo) Punk e Metal (Trabalhadores e serviçais pós guerra do Vietnã e Guerra Fria).Então creio que filosofar rock só vale para o Pós segunda guerra. O Rock n Roll veio da zona rural americana, da terra do Algodão, da Cana é o chamado “The Mindnight Rambler” dos Blues Mans é onde se a festa esta no ápice. O Rock está mais para Orgia dos Romanos se fores pensar em termos de antiguidade.

    • 21 de março de 2012 7:18 pm

      Legal a sua colocação. Vou ver esse documentário do Keith Richards que eu ainda não vi. Eu concordo com vc sobre a questão da guerra, claro. A referência a Platão é porque ele realmente via um perigo “nacional” em certo modo de fazer música. Obrigada pelo comentário, valeu. bjs, Marcia

  7. 26 de março de 2012 2:15 am

    Se Jean-Luc disse que podemos falar de rock como um “cogito do tempo” preciso pensar nisso e tentar alcançar o conceito. Ainda hoje eu falei de rock em meu blog. Eu precisava. Eu já havia corrido e ainda não tinha um texto escrito para atualizar o meu blog [toda semana eu o atualizo]. Um amigo de faculdade falou comigo pelo facebook. O cara, assim como eu, gostava muito de rock. Gostávamos de bandas diferentes, mas acabou que deu na mesma. Ambos fomos e somos filhos do rock, mesmo após 19 anos do show do Metallica.

    “O rock é energia humana transformada em eletricidade, uma manifestação elétrica da linguagem, do comportamento” (Jeferson Cardoso) Salve Platão! E quero lhe convidar para que comente minha singela postagem sobre o assunto. Está em meu blog. Abraço, mestra!

  8. 31 de março de 2012 7:29 pm

    Acho que a gente pode colocar muitas aspas aí. Pra mim nao está muito claro ainda o conceito de rock… Pq as vezes parece aquele corpo morto que entre uma década ou outra dá uns espasmos.

    “quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude está em casa guardado por Deus contando mil metal”. Ou como diz o Russo: “é só questão de idade, passando dessa fase: tanto fez e tanto faz”.

    Quero dizer, fico maravilhado em ler tudo isso, todo o cuidado… Mas podemos ousar tb, né? Eu particularmente mostraria o quão é ridículo o Rei trajando o nada; do homem camaleão que mais parece uma barata que para não ser pisada novamente, finge de instantes em instantes estar morta,…, enfim (aqui, o Thedy me mataria, possivelmente, hahaha). Muitos mitos aos quais foram agregados um discurso parecido com o da naturalização da mulher,…, essas coisas que fingem ser obvias só para esconder o vazio de dentro e a impossibilidade de se contestar. E provável que os caras ainda continuem lá.

    Em muitos sentidos, penso que a mpb é mais rock do que o rock, por exemplo.

  9. 13 de maio de 2012 2:08 pm

    MARAVILHOSO!

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