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Diante da Porta da Miséria Espiritual

8 de abril de 2012

A roupa suja do mendigo, os cabelos amassados do mendigo, a pele encardida do mendigo, as mãos encarquilhadas do mendigo, as unhas compridas do mendigo, a boca sem dentes do mendigo, o saco com restos de quaquer coisa que o mendigo carrega como um hábito que não o abandona, são escombros atrás dos quais um homem foi soterrado.

É o homem no mendigo que grita com a boca sem dentes diante da filial do banco Itaú na Avenida Angélica em São Paulo, perto do número 2000. O homem pede ajuda e só o que ouvimos é um arremedo de voz, um som sufocado sob a fome do mendigo diante da porta automática. O pedido de ajuda é como um choro, quem sabe a memória de que alguma outra coisa fosse necessária à mera vida na qual foi abandonado, filho da sociedade da qual ele se torna o mais apavorante emblema.

Eu vejo, eu passo, eu volto.

Dos tantos que entram apressados pela porta de segurança, dois param e, com um trocado na mão, dividem a própria miséria com o homem que chora de fome e mastiga o seu desejo sem dentes. Outros passam reto, nem olham, são Deuses e não sabem o que fazem. Completam a lógica sócio-econômica que devora a todos, deixando alguns com uns contos a mais, outros com os trocados de todos, mas todos sem dignidade nenhuma.

Dou-lhe o que tenho. Também eu partilho com ele a minha miséria. Algum dinheiro é o nome da minha pobreza. O banco autorizado juridicamente a roubar de todos, impera intacto como o templo onde rezamos a cada dia para a única deidade realmente respeitada em nossa época: a deusa com corpo de abutre e duas cabeças, a da usura e da avareza.

O banco é a Ave-mãe cujo filho é o mendigo. Suas asas feitas da mais poderosa pobreza espiritual crescem a olhos vistos. Ela se alimenta como um parasita da pobreza material na boca do mendigo e se torna assim cada vez mais forte voando sobre todos nós, espargindo sobre todos nós a sua culpa, transformando todos nós em mendigos aos quais só resta a partilha da miséria e do desespero. Realizado está o desejo do capital.

16 Comentários leave one →
  1. richardoak permalink
    8 de abril de 2012 4:24 pm

    Pois é! No fim somos todos vítimas algumas não tão vitimadas quanto… Um sistema que perpetua isso mesmo que as margens dos olhares destreinados, continua sendo um sistema ineficaz. “O dinheiro quebrou a regra mais fundamental da natureza: Tudo demais faz mal.” (Na verdade só faz mal pros outros.)

  2. 8 de abril de 2012 4:37 pm

    parece que descreves o seu ismael, igualzinho:
    http://www.seuismael.blogspot.com.br/

  3. Fabio Vidovix permalink
    8 de abril de 2012 4:54 pm

    Ótimo texto de um dia de Páscoa e o olhar sobre o que vivemos hoje. Apesar de tudo que fizemos, onde chegamos? Não temos máquinas automáticas para ajudar ninguém e a frieza do coração e a liquidez das relações produzem estes frutos estéreis.

  4. Marcos Roehe permalink
    8 de abril de 2012 5:22 pm

    Obrigado por me fazer pensar, mas eu fico pensando… De quem é a culpa? É uma questão de certo e errado? É uma questão de viver cada um ao seu modo? De “seja feliz!”? Não sei as respostas, mas tenho dúvidas se o Capital é o verdadeiro problema. Concordo que a neurose pelo dinheiro em si, não leva a nada. Que só uma boa dose de amor pode resolver e curar qualquer ferida. Mas voltando um pouco, porque o mendigo virou mendigo? Qual a história dele? Deles? Será que não tem outras coisas muito mais relevantes que o dinheiro nessa equação?

  5. 8 de abril de 2012 5:50 pm

    De facto somos mais que miseraveis vivendo nesse paradoxo

  6. 8 de abril de 2012 6:55 pm

    O Deus Capital onde o shopping é oratório e o consumo obrigatório. Misérias. Miserenobis…

  7. 8 de abril de 2012 7:26 pm

    Excelente texto.

    Há cerca de duas semanas um mendigo me gritou algo, com tom de desespero, que ainda está ressoando no meu ouvido:
    Moça, casa comigo e muda minha vida!

    Pode parecer até poético, mas o que mais está por trás disso? Coisa para pensarmos…

  8. Daniele permalink
    8 de abril de 2012 9:44 pm

    …mas nem o mendigo é vítima, até ele tem responsabilidade, pois quem cria a mãe sociedade somos nós mesmos, é como um ciclo, parimos nossa mãe…Somos responsáveis pelo mendigo tanto quanto ele mesmo…E na verdade somos todos mendigos, pedintes e pseudo vitimas de nossas próprias vidas…

  9. Andreia Reis Dos Santos permalink
    9 de abril de 2012 1:12 am

    cotidiano de uma cidade miserável,riquíssima por fora,mas tão pobre em seus caminhos…

  10. 9 de abril de 2012 10:28 am

    O mendigo somos todos nós, de uma forma ou de outra esfomeados e impotentes, diante da voracidade da usura institucionalizada. Poucos ousam encarar o espelho!

  11. Marcello permalink
    9 de abril de 2012 6:36 pm

    Fortíssimo! Estamos enterrados até a alma nessa des-humanidade que escolhemos em nossas atarefadas indiferenças…

  12. Aurora da Graça permalink
    9 de abril de 2012 7:20 pm

    Marcia,
    Texto contundente coroado de beleza “…dividem a própria miséria com o homem que chora de fome e mastiga o seu desejo sem dentes.”

  13. Marcelo Leandro permalink
    11 de abril de 2012 3:19 pm

    “O banco autorizado juridicamente a roubar de todos”. Perfeito Marcia! Bate, bate, bate nas portas do Itaú. E tem gente que ainda tem medo de mendigo…

  14. 11 de abril de 2012 11:41 pm

    Gostei de tudo o que li, mas este é especial. Estou seguindo. Fica uma sugestão: http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/

  15. 13 de abril de 2012 5:52 pm

    Há aquele filme, O Cavalo De Turim, do Béla Taar, o qual se pode usar para tentar-se fazer associações a respeito, Márcia . Porém, é certo que nunca e nenhuma imagem abstraída e reprojetada representa exatamente o que aquela pessoa na frente do banco esteve passando, e, sim!, é preciso cuidar das estruturas subjetivas para criar modo excelente de revelar verdades desconsideradas ou mal manipuladas alertando e educando as demais pessoas .
    Márcia, que ótimo que a senhora é também professora, e que ótimo que há estudantes e outros leitores e pensadores que encontrem-na dentro e fora de salas de aulas e pensem melhor como viverem melhor consigo próprios e com os outros . A senhora só faz bem ! Gratidão e parabéns sempiternos !

  16. Helen permalink
    23 de abril de 2012 4:36 pm

    vida dura a nossa.. toda vida é!
    texto-poema o seu. uma forma de ver beleza na crueza.

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