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LUZ, CÂMERA, PICHAÇÃO

30 de abril de 2012

Dias atrás participei de um debate promovido pela AMCE (http://site.amce.com.br) a partir da exposição do filme LUZ, CÂMERA, PICHAÇÃO dirigido por Marcelo Guerra e Gustavo Coelho. Conheci o Gustavo Coelho na época em que ele fazia a pesquisa de mestrado que levou a este documentário. O motivo era o meu interesse no assunto demonstrado no texto PENSAMENTO PIXAÇÃO  publicado na Revista Cult há uns dois anos: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/pensamento-pixacao/

No dia do debate contamos com a presença de Cripta Djan que eu já conhecia de um encontro gentilmente promovido a meu pedido pelo Sérgio Franco que é pesquisador da pichação e curador.  Sérgio Franco é autor de um texto muito interessante chamado Pixação e as Aves de Rapina http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=821&PHPSESSID=099cbc670a7e8a6c998a4f532aaf76c9

ABAIXO DJAN EM AÇÃO

O que desejo agora, além de deixar registrado aquele momento, é fazer um comentário sobre a pichação e sugerir que vejam o documentário para que possam melhorar o olhar em relação à pichação vendo o que ela tem a nos dizer, a nos ensinar.

No interesse de muita gente hoje pela pichação eu vejo o seguinte: que todo mundo que se interessa pelo acontecimento da pichação ou do movimento da PiXação, fazendo um vídeo, uma foto, um texto, uma pesquisa, acaba fazendo parte de certo modo da ação e do movimento. Refiro-me àquela parte que abre caminho para outros, que mostra que entendeu. São essas pessoas que fazem a ponte entre o mundo dos jovens pichadores e a sociedade contra a qual o seu gesto se insurge. Essas pessoas, no entanto, tiveram seus olhos abertos pelos pichadores que, sem saber, são seus mestres teóricos e práticos.

O problema é que este gesto surge, para muitos, como um gesto violento. No entanto, podemos entendê-lo como violento apenas quando percebemos que se trata de uma resposta que a violência de alguns jovens dá à própria violência de que eles mesmos são vítimas em uma sociedade de classes. Afinal, a pichação como diz Djan e tantos outros, é uma ação na contramão do aceito, é “anarquia” no sentido de uma devolução. Uma fala, um dizer, no momento em que não apenas não se foi convidado a falar, mas excluído dessa possibilidade. Uma sociedade de classes não é democrática, mas pode se tornar. A pichação revela essa questão.

A pichação só tem sentido enquanto algo que escapa à lei. Mas não se trata de um puro gozo. Se trata de uma ação altamente filosófica de questionamento. Problema é que as pessoas não estão acostumadas ao questionamento. E tem medo dele, porque ele necessariamente põe o dedo em feridas e obriga à saída do cinismo geral onde estamos afundados.

Problema sério ainda é que a pichação é uma forma tão sofisticada de prática estética e política que é preciso estudar a fundo a sua lógica interna para poder compreendê-la. A epistemologia da pichação ainda não foi traduzida para o senso comum e este, como não poderia deixar de ser, responde de maneira ignorante ao seu apelo. As pessoas que simplesmente veem muros marcados não conseguem ver nele mais do que sujeira, assim como não conseguem ver nos logotipos das grandes marcas do capitalismo (que são outra forma de violência, só que dos poderosos contra os fracos) mais do que um sinal de algo a ser comprado, a cuja lei devem obedecer como condenados à morte sem saber o texto de sua condenação.

No contexto geral da ignorância, as pessoas não conseguem entender a pichação tanto quanto não entendem a arte contemporânea. Ou, caso já tenham aprendido a suportar Picasso e Braque, não é porque entenderam sua lógica, mas porque acabaram aceitando-os como nova ordem estética no contexto do novo senso comum.

O que a pichação faz é intensificar até as últimas consequências a lógica de movimentos como cubismo e dadaísmo, por exemplo.

O problema está, deste modo, na incompetência estética de quem olha. O olhar, é bom lembrar, é coletivo e seu padrão é autoritário. As pessoas só veem o que lhes é permitido e o que podem suportar. A pichação toca nesse insuportável. E é claro que, quando este insuportável deixar de existir, a pichação não será mais necessária. Por isso ela parece uma prática autoritária, mas apenas contra o autoritarismo. Se conseguirmos avaliar o quanto nosso olhar é formado no coletivo, o quanto nosso olhar é comandado por regras de terceiros, começaremos a agradecer à existência dos pichadores que nos ensinam a olhar de outro jeito.

A pichação em São Paulo é um fenômeno social, assim como os políticos que elegemos, assim como a Indústria Cultural da publicidade que marca a cidade inteira com seus logotipos imperativos de um “compre” isso ou aquilo. A pichação acaba sendo a linguagem de gente excluída que vem reclamar seu lugar de direito. Um lugar democrático que precisa ser compreendido. Um lugar que mostra que há gente querendo lutar pela democracia, pelo espaço, e também pelo direito visual à cidade.

Naquele dia do debate, alguém falou que não queria ver o muro que ele havia pintado de branco ou de qualquer cor ser pichado. Djan respondeu na contramão algo mais ou menos como: eu não quero ver o muro pintado da cor que você impõe, nem ver os arranha-céus horrendos que nos impõem pela cidade afora. Ele manifestou sua consciência do espaço que todos habitamos. Essa é uma consciência raríssima a ser incentivada e de tão boa e tão crítica chega a ser uma contra-consciência – a melhor filosofia – contra a “verdade” do senso comum.

Eu, de minha parte, gosto de ver a luta da pichação contra a marcação do mundo e o nascimento do direito que todos tem de marcá-lo, fazendo ver assim que o mundo está afinal já marcado e que a pichação é uma contra-marca e, por isso, é contra-conscência. É a escrita da democracia em tempos sombrios. Tempos em que o apelo à “beleza” é só o último suspiro de uma estética autoritária.

Temos que agradecer aos pichadores por tornarem nossa cidade menos vendida. Por batalharem na luta da sensibilidade contra a ignorância.

São eles que nos levam hoje a questionar a lei, o espaço, o visual, a beleza, a linguagem, o discurso. A pichação é a implosão do discurso pronto, da fala com pretensão de sentido nesse sistema de pesos e medidas diferentes em que a vítima está de antemão culpada.

Bom que o filme LUZ, CÂMERA, PICHAÇÃO deixe os pichadores falarem. Sua voz está documentada. Vemos que, como artistas e arteiros eles sabem o que fazem. Como analistas, nós aqui na prática teórica, podemos ser bons leitores. Com paciência de um outro olhar e outras armas, podemos ajudar a descobrir muito do sentido do que estão fazendo lá, quando arriscam à vida pelo “risco”, pelo desenho, na grande tábula rasa – e nada rasa – que é este suporte textual chamado cidade.

Muita gente boa participa do documentário, eu quero destacar a participação da Panmela Castro, a Anarkia, que junto com Dilma Roussef, é uma das 150 mulheres mais influentes do mundo segundo a Newsweek. Quase ninguém soube disso, mas se fosse alguma atriz burra certamente viraria notícia. Dá pra conhecer melhor o que ela faz aqui: http://www.anarkiaboladona.com/

E quero recomendar pra quem puder ver também o documentário PIXO de João Weiner e Roberto Oliveira http://www.youtube.com/watch?v=HXybgvyS6Vc&feature=youtu.be

Mais informações sobre o documentário LUZ, CÂMERA, PICHAÇÃO estão no site

http://www.luzcamerapichacao.com.br/

4 Comentários leave one →
  1. 30 de abril de 2012 12:33 pm

    Muito boas observações a respeito desse tema que recebe tão pouca visibilidade, fiz um vídeo amador sobre o movimento hip hop e tive bastente dificuldade de encontrar referências a respeito,vejo muita arte sendo feita nesse sentido admiro muito o trabalhos dos pixadores/grafiteiros.Um abraço,

  2. 3 de maio de 2012 12:40 am

    Pichação é arte?
    Nas ruas, os reclames, avisos, anúncios, proibições, placas, alertas, outdoors estabelecem uma estética própria. Quando frequentamos os espaços públicos das cidades estamos expostos a estímulos que não provocamos e que, portanto, são arbitrários.
    A mudança no estilo de vida, a maior eficiência da indústria produzindo mais bens de consumo, a revolução do marketing e a expansão do crédito, a democratização da cultura e o acesso à educação, os avanços audiovisuais proporcionaram nas últimas décadas uma crescente conceitualização das artes visuais.
    Críticos de arte e curadores de museus retomam a discussão sobre o “lugar da arte”. Se, na Idade Média, a arte estava nas igrejas, e no Renascimento, habitava os suntuosos palácios, atualmente ainda se encontra nos museus, espaço, de certa forma, institucionalizado. Diante da ampliação do conceito de cultura, retirar a arte dos museus e das galerias é um passo importante para sua democratização, envolvendo tanto o artista quanto o público.
    O grafite, a pintura em mural, o estêncil, os tags e assinaturas, e também a pichação,o skate, hip hop,o Rep etc., são marcas culturais das metrópoles, que se situam no limbo entre o mundo lícito e idealizado e o ilícito e brutal. Sua grafia pode variar do protesto, da ironia, da frase de resistência político-cultural, à recuperação física e mental de uma identidade perdida. Significa revolta e a maneira que alguns encontram de expressá-la. Seus autores – vítimas de contradições sociais do subemprego e do desemprego e alvo de apelos comerciais que lhes promete o inacessível – contam apenas com uma pequena janela, por onde contemplam a superfície da cidade, como uma folha em branco.
    As autoridades mal conseguem vigiar os grandes prédios públicos que, de maneira nenhuma, podem amanhecer pichados. Se todo dinheiro gasto com segurança fosse carreado para educação, talvez não tivéssemos pichação nem pichadores talentosos… A pintura mural e o grafite mantêm as paredes ociosas da cidade sempre bem pintadas, livre de pichações.
    Mas a pichação também compõe o ambiente natural da cidade, carregado de tensões e contradições, sempre empurradas para periferia. O pichador é um agente urbano. Ele é predador da memória e dos espaços. Aproveita-se de um descuido da vigilância, de uma brecha no vão que existe entre o direito à propriedade e o papel social dela. Mas como se combate o pichador? Convertendo sua marca em arte. Como? Conscientizando-o para que ele não opere nos muros e monumentos mais caros à estética do lugar e à memória das instituições.
    Não podemos, porém, culpar exclusivamente aqueles que se aproveitam do abandono para acabar de degradar locais já devastados pela omissão de quem deveria zelar. Por Júlio C. Bittencourt Francisco: FEV/2012. (Professor da FABICO – Faculdade de Biblioteconomia, Comunicação e Museologia da UFRGS)

  3. Ivan permalink
    8 de maio de 2012 11:51 pm

    Pixação, com X mesmo, é crime. Se eu quero me expressar, não posso ficar me expressando destruindo o patrimônio alheio. Muitas pessoas que não tem condições financeiras para reparar a destruição e acabam não “corrigindo” essa destruição. Se eu quero me expressar, tem tantos meios! Só países subdesenvolvidos e povo ignorante (infelizmente sou brasileiro e gosto muito do meu país, mas essa é a verdade) ainda não tem políticas para acabar com esse vandalismo que acaba oprimindo os mais fracos. Sim, os mais fracos, porque quem tem condições acaba pintando no dia seguinte. Ainda sonho com o dia em que as pessoas aprendam que liberdade não é fazer aquilo que quer na hora que quer, onde quiser.. mas a verdadeira liberdade é se respeitar, respeitar o próximo, a natureza e ser respeitado. Com isso podemos tudo.

  4. Dora permalink
    10 de julho de 2012 5:21 pm

    “O problema está, deste modo, na incompetência estética de quem olha. No contexto geral da ignorância, as pessoas não conseguem entender a pichação tanto quanto não entendem a arte contemporânea.”

    A maioria dos artistas contemporâneos não possui a sensibilidade necessária para conciliar estética e discurso, mas adora jogar a culpa no público geral, alegando que este não tem competência suficiente para compreendê-los e apreciá-los. E muitos ainda continuam acreditando que ser ininteligível é um bom sinal. Esqueçam. Esse tempo já passou…

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