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O ABANDONO NOSSO DE CADA DIA – Sobre o novo livro de Evandro Affonso Ferreira

12 de maio de 2012

RESENHA SOBRE O MENDIGO QUE SABIA DE COR OS ADÁGIOS DE ERASMO DE ROTTERDAM de Evandro Affonso Ferreira (ed. Record, 2012. 127p.)

O título já pode produzir inquietação. Afinal que aquilo que supomos saber de um mendigo jamais incluiria que fosse culto, que soubesse quem foi Erasmo e muito menos que tivesse lido seus adágios sobre os quais, aliás, poucos sabem. O personagem criado por Evandro Affonso Ferreira inverte essa lógica nos dando o que pensar no instante em que a erudição de um homem se mede com seu próprio abandono e o abandono generalizado do mundo ao seu redor. O que sabemos, por meio desse homem com profundas cicatrizes interiores é que a miséria das ruas pertence a todos: “somos todos – cada um à sua maneira – fedentinosos e desvalidos e patéticos e constrangedores.” Que no fundo, de certo modo, todos pertencemos a este “grupo dos suicidas graduais vivendo à margem das estatísticas”.

O mendigo narra a história a um senhor debaixo de uma marquise como um Riobaldo que perdera seu sertão e tem agora o cenário da catástrofe urbana a sua frente. Entre a mulher-molusco, arremedo confuso de maternidade e o menino-borboleta, arremedo de filho, nosso mendigo erasmiano, como o narrador do Grande Sertão: Veredas, observa o desfecho da vida dos despossuídos como ele. Enquanto isso, sendo daquela estirpe de poetas românticos que idealizam uma musa, impressionantemente culta como ele e da qual só lhe restaram as lembranças, ele tenta manter-se inteiro entre a razão e a sensibilidade prestes à devoração pela loucura.

Não é à toa que Erasmo, o autor de Elogio da Loucura, seja o alter ego desse homem perdido nas ruas, que olha para a desnudez da condição humana e pede passagem à poesia sustentada a despeito da miséria. O texto é o mantra do nonsense, ritmo diário que escutamos sem ouvir, do qual este livro é o grito sutil. Por isso é que Evandro marca certas frases e as repete fazendo de sua literatura uma lembrança da oralidade.

Mais longe, descobrimos que é a erudição como emblema do conhecimento inútil, que está sendo questionada como escape, como resto que se tem às mãos em um mundo que só valoriza bens materiais, poder e vida fácil, e que reduz a corpo, à mera vida sobrevivente, todo aquele que por motivos vários, não suportou a luta de vida e morte em que sempre vence a ordem aviltante das coisas. No fundo, há o sistema sustentado em miséria e dor, um sistema em que toda a cultura é tratada como lixo e em que o lixo tem muito mais chance de se tornar “cultura”.

SOBRE O AMOR

O drama do personagem, cujo desfecho diz o quanto a literatura de Evandro Affonso Ferreira não está para acordos fáceis,  mostra o conflito e a dor presentes no encontro entre realidade e fantasia, idealização e concretude, esperança e ameaça de esquecimento. Podemos dizer que este é um romance sobre a fragilidade da memória. E mais ainda que se trata do amor enquanto ele é uma forma de desespero.

A musa, o objeto da idealização desesperada desse sentimento sob ameaça de extinção, é uma médica oncologista, ou é Billy Holliday, não importa. Seu nome verdadeiro é apenas uma letra grafada pelas ruas, em todos os espaços vazios da cidade, como emblema do amor, da memória e da esperança. N de nada, é a logomarca do amor perdido que, grafitada pela cidade, tem a chance de criar a antinarrativa da vida. Essa vida em N feito esquina, esse ziguezague das ruas, essa “insígnia esperançosa” com que todos estamos marcados.

Nosso mendigo pichador nos faz ver também que é o poeta e o escritor que estão em extinção em um mundo de barbárie cada vez mais descarada. Um mundo em que não há memória, porque não há história já que os narradores foram extintos. Ser escritor é ser o anti-herói, esse mendigo em um mundo analfabeto, no qual a literatura se vende ao jornalismo, à publicidade e à Medusa petrificante da indústria cultural. Resta uma letra como esperança final, e também ela pode ser devorada pelos ratos que sinalizam o “destrambelho in totum” ao qual todos que ainda sonham com um mundo melhor, um mundo com amor, estão condenados.

Para os que não tem medo do pensamento e do estilo de Evandro Affonso Ferreira, o efeito é o aprendizado da coragem com que ele erigiu essas páginas fazendo ver que, para além da esperança, ainda há a chance da literatura.

Obrigada Evandro Affonso Ferreira por ter escrito esse livro. Acho que todos os que amam a literatura brasileira agradecem.

20 Comentários leave one →
  1. Renata Frota permalink
    12 de maio de 2012 8:21 pm

    Oi Marcia! Adorei. Este entrou recentemente na minha lista. A revista Vida Simples do mês passado publicou uma linda matéria, “O que aprendi ao morar na rua” (pg. 52). O retiro é promovido pelo http://zenpeacemakers.org/ e é lógico que já estou em contato com eles. Brevemente vou me embrenhar em alguma experiência etnográfica do gênero. Beijos e excelente final de semana.

  2. Érica Massarenti permalink
    12 de maio de 2012 9:53 pm

    Instigante e curioso, através da leitura do texto, sinto vontade de ler este livro que ao que me parece
    nos revela muito da realidade que estamos vivendo.

  3. Wemersom permalink
    13 de maio de 2012 12:35 am

    Quanta bajulação.Fiquei com vergonha alheia.

  4. 13 de maio de 2012 8:47 am

    senti e gostei do tom affonsiano verossimilhante e fantástico [como no ‘minha mãe se matou…’]. é uma boa fusão!

    já procurei nas livrarias; achei na Cultura; comprarei! 🙂

    obrigada!

    beijo

  5. Aurora da Graça permalink
    13 de maio de 2012 9:51 am

    por esta resenha podemos vislumbrar a alma do personagem-mendigo
    (mendigo-personagem) impregnado de erudição – “como emblema do conhecimento inútil,
    que está sendo questionada como escape, …Me faz pensar que em determinados momentos (encontros)…sou o próprio mendigo!!!! Comparando a Riobado mostras mais uma vez tua própria carga de erudição.
    Uma linda resenha!
    Au

  6. velocidadesinfinitas permalink
    13 de maio de 2012 8:15 pm

    Você está proibida de fazer resenhas de livro neste blog, ok?

    • 19 de maio de 2012 9:28 am

      Oxente!

    • 21 de maio de 2012 11:54 pm

      Por quê?

      • velocidadesinfinitas permalink
        22 de maio de 2012 10:59 am

        Porque você acaba se valendo do seu poder de sedução intelectual (que me seduz mais do que uma bunda, imagine só!) e com isso praticamente obriga este pobre leitor a ir imediatamente à livraria mais próxima e comprar todos os livros que aparecem aqui.
        Eu comprei o “Grogotó” do Evandro Affonso Ferreira que você me indicou pelo Twitter (onde você me bloqueou… hoje vejo que felizmente porque se não seriam mais livros ainda que eu teria que comprar!) e você não satisfeita ainda indicou “O mendigo…” (que eu li em um dia e meio… e neste período passei fome de verdade e por pouco não fiquei doente porque não conseguia parar!) e para completar eu fui levado por força das circunstâncias a adquirir logo de uma vez o “Minha mãe se matou…”
        E isso sem falar nos gastos… Minha conta da LIGHT, por exemplo, está atrasada por falta de pagamento e eu tenho medo de que cortem minha luz e eu não possa mais ler à noite esse monte de livros fantásticos que comprei por sua causa.
        Eu não aguento mais!

      • 22 de maio de 2012 12:37 pm

        Eu te bloqueei? Vc deve ter me chateado muito! Quantos anos vc tem pra deixar de pagar a conta da luz?

  7. velocidadesinfinitas permalink
    14 de maio de 2012 1:00 pm

    Mas, aqui entre nós, o fato de o mendigo saber “DE COR” os adágios de Erasmo de Rotterdam, contribui para que duvidemos de sua “erudição” e do suposto fato de ele ser realmente “culto”. E, neste ponto, o título pode não ter sido tão feliz quanto a resenha faz supor.

  8. 31 de maio de 2012 2:34 pm

    Muito Interessante Marcia, valeu a dica.

  9. Lu Loprete permalink
    13 de agosto de 2012 1:23 am

    “…uma ave sem possibilidade de voo – que ainda canta” – O poeta canta. Evandro A. Ferreira é uma ave que voa cada vez mais alto. Pura poesia. Urbana e pessoal. Impossível parar de ler. Grande estilo de grande escritor e pessoa.

  10. 14 de janeiro de 2013 1:28 pm

    “pesquei” essa sua dica e me lancei à “O mendigo…” e só posso dizer que ainda estou sob os efeitos do transe a que fui submetido. Obrigado.!

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