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Na contramão

1 de junho de 2012

Gostei do trabalho de entrevista da Samanta Nagel e resolvi postar aqui. Para que os estudantes pensem na arte de fazer perguntas…

“Quem pensa o contrário, como eu, está na contramão. Eu prefiro estar na contramão.” ( Márcia Tiburi)

 Entrevista com a filósofa, professora e escritora Márcia Tiburi concedida à Samanta Esteves Nagem, estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.                                                                                    30/05/2012

A sociedade em que vivemos aniquila a existência real, na medida em que só ganha status de verdade o quê é transformado em espetáculo. Márcia Tiburi questiona temas contemporâneos, devolvendo à filosofia uma característica que, na verdade, sempre foi sua: questionar a vida por meio do diálogo compartilhado. Em tom quase profético, a frase de Guy Debord permanece sempre atual: “No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.” Daí a importância da busca filosófica pela vida por todos que estão na contramão.

                                                 

A televisão é vista, muitas vezes, como contraponto à academia. Em seu livro Olho de Vidro -A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem, você faz um ensaio filosófico sobre a relação entre produtores, telespectadores e televisão. De quê maneira a televisão pode ser considerada um instrumento da ditadura da imagem e da construção de estereótipos?

 

A oposição entre televisão é academia é um mito alimentado por certos intelectuais. Há muita ignorância no próprio mundo intelectual da parte daqueles que não analisam televisão e, por princípio, não gostam dela. Eu já fui do time do “não vi e não gostei”. Já vi muita gente no mundo acadêmico dizendo asneiras tremendas sobre TV. Eu resolvi estudar, sair da caverna entrando nela. Continuo não gostando de TV e não assisto (nem tenho TV em casa), mas estudar me fez pensar diferente. Foi não vendo TV em casa que me dei conta da minha tese fundamental nesse livro: de que vivemos em um estado de sítio ou estado de exceção da imagem televisiva. É isso que me deixou convicta de que temos que fazer mais TV, fazer algo melhor com a TV do que o que se vê por aí… Ao mesmo tempo, tenho muitos colegas que assistem TV e gostam.

Ao mesmo, tempo, as universidades em geral tem canais de televisão. Os cursos de jornalismo, audiovisual e cinema, bem como publicidade formam para a televisão. De que “academia” se fala quando se diz que ela é um contraponto à TV? De uma fantasia de academia que estaria livre das influências dos meios de comunicação de massa? Ou da Indústria Cultural? Mas a educação acadêmica não está ela mesma virada em pura Indústria Cultural. Considero que os cursos de filosofia são pura Indústria Cultural da erudição vazia e canastrona. Podia ser diferente e o é apenas em raros casos, quando a erudição ostentatória não é um fim em si. Ou seja, quando a filosofia se torna uma prática e uma política da verdade com vistas à emancipação das pessoas. Ela também constrói estereótipos. A meu ver o problema da televisão é que ela seja instrumento da Indústria da Cultura e do Espetáculo. Mas a academia, neste sentido, é ela também pura televisão à medida que produz conhecimento apenas para o Espetáculo…

 

Um  Olho de Vidro

 

A televisão funciona como um dispositivo de dessubjetivação do indivíduo na medida em que trata as pessoas como massa desprovida de crítica. É possível reverter esse processo? Como?

Usando a televisão para produzir massas revolucionárias e não fascistas. Problema é tomar o controle dos meios de produção. Essa tarefa cabe aos revolucionários que, hoje em dia, podemos ser todos nós.

Cada um de nós deveria usar a câmera de seu celular e a internet para fazer TV, cinema e o que mais pudesse. Temos que avisar as pessoas que elas podem fazer isso. Porque nem todo mundo tem essa ideia.

A academia, para voltar à sua pergunta anterior, muitas vezes também realiza essa dessubjetivação. A questão, portanto, é entender como funciona um aparelho de controle e docilização dos corpos, seja a TV, seja o sistema acadêmico.

 A cultura é tratada como produto e submetida à lógica do mercado. Em sua opinião, quais as consequências sociais causadas por um sistema industrial que  desconsidera a cultura como fundamento que dá sentido à vida humana?

 Bárbárie. Estamos nela. Não há mais sociedade. Não há mais necessidade de “sentido”. Quem pensa o contrário, como eu, está na contramão. Eu prefiro estar na contramão. Espero que você também.

 Os cursos de ensino superior nas faculdades privadas têm maior foco na produção prática. A falta de debates teóricos acerca da conjuntura política e econômica atual pode ser vista como resultado de um processo que prioriza a formação técnica? Como professora, de quê forma você vê essa tendência atual?

 Só nas privadas? Quando eu trabalhava na TV fazendo o Saia Justa do GNT e dava aula numa faculdade caríssima de SP eu ficava com pena dos meus alunos e de seus pais iludidos que pagavam um valor caríssimo de mensalidade e iriam receber, caso se empregassem no universo da TV, um salário de fome, em muitos casos menor do que o da mensalidade paga. O ensino privado é o que temos, mas não é o nosso sonho. A televisão que temos é muito precária e não é o nosso sonho. A faculdade que temos, seja privada ou pública, nunca é o nosso sonho, embora haja muita gente boa nesses lugares salvando a pátria. Os professores e os alunos também não são os dos nossos sonhos… Enfim, estou dizendo isso apenas para que pensemos que a realidade que temos é também marcada por muita fantasia acerca de um ideal.

Por fim, nosso ensino, seja público ou privado, é feito para a conservação do mesmo. A preocupação com a formação é rara tanto da parte de professores quanto da de alunos. Os professores se desiludem após muitas tentativas, os alunos também. Onde será que erramos? Esquecemos para que nascemos ou só para o que educamos?

Eu tento lembrar meus alunos sobre o que estão fazendo na universidade, sei que muitos dos meus colegas também. E os estudantes? Será que se lembram disso?

 Muitas pessoas consideram a filosofia como uma área das humanidades restrita à História da Filosofia. Você participa de muitos eventos e projetos em que há espaço para o debate de questões atuais. Qual a importância da filosofia como diálogo com o outro?

 

A teoria de que a filosofia é “história da filosofia” é uma ideologia conservadora que submete a reflexão no contexto de seu tempo a uma historicidade seca e vazia de sentido. Como eu gosto de dizer: é coisa de padre ou de escravos contentes. E, para falar em bom português é um barateamento da filosofia por sua transformação em um luxo vazio. Para mim filosofia é o que eu invento em nome da filosofia ou contra ela. Filosofia é experiência de pensamento, é esforço do diálogo concreto.

É uma atividade de reflexão que fazemos juntos ou por meio de um encontro de linguagens que se reconhecem entre si.

 Como feminista, de quê forma você vê manifestações como a Marcha das Vadias? Recentemente, o Facebook bloqueou o perfil da manifestante Luka Franca, que postou uma foto da manifestação em que estava com os seios à mostra. Como você vê ação do Facebook frente a essa situação?

 A marcha só tem sentido porque existe esse tipo de controle. O facebook não podia agir diferente, pois ele é uma instituição alicerçada no politicamente correto. Luka Franca é o indivíduo, a liberdade, a indignação, a afronta ao status quo. O Facebook é a instituição. Uma instituição nunca dará ganho de causa a um indivíduo. A plataforma precisa se manter neutra – senão perderá também lugar no mercado, não esqueçamos que o Facebook é um negócio que usa o desejo e a ilusão de amizade das pessoas ingênuas ou não … – e consegue isso retirando da cena os que “incomodam”. Igual à sociedade.

5 Comentários leave one →
  1. 1 de junho de 2012 10:37 am

    …éh, continuo na contramão, sem palavras mas com ideias…pode?

  2. 1 de junho de 2012 10:43 am

    Realmente, excelente a entrevista! Já vi e ouvi muitas perguntas sendo feitas a você, desde as mais interessantes até umas que EU tinha vergonha pelo entrevistador! Mas, inteligente como ninguém e professora como poucas, você sempre deu conta do recado. Parabéns à Samanta, fez um belo trabalho!
    P.S lamento não poder ir pegar meu autógrafo no Rio. Torço que inclua Brasília nos seus planos. Bj

  3. Samanta Nagem permalink
    1 de junho de 2012 3:13 pm

    Márcia, legal ver a entrevista publicada no seu blog. Sem dúvida, é um grande incentivo, não só a mim, mas a todos aqueles estudantes que compartilham dos mesmos anseios e medos próprios de quem inicia a profissão sem saber por onde. E que nós, estudantes de jornalismo, não caiamos na armadilha que nos pressiona a seguir sempre uma cartilha de instruções para pensar perguntas e textos. Enfim, que consigamos reconquistar a espontaneidade roubada pelos manuais de redação.
    Obrigada pela chance e parabéns pela profissional que você é.
    Beijos.

  4. 1 de junho de 2012 6:27 pm

    Como sempre, Márcia traz ótimas questões para reflexão.

  5. 8 de junho de 2012 4:54 pm

    POSSO FALAR DA televisão, DO Facebook E DA FILOSOFIA?
    Sou da era do rádio, mais ouvidos do que imagem; acho!
    Não sou muito chegada em televisão, mesmo quando não havia vídeo-cassetes, computador (no meu cotidiano).
    Pra mim a imagem sempre foi algo passageiro, tipo curiosidade, dê seu recado e tchau. Uma imagem só me prende se for verdadeira ao que se propõe e se for oque estiver buscando como: documentários, notícias de política; educação- saúde- segurança- filmes de comédias & musicais.
    NO Facebook, entrei com intuito de escrever minhas crônicas, divulgar meu blog, falar em política com quem entende do assunto que me fascina e que cada vez mais quero entender, apesar da fama.
    Mas não fui bem sucedida. Pois eu queria só postar, não queria ver página de ninguém, com isso teria que ver todos sem exceção. Me sentia uma “bisbilhoteira”. E isso é negócio$ para o Face. Eu fugi a regra. Vez em quando eu visito meus “amigos” no Face.
    E quanto a FILOSOFIA, lá no TWITTER eu me sinto bem, falando o que gosto, o que sinto e com quem quero falar (com ética); sem imagem!

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