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A BUSCA – Um conto

25 de julho de 2012

A busca

Acordo todas as noites às três horas e dezesseis minutos. Vou até o quarto de meu pai que está à espera de remédios para dormir sempre com os olhos abertos dos que morrem assustados. Sentado à beira da cama ele toma na mão esquerda a pequena xícara branca onde um dia lhe servi café. Agora cheia de água quase à borda. Ele toma o comprimido sem esperança alguma de dormir.

Faço a conta dos dias em que está assim e me perco. Afrouxo a boca do relógio pensando que relógios não tem boca. Gostaria de saber onde estamos. Meu pai sobre a borda da cama, eu agora à espera de que descanse. Estou sobre o chão, sobre o andar de baixo, sobre o térreo, sobre o concreto, sobre o cascalho, sobre o tijolo em fragmentos. Ainda sobre a terra onde seremos enterrados.

Minha avó lá fora, indignada com a busca de meu avô no meio da noite. Ela sopra a terra impura e me olha de longe. Meu pai me chama pedindo mais água. Ela grita com o que lhe resta de voz que estou errada em cuidar dele, que está morto como está morto meu avô.

Vista por outro ângulo a vida, não estando, se refaz, respondo-lhe chamando-a para dentro de casa. Neste instante ela me diz que eu deveria desistir da busca ingrata sobre a qual nada sei. Dessa busca que matou meu avô, meu pai e que definirá também o meu destino.

Seus olhos já não fixam as pálpebras forçando a visão de coisa alguma. É espantoso que uma mulher tão forte e tão bonita tenha agora apenas este rosto de porca. Que busca, que busca é essa? Insisto para que me diga. Sobre mim caem as gotas de chumbo que encharcam a noite. Vendo-a a arrastar-se na terra iluminada pelas estrelas, sinto vontade de abraçá-la, mas está longe de meu alcance ainda que possamos nos reconhecer. Só o que pronuncia com a insuperável dificuldade suína que agora a consagra é que a busca de seu avô era por um ser humano.

Não sei o que fazer para movê-la de lá. Volto para dentro de casa e meu pai continua no mesmo lugar. O relógio continua parado e eu sei que a vida vai passar.

 

Um velho desenho dos anos 90 que me lembra, pelo menos a mim, alguma coisa suína.

8 Comentários leave one →
  1. MICHELLE BELATTO permalink
    25 de julho de 2012 4:03 pm

    LEMBRO-ME DESSE DESENHO. UMA VEZ, SALVEIO-O PARAMIM, PORQUE GOSTO DELE. MS NÃO SEI MAIS ONDE ESTÁ. TALVEZ,EU TENTASSE “BUSCAR” ALGO DE HUMANO NELE, ENQUANTO QUE, PARA VC, PARECE UMA COISA SUÍNA. E SINTO ESTRANHA, LENDO SEUS CONTOS,POIS ELES ME MOSTRAM MINHA PRÓPRIA ESTRANHEZA, QUE TENTO SUPORTAR. EU GOSTO DELES. SE ALGUMD SEUS ESCRITOS LHE LEMBRAR DE MIM, ME SUGIRA, SE PUDER, POR FAVOR. BJOS, MARCIA QUERIDA.

  2. 26 de julho de 2012 1:37 pm

    Lindo! Você realmente tem o dom para a literatura, é muito bom ler seus romances e contos. É como uma mini-sessão de análise, à medida que se ler vai-se entrando na história e ela na gente, de forma tão poética e concreta que é impossível terminar o texto sem se melhorar um mínimo que seja!
    Quanto ao desenho, é um colar de vísceras e medo, vejo pendurados num trancelim: uma vesícula biliar; um estômago; um grande óstio no platô maior iluminado que dá acasso a um lugar macabro, pois seu introito escuro assim anuncia; uma válvula cardíaca, provavelmente a tricúspede incompetente, chego a ouvir o sopro; dois grandes vasos talvez a artéria aorta e a veia cava em corte transversal; alguns outros pequenos vasos igualmente decepado por lâmina afiada; uma outra superfície menor também iluminada, circular que lembra a cabeça do fêmur, se considerada côncava, se convexa, pode ser o acetábulo. No todo, a textura que deveria ser fibro-elástica, numa visão ventral, é mole demais e lembra tecido adiposo, pele envolvendo toucinho ou…
    Beijão!

  3. 27 de julho de 2012 11:50 am

    Faz tempo que não passo por aqui…. Saudades!
    O texto achei diferente, não diria ter ‘traços’ Tiburianos. Mas gostei bem…
    O desenho é lindo.
    Um beijo

  4. Victor Chaves permalink
    3 de agosto de 2012 11:25 am

    Em questão de costumes, o relógio continua parado, mas você sabe que a vida vai passar. Nesse microcosmo, também eu me lançei procurando pelo avô. Ele me contou que quando o teu bisavô na Europa foi raptado para uns mares de engenho novo, atravessou a poeira africana asiática a parir um mundo. Também você estava por lá…A busca como um conto nasceu ali…

  5. 4 de agosto de 2012 8:32 am

    Que presente! 25 de julho é o meu aniversário. Gosto de pensar que você escreveu este drops para me dar de presente. Quanto ao desenho, está claro o focinho que chafurda e um corte dos intestinos do porco ou porca. Beijos

    • 4 de agosto de 2012 10:31 am

      Oi querida,
      eu semper me perco com datas. Mas feliz aniversário!!! o conto é pra vc, sim!!! beijos!!!

  6. Maria Aparecida permalink
    6 de agosto de 2012 12:16 am

    Conheço vc do programa SEMPRE UM PAPO e só agora estou lendo algo escrito por ti e estou gostando, Bjs

  7. glaucia maria olinger permalink
    19 de agosto de 2012 12:46 pm

    mas, o que aconteceu ?! eu toda concentrada e td sumiu !!
    Se tiver tempo e interesse, por favor leia a entrevista que concedí no Diario Catarinense de hoje – 19 de agosto, sobre a minha individual -pinturas – que estreia amanhã, numa galeria que iria adorar se vc nos desse a honra de lançar aki em floripa, seu livro. ab.

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