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Ferrari

9 de dezembro de 2012

Publico há alguns meses crônicas semanais no site http://www.vidabreve.com

Abaixo a crônica da semana passada que reproduzo aqui porque tenho visto muitos desses carros por aí…

http://www.vidabreve.com/uncategorized/ferrari

Com a Ilustração so super Rafa Camargo

Ilustração: Rafa Camargo

A luz do sol tem o poder de intensificar a coloração do dia. O céu é mais azul, as nuvens muito mais brancas, as árvores intensamente verdes. Flores confirmam a paleta impressionante da natureza. Há quem acredite que um dia de sol torna a vida bela. E a vida, em muitos aspectos, é realmente uma coisa da qual se pode dizer que é bela.

 

Em um dia como esse, não chove, não faz frio e fica fácil andar pela rua. Sempre se pode ser assaltado por alguém, por isso se deve andar com pouco ou nenhum dinheiro, o que não é nada difícil atualmente. Sempre se pode ser interceptado por um mendigo gritando sua fome, uma mãe jovem vendendo balas com uma criança ao colo e outra à mão. Eis nosso Brasil. A vida, mesmo bela, é realmente uma coisa da qual se pode dizer que não é tão bela assim. Pelo menos, que não é bela para todo mundo.

Em um dia lindo como esse, na avenida movimentada no meio da cidade grande, um homem de óculos de sol dirige um carro que o sol forte faz parecer muito amarelo. Além de amarelo, o carro é também conversível. Embora só possamos ver parte do dorso do homem que o dirige, vemos que é bronzeado, tem braços fortes de quem pratica musculação. Ao lado, há uma mulher. Ela é loira, loiríssima, e também usa óculos de sol.

Há muito movimento na avenida. É dia de sábado e as pessoas passeiam a esmo, para lá e para cá. Indo e vindo de bares e restaurantes. A cidade não tem praia, por isso resta pouca diversão aos habitantes. O carro anda entre outros até que para no semáforo. Nesse momento, o motorista levanta o som. Ouvimos uma daquelas músicas bem modernas em inglês que ninguém entende, algo do tipo bate-estaca. A mulher ao lado, loira, loiríssima, levanta-se e vemos que está de biquíni. Ela dança ali mesmo, dentro do carro, fazendo pensar em como consegue equilibrar-se sobre o banco.

As pessoas, paradas no semáforo dentro de seus carros simplórios com as cores cinzentas do ordinário dia a dia, aplaudem o acontecimento. É nesse momento que se pode ver que o sol não é para todos.

Eu também olho para o evento que se dá no semáforo, o carro, as pessoas dentro do carro, as pessoas fora dele. Meu lado bonzinho pensa “que coisa curiosa”, meu lado mau, no entanto, me diz “que coisa mais caipira”.

O carro se aproxima do táxi onde estou e pede passagem dando sinal com o farol. É então que posso ver o rosto do homem de meia idade que o dirige. Ao seu lado, a moça loira, loiríssima, é bem jovem, pode ser sua filha. Ainda mais curiosamente ele olha para o taxista como um cachorro faminto, como se fosse vítima de alguma coisa, como quem pede misericórdia. Percebo que é sua estratégia para ganhar lugar na rua. O taxista não lhe dá lugar, talvez pense na diferença entre passear e trabalhar, talvez se ressinta de dar duro enquanto o outro se diverte.

Eu olho de perto para o carro e consigo ver que se trata de uma Ferrari. Penso bem devagar: “então isso é uma Ferrari?”. Contemplo a curiosidade do outro que me atinge em cheio e consigo ler nos lábios do homem que ficou para trás um palavrão. É só então que entendo o que significa um carro desses numa cidade brasileira cheia de gente pobre, sem praia. O sol não é para todos.

Só me resta a dúvida sobre o motivo daqueles aplausos que também ficaram pra trás sonorizando a cena estranha sob o sol de uns contra a sombra dos outros.

2 Comentários leave one →
  1. 13 de dezembro de 2012 5:26 am

    Ok… minha Ferrari amarela…

  2. 25 de dezembro de 2012 7:21 pm

    (Belas palavras professora Márcia) Também não saberia responder sobre aquelas palmas, mas algo parece ser bem nítido: a inversão de valores, ou desvaloração do humano, das relações humanas, estão perdendo espaço para esse tipo de show, de comportamento. O caráter, que da herança grega queria atingir o bem comum não parece mais ser, sequer, visto como um “bem”, quanto mais enquanto “comum”. Este egoísmo vendido de modo silencioso, então, é desfilado em “camaros e ferraris”, em saltos e óculos de sol, em “poder de ter coisas”. Eu só tenho aquela velha inquietação que ainda me atormenta, aliás, duas: se existe democracia no Brasil; e, como pode ser possível a conciliação entre neoliberalismo e democracia? Ou seja, entre valor econômico-capitalista (desequilibrado) e valor ético.
    A nossa angústia talvez não seja a “loríssima”, a ferrari e o velho-novo, mas à maneira pela qual a loiríssima, a ferrari e o velho-novo desfilam sob a luz do sol em nosso momento histórico…
    Professora Márcia, os educadores estão desproporcionais aos carros amarelos e brilhantes. Será possível revertermos ou reconfigurar, ao menos, a posição do sol no Brasil?

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