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SOBRE A ARTE E A VIDA

17 de dezembro de 2012

Dias atrás escrevi um texto para o livro do Projeto Arte de Viver do Instituto Lado a Lado que promove um concurso de pintura e poesia com esquizofrênicos. Quando pensamos em esquizofrenia e arte é impossível não lembrar de de Arthur Bispo do Rosário, nosso grande artista brasileiro, e de Aby Warburg, o grande estudioso alemão que fundou a iconologia. Ambos eram esquizofrênicos. Como em sentidos diversos, a sociedade inteira é esquizofrênica (já o dizia Warburg), sugiro a leitura do texto que pode nos ajudar a entender o que se passa em nossos dias em relação à arte, esta que sempre nos salva de todo mal, inclusive o mal de viver.

Sobre a Arte e a Vida

Um dos problemas que enfrentamos em relação à arte hoje é que precisamos entendê-la, mas isso só pode acontecer de um jeito diferente de como a entendíamos em outras épocas. Saber que cada época tem a sua arte, assim como cada tempo e cada espaço, não facilita muita coisa. É preciso levar em conta também a particularidade de cada pessoa que faz arte; daquela pessoa que, profissionalmente ou não, é, de algum modo, artista.

Talvez a arte de tempos anteriores ao período modernista do século XX, seja até hoje evidente como arte para nós. Um quadro de Leonardo da Vinci, para citar um italiano muito conhecido e cuja obra ninguém se negaria a chamar de arte, nos oferecia referenciais de compreensão com os quais muitas vezes poderíamos pensar que tínhamos o mundo da arte nas mãos. Com base nesses referenciais entendíamos que a arte era boa se imitava bem a realidade em termos técnicos, se além de tudo, emocionava e, até mesmo, se agradava e, assim, de algum modo, entretinha. A arte da pintura tinha a função de nos iludir sobre a realidade. Depois, com o modernismo, as pessoas aprenderam a muito custo a não “entender” de arte, a aceitar sua ignorância como observadores. Alguns, mais felizes, aceitaram o enlouquecimento das formas. Compreenderam que uma figura como Picasso – para citar outro europeu, bem menos aceito que Da Vinci, mas a seu modo também reconhecido por sua linguagem genial – tinha feito uma revolução estética. Perceber que esta revolução estética é também política e ética já é uma ideia mais difícil de se ter, mas muitos também se deram conta disso.

Por outro lado, para os menos preocupados, a arte passou a ser apenas uma espécie de loucura aceita. Ou um lugar para fazer loucuras sem maiores consequências. Estavam enganados, pois a arte nunca é uma experiência banal para quem a realiza. A loucura da arte sempre foi a mais perigosa, porque ela podia mudar a sensibilidade das pessoas e assim ensinar um outro jeito de ver o mundo. Mudando a visão das coisas, um outro modo de agir no mundo era possível. Diga-se de passagem que um jeito livre de viver a vida e de expressá-la nunca agrada aos que agem como donos de quaisquer poderes.

Levando em conta estes aspectos. O que é a arte hoje? Arte não é apenas expressão, nem só comunicação de uma ideia, nem apenas um problema de qualidade estética de uma obra. Arte, tampouco é uma questão conceitual. Arte é, para nós hoje, muito mais uma questão de experiência estética. Mas o que é isso? Todos nós vivemos experiências estéticas, poucos tem experiência com a arte. Experiência estética é a vida da percepção, das sensações que vão do sentimento diante de um filme até o uso de drogas. O mundo da estética é vasto e nem sempre está povoado de arte. A indústria da cultura, os meios de comunicação de massa que administram a experiência sensível das pessoas em geral, ocupam o espaço onde poderia acontecer o despertar da sensibilidade ao qual podemos dar o nome de arte. Aquilo que chamamos de Indústria Cultural acaba com esta chance de despertar da sensibilidade. E ela consegue isso por uma estranha norma estética: a que decreta a criatividade deturpada da publicidade enquanto as potências da arte são confinadas ao espaço dos especialistas. Diante desse quadro, cabe perguntar, como podemos chegar à arte, quando o sistema econômico e político organizado esteticamente conspira contra ela?

arthur bispoObra de Arthus Bispo do Rosário

Arte se tornou justamente aquilo que se pode realizar fora dessa norma, na contramão da mera indústria cultural e até mesmo das regras que, de um modo ou de outro, os especialistas vão definindo. E aí voltamos ao problema. A norma estética é culturalmente tão forte que muitas vezes não fazemos ideia de como chegar à arte. Como produzi-la? É comum que pessoas que desejam escrever, por exemplo, não tenham ideia de como fazê-lo, porque interpretam a arte da literatura do ponto de vista de uma instituição que deve ter a propriedade da norma a ser seguida. O mesmo ocorre com a pintura. A técnica em pintura é uma coisa maravihosa, mas justamente porque se pode usá-la para combater a própria ideia de uma regra. Muitas vezes as pessoas acreditam sem questionamento que há uma norma para fazer a arte, como se a arte não fosse justamente a contraposição a esta norma.

A arte e a loucura

Além disso tudo, a origem da arte – o motivo pelo qual precisamos fazer arte – permanece misteriosa para nós. Não é por acaso que ela partilha seu caráter misterioso com a loucura, acontecimento da vida cuja origem também perdemos de vista. Aquilo que chamamos de loucura é, independentemente de querermos julgá-la como doença ou não, uma saída da norma de conduta e até mesmo da norma de pensamento que esperamos uns dos outros enquanto as instituições (do Estado à Família) esperam de cada indivíduo. O termo “loucura” é pouco usado hoje em dia senão para expressar um exagero, uma aberração, uma estranheza, uma incompreensão. Mas o termo ainda é válido, embora pareça politicamente incorreto, justamente porque marca um lugar amplo de fenômenos que não podemos compreender, sejam eles bons ou maus. A palavra anda por aí em nosso dia a dia e, desde que a psiquiatria invadiu a esfera da vida, medicalizando todos os fenômenos mentais e espirituais, o termo loucura foi varrido para debaixo do tapete. O uso da palavra, no entanto, é pertinente, quando queremos apenas definir o amplo campo da inadequação ao qual está lançada a experiência mental e de linguagem de muitas pessoas.

Mas há outro aspecto ainda mais importante para compreender a relação entre arte e loucura.  É a questão do sentido da arte. Em geral não há consenso em relação ao que podemos chamar “o sentido da arte”. Assim, podemos partir da ideia de que a arte partilha também com a loucura o problema do sentido. Mas se a arte ainda pode ter um sentido, a loucura é o que não terá sentido jamais. Ela representa uma ruptura justamente com o sentido que a arte pode, de algum modo, vir a constituir. Neste sentido, a arte surge em contraposição à loucura. Ao mesmo tempo, a semelhança entre elas pesa mais do que a diferença.

Bispo9Obra de Arthur Bispo do Rosário 

No meio do caminho de nossos pensamentos sobre o tema, podemos nos perguntar: quantas vezes confundimos arte e loucura? Quantas vezes simplesmente associamos uma à outra como se viessem do mesmo fundo obscuro. Não está errado pensar assim. Tampouco está certo. Mas a questão ainda não é bem essa quando o que está em jogo é o mistério da complexa condição humana expressa na arte ou na loucura. Se a arte é a saída da norma, assim como a loucura, por que tendemos a olhar para artistas em estado de loucura como se o que fizessem não fosse arte? Não entendemos de arte, podemos alegar gentilmente para escapar do problema. E talvez seja a saída mais hábil. Mas deveríamos também dizer que não entendemos nada de loucura. Ao não saber o que fazer com isso, entregamos os saberes e os poderes aos especialistas, como se não precisássemos nos comprometer com esses dados da cultura e da existência.

Muitos grandes artistas foram loucos ou mais ou menos loucos. Ou pelo menos foram vistos como estranhos, excêntricos, anormais. Depois da invenção do dignóstico e o avanço do poder da psiquiatria, a loucura foi confinada e explicada. Seu caráter misterioso e incontido criou contornos suportáveis. Sua desmedida foi metrificada. Sabemos da insuficiência da ciência em relação à questão das doenças mentais, nome que damos ao que não conhecemos senão por classificar. E a sociedade sustenta o discurso da ciência porque é, de todos, o mais confortável quando se trata dessa vasta estranheza, deste reino obscuro e sombrio que é o da loucura. Detalhe importante neste contexto e ao qual devemos ficar atentos no contexto desta reflexão é que a ciência também não pode explicar a arte.

A arte escapa, assim como a loucura, dos discurso científicos que tentam amarrá-la. Neste sentido, ela tem mais poder que a loucura. E este poder vem do fato de que a arte é a linguagem universal. Somente ela une o reinos tão ideologicamente separados quanto o dos que são designados como sãos e o dos que manifestam-se no lugar do que os ditos sãos entendem como doentes. Sabemos, contudo, que esta divisão é produto de uma cultura em que a ciência impera como articulação da verdade absoluta sobre o sentido do campo da loucura. Se olhamos do ponto de vista da arte, tudo muda. O que para a ciência é doença por sair da norma, para a arte é o elemento comum. Um simples modo de ser.

O Projeto Arte de Viver, por meio do Concurso de Poesias e Pinturas, quer dar lugar a essa diferença fazendo despertar o conhecimento no âmbito de uma compreensão maior sobre a vida da experiência mental, seu sofrimento e suas características. Sobretudo, seu fim maior é promover uma nova ética, aquela do respeito à individualidade e à singularidade da existência de cada pessoa e sua potência expressiva que é a arte.

10 Comentários leave one →
  1. 17 de dezembro de 2012 7:58 am

    Domingo

    Hoje é *”Domingo: preciso valorizar meus presentes”, minha tristeza; mas os abutres da Tanzânia me cortam o coração de vergonha

    Hoje é Domingo: preciso contactar pessoas incendiárias mais capazes; e nada tão sensato quanto acumular rancor, ou dizer a verdade, sobre Deus ser GAY, para os homofóbicos

    Hoje é Domingo: e nada mais sincero do que declarar que considero a demência o maior carisma de todos

    Hoje é Domingo; e, quando estou sem forças, aquilo que me resta é sepultar, assim mesmo, todas os bebês abortados

    Hoje é Domingo; e o Domingo, agora, me derrete o cérebro
    (toda e qualquer criança não-nascida merece o meu choro & soluço, luto & enxaqueca)

    Hoje é Domingo: é quando queimo incenso pelos espíritos que me rodeiam; e é quando consigo fazer com que todos os culpados pela minha forma de estar sofram junto com a minha a alma

    Me disfarço de egoísta muitas vezes; e é por isso que estou sempre covarde.

    http://haxixeclub.blogspot.pt/2012/01/hoje-e-domingo-so-gostam-das-cores.html Blog Endorfinas

  2. Ivan permalink
    17 de dezembro de 2012 10:18 am

    Até que ponto a articulação da ciência interfere na manifestação natural da arte, pois se os “doentes”, em seus graus variados, são tratados pela psiquiatria moderna e, assim, inibidos a fugirem da norma?

    Quantas obras deixam de ser produzidas pelos artistas que agora têm sua criatividade freada pelos ansiolíticos ou ainda pelo ritmo consumista da indústria do entretenimento?

  3. Ivan permalink
    17 de dezembro de 2012 10:23 am

    Talvez o principal elo entre loucura e arte seja a solidão.

  4. Alice permalink
    17 de dezembro de 2012 10:50 am

    Perfeito, tudo muito bem colocado, na minha opinião não existe arte sem o mínimo de loucura ambas caminham juntas, mas isso a nível sociedade se enquadra no ponto de vista da loucura “normal”, da loucura permissível, mas afinal o que é de fato a Loucura? Respostas obscuras, quando se foge a norma, se foge ao padrão do que é considerado algo normal, se é jogado à escanteio, embora se veja muita coisa boa por aí surgindo do nada ainda existe muita luz sendo tapada pela mídia, por quem quer se seja, pelos poderosos chefões, tem muita gente boa fazendo arte em seus sentido pleno e tem muita gente “fingindo” fazer e se adequando apenas ao que realmente é imposto .

  5. julia permalink
    17 de dezembro de 2012 11:22 am

    aos 00:17:00
    ▬ Ele é capaz de fazer, viu.

    ▬ Não é qualquer pessoa que tem capacidade.

    ▬ Isso é uma glória pro senhor, não?

    ▬ Não, não é glória não.

    ▬ Faço porque sou obrigado. Se eu pudesse não fazia nada disso…
    Não. não senhora… A voz me obriga a fazer tudo isso.Se eu pudesse não fazia nada, nada disso.

  6. 17 de dezembro de 2012 11:39 am

    Todos os loucos estão no meu caminho; inclusive David Bowie. E as mulheres atormentadas também me procuram. // Endorfinas: Loucura? http://haxixeclub.blogspot.com/2012/12/loucura.html?spref=tw

  7. pablodonne permalink
    17 de dezembro de 2012 1:54 pm

    Aprendi o que é Arte olhando para o corpo morto de Cristo. Aprendi o que é Loucura através da minha [única] ligação com Deus — Arte.

  8. pablodonne permalink
    19 de dezembro de 2012 2:27 am

    Penso na loucura como… talento.

    A loucura como disfarce
    A loucura como recompensa
    A loucura como carisma

    Penso na loucura como… telento.

  9. pablodonne permalink
    19 de dezembro de 2012 2:34 am

    Homo Sapiens Homo Demens

    Trata-se de um ser de uma afetividade imensa e instável,

    Que sorri, ri, chora;

    Um ser ansioso e angustiado;

    Um ser gozador, embriagado, estático, violento, furioso, amante;

    Um ser invadido pelo imaginário;

    Um ser que conhece a morte e não pode acreditar nela;

    Um ser que segrega o mito e a magia;

    Um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses;

    Um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras;

    Um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas;

    Um ser submetido ao erro, ao devaneio;

    Um ser híbrido que produz a desordem.

    E como chamamos loucura à conjunção da ilusão, do desconhecimento,

    da instabilidade,

    da incerteza entre o real e o imaginário,

    da confusão entre o subjetivo e o objetivo,

    do erro, da desordem,

    somos obrigados a ver o Homo Sapiens

    como Homo Demens.

    Edgard Morin

  10. 19 de dezembro de 2012 1:14 pm

    Bom, vc finaliza perfeitamente.
    Mas… imagine que um completo anônimo apresente sua arte a alguém ou alguma ‘instituição’ que dote do direito de categorizar ou não a sua obra como Arte. Que estatuto ou parâmetro é utilizado para aceitá-la (ou não?) O que, possivelmente, seria diferente se em relação a alguém atuante nesse ‘mundo artístico’.
    Uma criatura faz uma exposição de nós de cordas e diz que é arte?! Ora, todo marinheiro será senão tb um artista!
    Uma tela com um borrão vermelho… dizem os conhecedores: “ahhh, mas isto é a mais perfeita representação da angústia deste autor-pintor…”
    Ora! Por favor!
    Subjetivismo é o que define Arte. É o que acho. Fim.

    Beijos

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