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XXY, ou adivinha quem é a mulherzinha?

2 de janeiro de 2013

Minha crônica do site http://www.vidabreve.com publicada ontem. Aqui para os leitores desse blog também

XXY, ou adivinha quem é a mulherzinha?

Por:  – terça-feira

Ilustração: Ricardo Humberto

As duas engenheiras viviam muito bem dividindo as tarefas em um laboratório da universidade. Uma era a chefe; a outra, aluna e admiradora. Vamos chamar a chefe do laboratório de X e a técnica de X1. X1 fora aprovada em um concurso para um cargo técnico por seus méritos como pesquisadora, currículo, experiência, aquelas coisas todas. Como eram doutoras e uma mais estudiosa que a outra, logo X e X1 se tornaram grandes parceiras nos trabalhos do cotidiano acadêmico. E viviam, X e X1, muito felizes.

 

Até que um dia, havendo uma vaga para o mesmo cargo técnico que X1 ocupava, foi aprovado um homem que veio trabalhar no laboratório.

O homem, vamos chamá-lo de Y, pois é importante que estejamos atentas ao senso de abstração que uma história dessas requer. O homem, daqui para frente chamado de Y, pois bem, era um corintiano praticamente fundamentalista. Sendo corintiana a maior parte da população masculina do Brasil, não há nada demais nisso. Torcedor alucinado do seu time, Y também jogava futebol toda semana e assistia aos jogos de outros times.

Poderíamos dizer que Y é um homem típico, mas isso nos faria cair na perigosa formulação do essencialismo em que os diferentes não são contemplados, por isso é mais adequado dizer que se trata de um “tipo de homem”. Fato é que Y é um tipo de homem muito simples: gosta de cerveja e de mulheres, entendendo, de tanto ter visto as propagandas de cerveja que o formaram subjetivamente, que esta é uma equação em que os termos são necessariamente ligados um ao outro. E isso porque esse tipo de homem que Y é tem um pequeno probleminha relativo ao seu jeito de adquirir conhecimento: ao aprender algo, não aceita mais opiniões diferentes sobre o assunto. Em resumo, isso quer dizer que Y é autoritário.

Aí começa o nosso problema, como espectadores dessa cena. Y, sendo apenas graduado, foi trabalhar num laboratório onde há duas mulheres, X e X1, que são doutoras. Ele não entende que a equação mulher + cerveja não esteja exposta diante dele quando trabalha com elas. Não é apenas a característica gnosiológica de Y que fica comprometida neste momento. Sabemos, nós que assistimos à cena, que todo aprendizado tem relação com os afetos, e, portanto, é mais do que claro que as emoções de Y estão intensamente presentes, inclusive sua compreensão falsa sobre as mulheres e seu autoritarismo fazem parte disso tudo. Pergunta que nos fica: se Y é autoritário, ou seja, aquele que acha que tem razão em tudo, como fica diante de duas mulheres doutoras, ou seja, que têm mais experiência e conhecimento que ele?

Para compreendermos o que se passa, vejamos alguns detalhes importantes.

Já sabemos que X1 é doutora e Y não. Precisamos saber que X1 tem senso de duas coisas que chamaremos aqui de “coleguismo” e “profissionalismo”. Logo, X1 sabe que, mesmo não admirando o modo de ser de alguém com quem convive, ela precisa ser moral ou eticamente correta em relação a esta pessoa, no caso Y. E este senso moral e ético implica ajudar Y no próprio trabalho, posto que estando há mais tempo no serviço, tendo experiência com as máquinas, e tendo feito pesquisa de ponta que lhe rendeu seu doutoramento, X1, de fato, tem como orientar Y nos procedimentos técnicos diários. E assim o faz, mesmo percebendo os vastos limites de Y.

E Y, por sua vez, pode aproveitar tudo isso para seu desenvolvimento profissional e, até mesmo, pessoal. Acontece que sendo Y um tipo de homem autoritário, ou seja, dono de um duplo suposto saber, tanto sobre as mulheres quanto sobre seus conhecimentos adquiridos em geral na ciência onde se graduou, sente-se ofendido por estar justamente sendo orientado ou, em alguns casos, contestado por uma mulher, no caso X1.

No laboratório, vemos Y dar um soco na parede, rasgar formulários, ficar vermelho de raiva, gritar, atirar longe o jaleco e sair pisando firme porta afora… Isso quando X1 se aproxima dele avisando-o de que está cometendo um erro no procedimento.

No outro lado da cena, vemos Y entrando no gabinete de X, após um de seus escândalos. Vemos Y ora de cabeça baixa, ora de olhos fundos a choramingar que se sente chateado, opresso, que é, afinal, um pobrezinho. X fica com pena de Y, afinal, ele está tão magoado…

X, então, evidentemente compadecida, vai até X1 dizendo:

— Pobrezinho de Y, ele ficou tão magoado com o que você fez X1…

— Mas o que eu poderia fazer, X? Precisava avisá-lo do erro, poderíamos perder dias de trabalho.

— Você tem que entender, X1, que você está aqui há muito mais tempo, conhece todos os equipamentos do laboratório. Você é brilhante, tem mestrado e doutorado, tem um desempenho fantástico.

— Ora, obrigada — disse X1 timidamente.

— Só que isso o assusta, X1. Você tem que ajudar Y a lidar com isso.

— Eu?

— Claro, quem mais poderia ajudá-lo?

X1 não entendeu muito bem. Responsável que era, estava sempre atenta a seus próprios limites. Sabendo-se bem jovem, X1 costumava estudar muito e tentar aprender com quem fosse mais experiente do que ela, por exemplo X. Deste modo, ficou pensando no que poderia estar acontecendo entre eles: X, X1 e Y. E não encontrando explicação sugeriu o seguinte:

— X, penso que esta seja uma questão que Y deveria resolver conversando com a mãe dele ou fazendo terapia. Não creio que os problemas emocionais de Y sejam problema meu. Não uso meus atributos e títulos para me posicionar acima de Y. Não lhe trago meus problemas pessoais, não penso que possa responsabilizar Y por algum que eu venha a ter. Ao contrário, estamos no mesmo cargo, apesar de nossa formação diferente, ensino-lhe tudo o que posso para que o trabalho flua da melhor maneira.

— Y está com um problema quanto à sua virilidade no trabalho, você, X1, o humilha ao ganhar mais do que ele, ao saber mais do que ele, ao ser mais brilhante do que ele. Você tem que ajudá-lo para que o trabalho não seja prejudicado — diz X, convencida do papel de X1.

X1 permanece boquiaberta. X se retira olhando para X1 com um pedido de condescendência, cheio de anseios de compreensão, afinal que há um homem do tipo de Y naquele local de trabalho em que a exigência de conhecimento técnico e racionalidade estão sempre em xeque. E, no entanto, aquele homem do tipo de Y tem um problema emocional que vem perturbando a paz coletiva.

X1, perplexa como não poderia deixar de ser, percebe a inversão de valores exposta na percepção de X. X exige de X1 não apenas que seja responsável pelo trabalho, pelo progresso técnico de Y, mas também por suas emoções, como se Y fosse um bebê, uma criança, ou, se quisermos usar um termo politicamente incorreto, mas carregado de significado simbólico: uma mulherzinha.

Em frente ao espelho do banheiro, nós que podemos ver as cenas todas, inclusive a cena por trás da cena, vemos Y olhando em seus próprios olhos. Y chora e chora muito. Então, como se apenas encenasse, Y para de chorar e exibe os músculos dos braços ao espelho para seu próprio deleite. Y dá uma olhada no celular, vê quanto de dinheiro tem na carteira, chupa a barriga pra dentro e, antes de deixar o expediente — afinal o horário já se foi — treina um sorriso no mesmo espelho onde cinco minutos antes, exibia suas lágrimas.

Nós, que observamos a cena e gostamos muito de entender o que se passa, sabemos que Y é histérico. Sabemos que a histeria não é só um problema feminino. Ao contrário, há muitos homens histéricos. Mas os homens mesmos não gostam dessa ideia e, por isso, raramente a ciência até então dominada pelos homens investigou o tema a fundo.

Há um problema com a representação de gênero na questão da histeria. Isso relativamente ao fato de escolher como se faz papel de homem e como se faz papel de mulher. Assim como as famosas mulheres histéricas de que Freud tratou desejariam ser o homem que lhes faltava, o homem histérico desejaria ser a mulher que lhe falta. A falta, é claro, é simbólica. Devemos saber que a histeria é fruto de um oco, de um vazio que o histérico se esforça por esconder. Daí que ele faça cena para desviar a atenção alheia. No caso de Y, trata-se de um vazio do conhecimento que é também um vazio do poder. É bem óbvio que Y se sinta ofendido com X1, mais jovem que ele e mais bem sucedida… Além de tudo, X1 rompe com a equação mulher + cerveja demonstrando, de modo contundente, como Y não entendeu nada da vida. E ele quer esconder isso tudo.

Há cada vez mais homens do tipo de Y em nossa cultura, desde que as mulheres saíram de casa e foram trabalhar, mostraram sua competência em todos os campos, do trabalho à ciência, e cada vez mais em todas as áreas, da economia à política… Estes homens do tipo de Y representam o novo sexo frágil, mas tentam mostrar forças e, quando percebem que não vão conseguir, caem na mesma histeria que as mulheres de antigamente impedidas de realizar-se em outra esfera que do casamento e da maternidade. O homem histérico do tipo de Y pode torcer para o Timão, ter músculos imensos, pode beber todas, “pegar” todas, mas é sempre o homem-mulherzinha dando provas de sua fragilidade, mostrando que o sistema lógico não é tão lógico, que a harmonia não vale a pena. Um histérico gosta de atrapalhar quando tudo parece estar bem. Problema é que, às vezes, a fraqueza seja uma força e que, no extremo os covardes como são os histéricos, se tornem violentos. Daí que nesses tempos a violência passional de homens contra mulheres cresça tanto. O homem que bate e mata é tão histérico quanto o que tem ataques dentro do laboratório ou em qualquer outro ambiente de trabalho ou de casa.

Desejamos que X continue preocupada com o que acontece em seu laboratório. Desejamos que X1 continue sendo uma pessoa responsável e lúcida e siga com seu trabalho sem se deixar enganar pelos falsos pobrezinhos. Nós a apoiamos na sua conduta moral e ética. E desejamos que Y vá fazer uma terapia para poder ser a mulher que ele, como histérico, deseja ser.

Como sempre digo para minhas amigas, o problema nunca é um homem que quer você, mas um homem que quer “ser” você.

16 Comentários leave one →
  1. 2 de janeiro de 2013 1:13 pm

    Estimulante a equação X, X1 e Y! A minha sugestão para Y, além da terapia para superar o histerismo, que pode acontecer tanto para homem, como numa mulher, é que ele vá estudar e se especializar, para evoluir e contribuir melhor no desempenho do laboratório da qual ele conquistou uma vaga de trabalho. Assim ele deixa de choramingar diante de alguma mulher.

  2. Chris Oliveira permalink
    2 de janeiro de 2013 1:24 pm

    Uau, Márcia, na mosca! Você acertou a jugular desse tipo que ainda nos inferniza a vida. Ainda não tinha pensado sob essa perspectiva; a do homem que ser você. Mas agora, pensando bem, conheci alguns tipos assim. Ainda bem que se foram pra bem longe de mim. Aliás, eu me fui pra bem longe deles. rs Excelente dia pra ti!

  3. 2 de janeiro de 2013 2:26 pm

    Acho quea violência do homem contra mulheres não cresceu tanto como você diz; apenas há uma maior veiculação na mídia. E também houve uma mudança de mentalidade; antes era “normal” bater em mulher, hoje é crime. Homens sempre bateram em mulheres; e sempre haverá homens que se comportarão assim.

  4. 2 de janeiro de 2013 5:37 pm

    Acredito que muitas mães deveriam ler esse texto, pois o comportamento de Y revela o homem mimado, infantilizado, que foi poupado pelos pais – não enfrentou a falta, não aprendeu a lidar com a frustração, a incompletude da vida. Um tipo que só cresce a nossos olhos: babaca, consumista, machista. As mães brasileiras mimam muito as crianças, deixando a tarefa da castração para as futuras companheiras. Que fardo!!

    • 28 de março de 2013 9:30 am

      Concordo com você Inez, esse comportamento mimado dos homens, em grande parte vem da forma como as mães educam os filhos homens. Basta ver uma família onde tem um filho e uma filha. A diferença no tratamento é absurda.

    • Luiza Cristina permalink
      16 de junho de 2013 1:39 am

      Tadinha da mãe… A culpa sobrou pra ela… (risos)

  5. 5 de janeiro de 2013 6:45 pm

    Esses dias vi um filósofo metendo o pau em meio mundo (que fica mais famoso que ele). Acho que deve ser Y1, super amiguinho de Y…

  6. ODETTE permalink
    6 de janeiro de 2013 9:32 pm

    X certa vez dialogou com y em um evento e se surpreendeu com as coisas que y dissera. Não gostou. Foi lendo outras coisas e ficou indignada. Parece não ter solução. Um bom final para esta “estória” (quem sabe “História”) seria x se apaixonar por y e vice versa.

  7. alexandre a. moreira permalink
    25 de janeiro de 2013 7:39 am

    faltou uma criança na equação

  8. Thiago Mariano permalink
    30 de janeiro de 2013 4:05 am

    É impressionante alguém na sua posição escrever texto tão superficial. Cheira a equação (pra você que gosta de equações): feminismo = machismo de saia. Ridículo e superficial o texto.

    • Thiago Mariano permalink
      30 de janeiro de 2013 4:14 am

      Esqueceu de dizer que x é um “tipo” que mais contribui para a aterradora produção de subjetividade contemporânea também. E que ela, por tabela, produz as “verdades” éticas, juntamente com a comunidade cientifica e pensadores simplórios como você com tanta simplicidade e ingenuidade que aterra o nosso tempo. Esqueça a briga dos sexos e se ligue nos “tipos”. Não só a histeria é genérica como também existem n sexos. Rompa a dualidade pênis-vagina. Pelo bem de quem a lê.

    • Thiago Mariano permalink
      30 de janeiro de 2013 4:15 am

      Corrigindo, “cheira à equação”.

  9. provadigital permalink
    27 de junho de 2013 12:37 am

    Cara… que texto tosco. Uma rebelde querendo ser melhor que os homens em tudo… e daí saí de casa, quer trabalhar e sustentar o lar e, ainda sim, critica o homem que quer cuidar da casa… ele não quer ser mulher, ele apenas faz melhor em 30 minutos o serviço do lar que você leva 4 horas para fazer de forma mediana. Pense bem em quem é o bem feitor em todas as áreas, feminista dos infernos.

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