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Anti-hobby

20 de março de 2013

A Revista Ocas (Março/abril 2013, n. 88) deste mês http://www.ocas.org.br (cujo projeto vale a pena conhecer) tem um texto meu que reproduzo abaixo.

Anti-hobby

Quando Ana Ligia Scachetti me pediu para escrever para a OCAS – convite que aceitei com muito prazer – fiquei com um dúvida: como eu poderia escrever sobre meus hobbies e paixões fora do trabalho se eu não tenho paixões fora do trabalho ou se, melhor expresso, vivo de paixões que se confundem com meu trabalho? Sempre digo aos meus alunos que, se trabalho for algo custoso e difícil, eu não trabalho e nunca trabalhei. Porque a coisa que mais gosto de fazer na vida é justamente o que faço todos os dias como trabalho: estudar, ler, escrever e depois encontrar com pessoas, alunos ou ouvintes em palestras ou aulas abertas, com quem posso dialogar sobre questões fundamentais, curiosas, problemáticas que importam a todos. Meu trabalho é fazer pensar, isso não me incomoda nunca.

O conceito de “hobby” implica que o trabalho é algo negativo e o hobby seria justamente o que nos livra do esforço próprio ao trabalho pelo seu oposto que seria o “tempo livre” relativamente ao trabalho. Mas temos que notar que este conceito está meio em desuso entre nós justamente porque as pessoas trabalham demais e já não existe essa coisa chamada “tempo livre”. A maior parte das pessoas que conheço trabalha o tempo todo, ou trabalha e estuda, e mesmo não gostando do que faz – o que não é o meu caso – acaba não tendo tempo para fazer outras coisas. Aquelas que chamaríamos de hobby e que varia de caso a caso. Há também as mulheres que além do trabalho remunerado trabalham na “terceira jornada” em suas casas… Terão tempo para algum hobby? Tenho duas amigas: uma delas é soleira e rica, ela pratica equitação e pode dizer que isso é seu hobby, e a outra não faz nada além de trabalhar o tempo todo e quando chega em casa organiza tudo para o dia seguinte. Esta última tem marido e filhos e não é rica, logo não tem tempo para hobbies…

Desse modo, o conceito de hobby não se aplica muito bem a muitos casos, o de que não tem tempo, nem ao meu caso, pois as coisas com as quais trabalho são tão instigantes e interessantes que não vejo nelas esforços que não sejam pelo prazer.

E isso me leva a pensar meio que na contramão do que a Ana Ligia me pede.  Pensei melhor na questão do tempo fora do trabalho e vi que, ao me concentrar nos detalhes da minha vida diária, há, sim, um tempo fora do meu trabalho agradável e criativo, mas não se trata de um tempo positivo. Meu trabalho é meu prazer, mas percebo que não faço só o que gosto. Há coisas que sou obrigada a fazer no meio do meu trabalho/prazer e que constituem verdadeiros desprazeres. Com esta colocação, acho que posso, por meio da oportunidade que me oferece a Revista OCAS, cunhar o conceito de “anti-hobby”, que seria uma espécie de “tempo negativo”. Trata-se daquele tempo que gasto – sem trabalhar no que gosto – fazendo coisas inúteis e ao mesmo tempo escravizantes como, por exemplo, ir ao banco, ao correio, a reuniões chatas, à academia de ginástica – coisa que detesto, mas se não vou morro de dor pelo corpo todo. O tempo usado para preencher formulários inúteis para burocracias institucionais estupidificantes. Creio que se trata do tempo devorado pela máquina do sistema capitalista, do trabalho exploratório, da negação das potências da vida que é a burocracia. Quem inventa um hobby tenta fugir disso – e quem trabalha só com burocracia deve sofrer demais. O hobby nestes momentos pode parecer um descanso do deserto que se encontra em um oásis. Creio, porém, que em nosso mundo urbano quase não há a chance de qualquer “oásis”.

Por isso, me ocupo de inventar coisa legais para fazer o tempo todo, enquanto essas coisas são, ao mesmo tempo, meu trabalho diário. Não fico esperando um momento de descanso porque nunca estou cansada do que faço.

Mas gostaria, como a maior parte das pessoas, que a burocracia sumisse, pois ela embota nossa criatividade, serve justamente para impedir que sejamos livres e criativos fazendo o que a gente gosta de verdade.

One Comment leave one →
  1. Dario Zanin permalink
    25 de março de 2013 11:02 pm

    Este é um argumento interessante, ou seja, não tanto a análise do tempo livre que considero também frívola e de pouco (o nenhum) interesse ma a análise da burocracia, dos seus motivos, razões, objetivos (se tiver) e do porque seja assim presente na sociedade brasileira, do seu constante aumento, etc ..

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