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Ensino de Filosofia – Método

27 de março de 2013

(continuando o post de ontem)

Sobre o método

Marcelo, considerando um aspecto de sua carta, a questão do “como despertar” aqueles que partilham com você o espaço da sala de aula, tenho algumas sugestões a fazer relativamente ao “método” que você procura.

Gostaria previamente de dizer que quem leu o Discurso do Método de Descartes, como deve ser o seu caso, não vai deixar de questionar o sentido de qualquer “método”. Logo, se quiser apontar falhas e limites, faça o favor. O diálogo é o maior desejo desta filósofa. Método, por sua vez, é algo particular, por mais que tenha seu momento universal e generalizável. Ou seja, eu posso dizer algumas coisas a você que poderão aconselhá-lo, inspirá-lo, mas é a sua subjetividade, é o seu lugar como sujeito criativo – o que quer dizer que todo professor é meio artista – que criará a sua aula.

Assim, tendo em vista que metade de qualquer método é criação e a outra metade é esforço de realização, penso que a aula é sempre uma obra de arte. No ensino médio ela pode ser construída a partir dos seguintes aspectos que podemos chamar de regras, mas regras tão boas, porque tão abertas, que nem parecem exatamente regras:

1-   Não ensinar “história da filosofia” na sala de aula do ensino médio. Esta deve sempre ser a primeira regra. O professor que vem de uma má formação e pensa que filosofia é um conteúdo histórico, precisa rever seus conceitos. Creio que os professores deveriam ser reeducados no sentido de fazerem da aula uma obra filosófica prática. A história da filosofia é, quando lançada sobre pessoas em geral, jovens ou não, o tipo da erudição inútil que pouco ou nada contribui para a formação da subjetividade. Assim como acontece tambémcom a história em geral quando desconectada com o tempo presente. A história da filosofia deve ajudar o professor como elemento de diálogo quando ela puder oferecer elementos que enriqueçam a experiência da sala de aula. A história da filosofia não é um fim em si da filosofia. Se quiser ler mais sobre veja http://filosofiacinza.com/2013/03/01/sobre-a-utilidade-e-a-inutilidade-da-historia-da-filosofia-para-a-filosofia-e-para-a-vida/

2-   Livres da maldição da história da filosofia como “filosofia” canônica no Brasil, como roteiro do pensamento, o professor deve ser e sentir-se livre para construir com os alunos uma constelação, um quadro geral dos assuntos e temas que interessam aos estudantes. Isso pode ser feito no primeiro dia de aula. Os alunos devem ser chamados a contribuir escolhendo os temas que serão trabalhados durante o ano. Assim aprenderão a projetar seus desejos de saber no espaço público e a responsabilizar-se com o que escolhem. E, sobretudo, se interessarão pelo conteúdo, porque o conteúdo foi construído em grande medida por eles mesmos.

3-   Os estudantes, a partir daí devem ser orientados à pesquisa.  Ensinar é ensinar a aprender. Cada pessoa aprende à sua maneira, e o professor deve ser o “condutor”, o “pedagogo” da saudável curiosidade. Não é possível ensinar aquilo que não interessa. O interesse surge no momento em que alguém aprende a relacionar-se com as coisas do seu mundo, ou quando descobre que existem outros mundos interessantes. O professor pode escolher entre ensinar o ordinário, repetindo o mesmo, o que todos vivem e sabem, ou ensinar o extraordinário.

4-   O conteúdo filosófico em sala de aula deve ser trabalhado a partir de livros, mas também de filmes, de músicas, de teatro, de artes visuais, de todos os materiais que podem ser coletados na Internet. Todo material é bem vindo. O professor pode aproveitar para introduzir elementos extra-ordinários (incomuns, desconhecidos) no processo. Por exemplo, ao falar de um tema inabitual como a própria adolescência, ele pode mostrar um filme em que o problema da adolescência está em jogo e partir daí ara a filosofia política. Então ele pode usar algum trecho, parágrafo de um filósofo clássico para mostrar aos jovens que o problema da juventude é um problema político. O trabalho da filosofia em sala de aula precisa do auxílio das outras disciplinas, das outras matérias. Pode se produzir muito mais “experiência de pensamento” com um jovem usando a pichação que ele vê nas ruas, do que um livro da biblioteca. Depois que ele perceber que a pichação é uma escrita, talvez ele possa perceber que nos livros acontece algo parecido.

5-   A aula pode ser um campo de guerra ou um lugar de encontro. Os estudantes precisam debater, conversar, discutir, refletir sobre o sentido de estar na escola e na sala de aula e, inclusive, de permanecer nela ou modificá-la. Creio que há muito pouca reflexão no âmbito escolar sobre o fato de que todos na escola estão agindo em comunidade. É preciso investir na consciência de que a escola é uma comunidade. A ausência dessa consciência é nociva para a educação, para qualquer prática que se torna, deste modo, irreflexiva, cega e perdida.

6-   Um professor de filosofia pode ensinar aos seus estudantes a prática mais complexa de nossa época, e da qual a nossa sociedade é tão carente, a do diálogo. Este é o fundo de qualquer método válido em filosofia se ela não é uma mera explicação de mundo, se ela é, em si mesma já um método. É preciso aplicar o diálogo em sala de aula. E esta não é uma tarefa nada simples. Ela só acontece no processo do convite ao diálogo. Esta é a grande contribuição da filosofia para o mundo. A chance de trocarmos ideias, conceitos, noções, palavras e criarmos a partir disso responsabilidades em torno do que dizemos/fazemos.

7 Comentários leave one →
  1. 27 de março de 2013 8:31 pm

    Mais uma vez, excelente!!!
    O trecho em que você diz “…todo professor é meio artista…”, é o trecho que melhor descreve minha rotina escolar. Até porque – como Arte Educador – fazer da aula uma obra de arte, onde todos possam lê-la e compreendê-la, podendo – ou não – identificar a praticidade do que foi aprendido em seu dia-a-dia, é desafiador. E qual ser humano não gosta de um desafio?
    Penso que não há um método estanque. Um que sempre possa ser aplicado ignorando as peripécias que um grupo de estudo traz à aula.
    Estamos diferentes a cada dia que nos levantamos de nossos dormitórios e aqueles que conosco convivem, também. Sendo assim, a cada dia, temos que criar um ambiente de aprendizado que possa ser apreciado por todos, nos atentando para o devir e seus seres mutáveis.

  2. 28 de março de 2013 7:51 am

    Como professor, me vi passando pelo mesmo dilema de Marcelo. Minha prática começou a melhorar, e consequentemente o interesse dos alunos, quando parti do pressuposto que somos curiosos e esqueci do que aprendi sobre “Filosofia” na graduação. Partindo das questões dos próprios alunos sobre diversos temas, a filosofia, com minúscula mesmo, começou a surgir. E depois de formularem questões, foram à pesquisa, para a qual somente dei um método e fiz apontamentos sobre possibilidades.

    Longe de ser uma receita, pois continuo reformulando minha prática em sala de aula, e este ano minha cabeça me guia para outros caminhos complementares. Compartilho a posição do filosofar no lugar de filosofia. E para isso, o professor precisa guiar, mas a prática deve ser do aluno. Creio este ser nosso desafio.

    Ótimo texto.

    • 30 de março de 2013 6:55 pm

      Olá Marco.
      Uma coisa que vou escrever para a Márcia, diz respeito ao curriculum do estado, e o tal do caderninho do aluno, sendo de nescessária ordem a sua utilização. Agradeço muito a Marcia, assim como todos os posts e comentários, que estou lendo um a um, pois ela nos abriu uma possibilidade de discussão e reflexão. enfim como ficam os caderninhos e o curriculum?

  3. 28 de março de 2013 9:41 am

    É o meu terceiro ano como professor de filosofia e percebi que ensinar “história da filosofia” realmente não funciona senão como algo subordinado a uma problemática contemporânea. Aprendi a dizer aos alunos que “não se aprende filosofia; aprende-se a filosofar” (Kant).
    De qualquer modo não podemos prescindir dos elementos teórico-conceituais que a história da filosofia proporciona, sob o risco de se cair num filosofar improdutivo porque sem fundamentos conceituais. Ao trabalhar o tema “amor”, por exemplo, partindo de percepções e vivências reais dos alunos, tendo conduzi-los por versões históricas do amor desde a cosmogonia de Hesíodo, passando por Platão, o Cristianismo antigo e contemporâneo (C.S Lewis), a poesia de Vinícius de Moraes, o amor líquido de Baumann e letras complexas como a de “Provas de amor”, de Titãs, por exemplo. A propósito, alguém aí poderia me ajudar com essa música?

    • 28 de março de 2013 2:54 pm

      Francisco, isso que vc faz é perfeito. Eu faço do mesmo jeito com alunos de graduação. A filosofia não está só no texto da tradição canônica.

  4. João Eduardo permalink
    30 de março de 2013 2:18 pm

    Ser professor de filosofia é colocar-se na “difícil” missão de desconstruir o óbvio e revelar as múltiplas camadas de interpretação que se escondem na suposta obviedade do cotidiano.

  5. Elane Campos permalink
    1 de abril de 2013 12:34 pm

    Partindo desse pressuposto, acredito que isso não se aplica apenas
    à filosofia. Como professores/educadores devemos considerar o processo
    social, além do método. Quando sairmos do enclausuramento posto pelas regras educacionais, talvez a gente compreenda que o ensino traz em si, uma gama de diferentes significados, que muitas vezes não são discutidos no âmbito escolar. Nos esquecemos muitas vezes, qual o verdadeiro sentido do ensino, se é que é possível definí-lo, de qualquer maneira, o ensinar e aprender pode estar dentro das possibilidades, permitindo ao outro suas próprias descobertas e entendimento sobre as coisas, e não uma definição, um conceito em torno “da coisa”.
    Talvez devamos considerar o que está por trás do discurso e não necessariamente o discurso propriamente dito. A sala de aula é um dos âmbitos de ensino, mas não é o único, portanto, não podemos validar um método como absoluto.

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