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Resposta do Professor Marcelo Barna sobre o “Método”

3 de abril de 2013

Creio que a discussão tem sido muito frutífera. Publico, abaixo, a carta que recebi do Marcelo Barna:

“Vou iniciar esta breve resposta sobre o Método, fazendo minhas, suas palavras, com toda a sua permissão:

“…. Vejo que, também para mim, a questão da educação é uma ferida. Uma ferida que é diariamente cuidada com muitos esforços, com todos os remédios que encontro. Sei que ela não vai fechar…” (Marcia Tiburi)

Uma ferida foi aberta em mim, ou acredito que lá estava, e agora se manifestou.

Busquei uma ajuda e estou tendo a possibilidade de dialogar sobre o ato de educar no âmbito escolar, graças a boa-ventura, de pessoas que, como você, estão intimamente preocupadas com o devir social, cultural, ético e moral, de nossa sociedade.

Jamais me imaginei lecionando, pois possuía repulsa ao passar na frente das escolas e ver aquele tumulto durante a entrada e ou saída dos alunos. Mas pela quinta vez que me inscrevi para dar aula, aqui estou, no tumulto, no caos mental, que é uma sala de aula. Foi o destino, só pode ser, não há outra explicação que eu consiga achar ou justificativa para minha atual condição, o destino estóico. Não vou me estender em relação a alguns termos que utilizo, para que não percamos o fundamento desta carta.

Posso dizer que apesar das dificuldades encontradas na escola e dentro da sala de aula, me sinto pleno e feliz por estar ali. Apenas busco uma fenda, que possa promover e elevar o encontro subjetivo promovendo o diálogo, expandindo assim a consciência do universo pedagógico.

Dentro de sua resposta, pude perceber que o incômodo é partilhado, pois uma questão bastante importante que me chamou a atenção foi a subjetividade. Isto é constante, pois busco em meus quatrocentos e cinquenta alunos, ler ou sentir cada um deles, a partir do coletivo para o particular. Utilizo essa “metodologia”, talvez pela prática enquanto psicólogo, que realizei por pouco tempo, mas que ampliou até certo sentido uma percepção sensível às demandas individuais e do grupo.

Mas como citei acima, o “destino”, me fez professor. E enquanto professor, assumo a responsabilidade de oferecer algo que está ao meu alcance. Uma pequena parcela para a possibilidade do autoconhecimento, oferecido pela filosofia, calcado no diálogo e na reflexão que parte do indivíduo para o todo. Essa é a minha intenção. Mas estou praticando isso? A resposta até esse momento é não. Então quais os motivos? O que me impede já que tenho a consciência de que o que se faz necessário é oferecer recursos que promovam o despertar da reflexão e do lançar-se no mundo como cidadãos éticos e morais? Será que é a ausência de experiência? Será que é quase que a obrigatoriedade de seguir o curriculum do Estado? Será que me vejo obrigado a seguir o caderno do aluno? Será, Será, Será….?

Lembro-me que no início de minhas aulas como professor – isso apenas há dois meses, isso mesmo, sou professor somente há dois meses – em uma ou duas aulas, busquei o diálogo e disse, na próxima aula iremos fazer um exercício que será pontuado, ao que uma aluna me respondeu: “Mas você não passou nada!”. Então me surgiu a questão, passar alguma coisa é passar “coisas” na lousa, em que eles podem copiar e assim “ter” alguma coisa para responder. Olha a complexidade da pobreza intelectual na qual me vi. Não estou sendo agressivo mas isso foi o que me passou durante alguns dias. Em uma aula do terceiro ano noturno, propus que eles escolhessem os temas para serem trabalhados durante o ano, em que recebi a seguinte resposta: “Fala o que você quiser, qualquer coisa está bom”.

Será que agora podemos perceber aonde estamos e o que virá pela frente? Crianças que desde seus primórdios na escola, estão sendo mal preparadas, mal educadas e ainda mal culturadas (se é que existe essa palavra, mas aqui vale). Filhos e filhas de pais que também passaram por esse processo. Não é a minha proposta generalizar, mas em sua grande maioria, elas se tornam, no jargão educacional, “copistas”, preparadas para o trabalho de mão de obra, braçal.

Ainda sobre o método, acredito que como você sugeriu, é algo subjetivo que deve se manifestar, não como algo pronto mas sempre sendo avaliado e re-avaliado. Algo que promova a reflexão e o diálogo, para a formação de cidadãos. Como então oferecer algo que seja legal, bacana, em sala de aula, pois como escutei uma vez, “professor legal é aquele que não dá nada.”

Sendo assim, ainda me mantenho firme na leitura da subjetividade, e fico aqui pensando e refletindo como adequar o conteúdo programático aos dias de hoje? Qual o tempo que tenho disponível para preparar aulas, que despertem o interesse dos jovens? Pois em meio à jornada de trabalho, correção de atividades, preparação de provas, atualização de diários, estudo, diálogos sobre a educação, reflexão sobre a fenda a ser encontrada e cuidado com a família, o que me resta. Atuar.

O Método proposto, vai ao encontro do que eu imaginava ser possível, mas penso: Será possível aplicá-lo? Terei condições de executá-lo? Sou capaz de oferecer esta possibilidade em meio a tantas prerrogativas que me assolam. Qual será a posição da escola em relação a isso? Vou estar seguindo o conteúdo programático? Atuar. Acredito que esta é uma boa medida.

Ainda fico com suas palavras iniciais, na qual a ferida está aberta, e aqui deixo um pouco de minha dor para ser compartilhada, sabendo desde já que muitas mais virão e teremos condições de ir amenizando, ora uma, ora outra, lembrando que em nosso meio ainda há a delinquência com que lidar.

Querida Márcia, isso é o que consegui escrever até o momento. Faço votos que sua contribuição, assim como esta singela carta, possa nos remeter a muitos outros diálogos que tenham por excelência a prática educacional. Tenho minhas dúvidas se consegui responder adequadamente, pois são muitas questões, e ao escrever uma avalanche de ideias e questões me tomam, sendo que o  esforço para manter o foco é algo tormentoso

Mais uma vez muito obrigado.

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