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A leitora e o diabo – crônica

4 de abril de 2013
Saiu esta semana no http://www.vidabreve.com

A leitora e o diabo

Por:  – terça-feira

Ilustração: Rafa Camargo

No avião, a moça lia um livro comprado mais de vinte anos atrás. As páginas coladas com fita adesiva, algumas soltas de vez, outras definitivamente manchadas com tantas marcas de canetas. O homem de paletó e gravata, óculos, barba feitíssima, dois celulares, maletinha na mão, olhou-a com desdém, quem sabe querendo ajudar.

— Você não tem futuro como leitora.

A moça, demorando para desprender a concentração do livro, notou que alguém falava com ela.

— Como é?

— Você tem que comprar um leitor digital.

— Tenho, é? — disse enquanto tentava acordar para o que estava acontecendo.

— Daqui a dez anos você não vai mais poder ler sem eles.

— Mesmo? Vai ser proibido? — ela se esforçava por entender.

— Nada mais será publicado em papel. Você não vai ter livros para comprar.

— Tenho livros em casa suficientes para uma vida inteira. Ou duas. — disse, ainda um tanto desligada, evitando demonstrar que resistia à insistência alheia.

— Eu sou editor de uma grande editora, vai por mim.

— Mas eu gosto de riscar os livros. Assim com caneta. — falava pensando se devia sentir vergonha do seu livro todo desmantelado.

— Olha esse tablet aqui, tem um programa maravilhoso que permite anotar em cores.

— Mas não é fácil voltar páginas atrás, ou ir adiante, falta materialidade. — ela despistava sem sucesso.

— É fácil sim, o nome do programa é a própria coisa: Easyreader.

— E você já leu algum livro nele? — perguntou, supondo que houvesse alguma vantagem real que ela desconhecia.

— Eu leio revistas, jornais. Leio também muitos manuais.

— Mas jornais e revistas não são feitos para você se concentrar. São para distrair. Deve ser mais fácil de ler do que o meu livro que, para mim, já é uma existência inteira de anotações.

— Ora, mas e você aí? O que está lendo? Não vai me dizer que não está lendo para se distrair?

— Eu sou escritora. Vivo de ler e escrever. Cada livro é um mundo novo e se demora para entrar e sair dele.

— Não vem com essa, o mercado está todo voltado para a distração. O que você escreve?

— Literatura.

— Pelo que vejo você também não tem futuro como escritora. Você não deve vender nada.

— É que eu não escrevo para vender. E não gosto muito de distração, sabe? — falou sentindo aquela obrigação de sinceridade que, até então, ela acreditava que mudaria o mundo. De quebra, podia ser que o sujeito parasse de falar.

— Compre um leitor digital e feche essa papelada. Sua vida vai ficar muito melhor, mais leve, mais simples. Garanto que muito melhor!

— Eu gosto do meu peso, sabe? Peso e escuro. Prefiro mesmo, sabe? — falou, assim como quem cai para debaixo do banco rezando para acabar a viagem.

— Vai por mim. Eu conheço o mercado assim como Deus conhece o caminho, a verdade e a vida.

Naquele momento, uma turbulência inacreditável sacudiu o avião. Quando tudo se acalmou, restava um cheiro de enxofre no ar. O homem tinha desaparecido.

6 Comentários leave one →
  1. Alina amaral permalink
    7 de abril de 2013 8:59 am

    Há de não se perder a ternura jamais…

  2. amandag89 permalink
    10 de abril de 2013 4:35 pm

    E vai dizer que a nosso dia não fica mais leve com o peso das paginas marcadas, rabiscadas…

  3. 8 de maio de 2013 1:25 pm

    (…) e o diabo é o novo deus do povo e dos ricos; o diabo vai da Igreja ao mercado no mesmo avião… Nenhuma metáfora em particular poderia dizer algo para além desta ‘metáfora completa’ que você descreveu (…)

  4. 21 de maio de 2013 11:26 am

    Esse diabo precisa saber o peso que a leveza gera!

  5. elektrovictor permalink
    28 de junho de 2013 8:50 pm

    Oi, eu li seu texto de apresentação e li esse. Gostei muito aliás. Nesse texto, parece que a mulher sou eu quando comecei no Blogspot. Todo mundo criticava e tal, mas depois todo mundo foi se acostumando com os meus textos. Estou seguindo aqui. http://odiariodevictor.wordpress.com/ se você ou os seus leitores quiserem podem me seguir também. Escrevo textos desde os 15 anos. Obrigado pela atenção.

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