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Do senso comum à audiência

27 de maio de 2013

No projeto do livro que lançarei daqui a bastante tempo, apenas em 2014, há um reflexão que eu gostaria de compartilhar com os leitores deste blog. Como ela ainda não está nada pronta, comentários serão bem vindos. 

 

Do senso comum à audiência

 

Dizer que não lemos escritores brasileiros contemporâneos é uma daquelas verdades tristes que povoam o cenário do senso comum atual. Diz-se o mesmo do cinema brasileiro. Poderíamos dizer o mesmo de certa música brasileira contemporânea que não anda nos circuitos comercais. O mesmo ainda pode ser dito das artes em geral, pois parece que poucos se ocupam do trabalho de artistas que fazem carreira na pintura ou nas artes visuais em geral. Poderíamos também falar da ciência. Afinal, sempre é bom perguntar o que sabe o senso comum sobre a pesquisa em física ou biomedicina?

Pode parecer repetitvo ler algo sobre o senso comum depois de tanto ter sido falado sobre ele nos manuais de filosofia que andam por aí, mas é um fato que o senso comum impõe verdades e elas atrapalham algumas coisas. Chamamos de senso comum justamente o conjunto dos discursos que valem como opiniões verdadeiras apenas porque são correntes. Platão e Aristóteles sabiam que não haveria filosofia que não partisse do senso comum.  Desmontar o senso comum,  desmanchar a mera opinião seria o único jeito de seguir no caminho de um pensamento mais cuidadoso sobre as coisas que poderia, em certo momento, ser chamado de “conhecimento.” Claro que podemos sempre dizer, mas quem se importacom isso? Afinal, quando ao mundo da filosofia também corre a “verdade” de que filosofia é algo difícil e que “não existem filósofos no Brasil”.

Estou falando tudo isso para colocar a questão sobre o fundo falso do chamado “senso comum”. Do que se trata quando acreditamos em tais “verdades”? Do fato de que o fundo do senso comum é a sua própria imposição como verdade.  Para falar em termos filosóficos é como se faltasse alguma verdade ao senso comum da qual ele mesmo depende para impor-se como verdade. É como se valesse por ser repetido e não questionado. Isso é o que se chama “petição de pincípio”. Assim, antigamente, para algo ser verdade, dependeria de uma autoridade, o rei, o imperador, o pai de família, o padre, o pastor.

Em nossos dias, desde a invenção dos meios de comunicação de massa, temos também a invenção das massas. As massas não existiam antes da igreja tê-las inventado. O cinema, o rádio, a televisão e, por fim, a Internet, existem por que existem massas.

 

As massas, no entanto, estilhaçam-se a cada dia. Para que exista essa coisa chamada de massa é preciso que haja um quantidade imensa de pessoas que não pensam por conta própria e alguém que pensa por elas. É uma questão geométrica. Um único pastor, um único guia, ou até mesmo um único “filósofo” e temos uma massa que, quanto mais compacta, mais é massa Em contexto chamados de “hegemônicos”, podemos dizer que os “guias” disputam servos teleguiados. No entanto, quando há mais pastores maior é a esponjosidade das massas e, podemos dizer também, que chegamos à fragmentação que implica um desfazimento do caráter compacto de uma massa. Em outras palavras, podemos dizer que quanto mais pastores, no extremo, não teremos mais pastores. A internet parece ter providenciado isso, hoje cada um tem seu meio de comunicação, o seu pedacinho no latifúndio na rede, o seu espaço para fazer o seu jornal. A comunidade no seu sentido mais antigo é o que vai deixando de existir para dar lugar a outros sentidos, inclusive o de que vivemos hoje apenas simulacros de comunidades ou comunidades espectrais como dizem alguns filósofos.

 

Persiste no novo território dos sentidos, aquilo que chamamos de audiência. A audiência é um conjunto de pessoas que pode ou não ser uma massa. Audiência pode ser o todo ou uma parte do todo. Os veículos de comunicação de massa gostariam que as audiências fossem sempre de massas, porque o poder faz a força e porque os patrocinadores que querem sempre “vender” alguma coisa, vender “mais” alguma coisa, precisam da quantidade. Mas a audiência pode ser pequena e ter alta qualidade.

 

Coisa que falei no meu livro Olho de Vidro – a televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011), é que o que está em jogo no contexto da cultura industrializada é a manipulação de um desejo curioso. Trata-se do desejo de fazer parte que anima a audiência, que faz com que as pessoas queiram ver a mesma novela que está passando na televisão ou o que estiver sendo oferecido desde que haja a expectativa de que “todo mundo está vendo”. Como se o fato de que “todos estão vendo” me tornasse parte de uma coisa grandiosa. Difícil questionar este lugar porque nossa experiência contemporânea implica um certo desespero relativo ao lugar social que ocupamos. Quando não podemos fazer nada ou “ser” muita coisa só restam dois caminhos:  desmanchar-se no todo pensando igual e querendo a mesma coisa, ou buscar um caminho próprio.

Mas o que seria um caminho próprio que não se medisse simplesmente com a competitividade vigente que parece imposta a todos todos os dias sob as mais diversas formas?

 

 

 

11 Comentários leave one →
  1. 27 de maio de 2013 12:07 pm

    Márcia, penso até que deveria conversar com calma com você sobre este assunto porque tenho expressão melhor na conversa. Mas, como você pediu um retorno e o retorno tem a ver com aquilo de interessante que leio, que você escreve, então um esforço vale a pena.

    No final, você coloca a indagação a pergunta. “Mas o que seria um caminho próprio que não se medisse simplesmente com a competitividade vigente que parece imposta a todos todos os dias sob as mais diversas formas?”.

    Com os alunos dos projetos de Educação Ambiental que desenvolvo, uma das coisas que coloco é que o bom trabalho, a boa prova, sai de uma boa pergunta. Então, as massas não fazem perguntas, elas repetem o que ouvem e se o outro sabe de onde veio ficam contentes e felizes por fazer parte, de sabe-se lá o que. Você também coloca isto na sua reflexão.

    A questão da competição, a competitividade em tudo é como um câncer em nossos dias atuais. Precisamos de um tanto de competição para sobreviver, caso contrário não estaríamos por aqui e algum predador teria dado fim em nossa existência. No entanto, assim como num processo cancerígeno, a competição foi sendo reproduzida aqui e ali numa escala que hoje ninguém mais se dá conta. E ainda com o agravante de que tudo é mensurado pelo dinheiro pelo que você pode.

    Sou péssimo de citações e posso não acertar, e a memória da estante ainda não trouxe a localização. Existe uma estória de um entalhador de sinos, que criou uma peça belíssima e todos queriam saber como chegou até ali. Ele vai citando uma sequência que foram libertando ele de tudo o que não fosse para fazer a peça. E quando tudo isto ficou para trás ele saiu mata e a armação de sinos apareceu para ele na árvore.

    Assim, este caminho próprio acaba sendo construído desde que possa ser possível se desfazer das amarras da competitividade. Viver na dependência econômica para estar vivo pode ser um começo. Cuidado, não confundir com bolsa disso e bolsa daquilo, onde a competitividade acaba sendo em saber quem consegue ganhar mais com todas as benesses governamentais. Deixar de lado todo vangloriar-se disso e daquilo, contar viagens fantásticas e outros. Enfim, mergulhar fundo e procurar descobrir quem de fato se é. É um mergulho num abismo que até agora não saberia dizer se tem fim.

    A cada mergulho descubro que este caminho próprio é no fundo um caminho integrado com tudo e com todos. Quanto mais integrado melhor se vive e a morte deixa de ser algo que provoque medo. Somos a única espécie que sabe que vai morrer amanhã. Deixar de acreditar numa salvação individual e preferir a perpetuação da espécie é o melhor que descubro a cada dia. E isto posto para ser vivido, torna a mídia de massa, a competição, a novela e tantos outras coisas que todos gostam de citar na segunda-feira, algo sem valor e da qual pode se ficar sem.

    Fica-se isolado por causa disto. Muito pouco ou quase nada. É como conhecer a miséria e a cada dia querer vivê-la de modo compartilhado para permitir que outros possam ter a mesma oportunidade de experimentar um caminho individual, que no fundo é um caminho partilhado desde o início de nossa existência e que pode ser retomado. Cada um do seu jeito, sem guias, sem chefes ou outro.

    Acho que escrevi demais, procurei deixar seguir e não vou fazer revisão, Por isso peço desculpas se tiver algum erro e fico feliz se puder experimentar e podermos compartilhar algo nesta linha mais a frente.

  2. Rivair Miranda permalink
    27 de maio de 2013 12:18 pm

    O que está em jogo no contexto da indústria cultural não é apenas o desejo de fazer parte. muitas pessoas assistem os programas de tv, acessam a internet, ou ouvem rádio em busca de informação.

  3. José permalink
    27 de maio de 2013 12:31 pm

    Acho que o que estaria próximo da resposta desse dilema seria a propria literatura como enfretamento dos demonios que compartilhamos ou do inconsciente coletivo em que estamos imersos.Literatura como simples ato de conhecer a si mesmo atraves desse espelho quebrado que é a massa estilhaçada em microaudiencias de hoje.

  4. Vovó Filomena permalink
    27 de maio de 2013 12:54 pm

    As pessoas têm medo da liberdade pq significa solidão. Na net que poderiam escolher tantas coisas bacanas pra ler que a grande mídia esconde. Mas oq se vê? Pessoas se amontoando nos sites tradicionais, formando guerrilhas virtuais, o exército de otários da esquerda contra o exército da direita balofa carola. o Filosofo da moda repetitivo, o jornalista pitbull , o pastor maluco etc… esses têm a manada aos seus pés!

  5. 27 de maio de 2013 1:53 pm

    A “verdade” é que estamos submetidos desde o nascimento a tudo isso, é sobrevivência. Alguns se dão conta da limitação em querer ser aceito e partem em busca do próprio caminhos, outros não, por ser mais viável. É um condicionamento cultural, e poucos percebem. Mas é ótimo tocar na ferida, cutucar mesmo! Em alguns casos, ser fazer parte da massa não é ruim, quando não é intencional, mas aí é outra história… Adorei o texto e adoro muito seu trabalho. :)))

  6. 27 de maio de 2013 2:08 pm

    Querida Marcia. Interessante o texto, mas quem se preocupa com o que está sendo dito? Talvez apenas uma minoria, que não abandona suas responsabilidades e outras coisas, para, por exemplo, assistir o último capítulo da novela, na qual houve quase que um clima de feirado nacional. Referente ao olho de vidro, cabe também atentar para o olho de plasma, vidrados nos celulares, coisa esta sem sentido. É o senso comum, o ser no comum…aquilo que participo sem saber o por quê participo. Apenas aceito e vou no embalo da onda. Por incrível que pareça uma aluna hoje me perguntou: “Como assim, o que é relacionar? A grande maioria não sabe qual é o seu lugar no mundo, apenas são comuns uns aos outros, eu tenho e você também, eu faço e você também…Enfim, a questão que é levantada, é para poucos, pois pensar confunde, pensar é difícil, pensar não dá dinheiro, pensar é perder tempo, quero tudo pronto, é só colocar no micro-ondas.
    Abraços. Marcelo.

  7. 27 de maio de 2013 5:45 pm

    Muito interessante o texto … A medida em que fui lendo me lembrei de um capitulo de um livro que fazia referencias ao espaço que há entre o meio de comunicação e a massa , tal espaço seria o de como a o individuo capta a informação , como ele lida com o produto que recebe, levando a bricolagem e a outros tantos fenômenos.

  8. Ka Lobec permalink
    28 de maio de 2013 12:17 am

    Talvez haja mesmo um sentido de comunidade também na competitividade. No fundo, somos tão sós que qualquer coisa que indique a presença de um outro, mesmo que antagônica, nos faz sentir acompanhados. Pertencer a uma disputa, disputar para ver se faz sentido. Que sentido temos hoje se mesmo a arte, que poderia nos salvar, tem sido tão negligenciada em favor da cultura de massa? Cultura popular…que sentido tem hoje essa expressão? É popular por que produzida ‘pelo povo’, de forma quase independente? Ou popular porque aumenta a audiência “no povão”? No Brasil, o acesso ao mercado de consumo coincidiu com o acesso aos meios de expressão individuais/sociais. Confusão ainda maior. Mas, mesmo com tanta opção de consumo de cultura e de produtos, e mesmo com a possibilidade de expressão individualizada, a novela e o futebol continuam sendo o porto seguro de uma identidade nacional. E a expressão individualizada do pensamento e da visão de mundo, possível graças às redes sociais, não passa de mera repercussão dos mesmos temas batidos da nossa cultura. Um vazio multiplicado por milhões de individualidades. Uma massa de vazios.

  9. Anselmo Vargas permalink
    28 de maio de 2013 1:39 pm

    Acho que o valor primordial da nossa sociedade é o consumo, e que a busca obsessiva e irracional pela capacidade de comprar influencia muito o senso comum e é o único fator de coesão das massas estilhaçadas que você mencionou.

    Como o valor das pessoas se mede pela sua capacidade de consumir e as qualidades intelectuais e éticas são cada vez menos valorizadas, a nossa necessidade de competir se volta para a busca por uma aparência de maior poder de compra em relação aos demais e se exacerba indefinidamente, fragilizando os vínculos humanos.

    Por isso e além disso, nos tornamos cada vez mais viciados em programas de televisão com baixa qualidade, que são o principal meio para a criação de necessidades de consumo, e em redes sociais, nas quais podemos satisfazer a nossa vaidade e nos convencer de que fazemos parte de um grupo. Isso gera um distanciamento ainda maior em relação aos nossos parentes e amigos e faz com que as relações se tornem cada vez mais superficiais e as comunidades cada vez mais frágeis, o que abre espaço para os guias/pastores venderem suas fórmulas para suprir o vazio existencial resultante disso.

    Entendo que para se ter um caminho próprio e sair desse círculo vicioso é preciso buscar valores diferentes dos que nos são impostos, através de reflexão e questionamento. Além de termos mais paciência e profundidade nos relacionamentos com os amigos. Ou seja, não é nada fácil.

  10. 28 de maio de 2013 11:51 pm

    É uma questão interessante, e sinceramente, só consigo ver uma resposta se toda estrutura da nossa sociedade fosse desmanchada. Tudo o que nos cerca foi fabricado, e até mesmo os desejos que pensamos ter não são nossos. Chega-se então a um paradoxo.

    Tal paradoxo começa a se dissipar somente em casos extremos, quando a vida está prestes a ser perdida, por exemplo. Nesse momento, somente o básico nos importa, somente os rostos queridos e a vontade de permanecer junto a eles. Ou em casos em que o tédio e a repetição de papéis que somos obrigados e desempenhar ultrapassam o suportável e somos forçados a mudar a situação.

    Começamos a acordar desse torpor, desse frenesi descabido, quando não nos vemos encaixados nas massas criadas. Solteiros no dia dos namorados não se encaixam em nenhum lugar nesse dia, assim como órfãos nos dias das mães não partilham das mesmas “felicidades” das massas.

    Nesse momento, a pessoa é forçada a sair do meio do rebanho, e o seu pastor não tem mais poder sobre seu “pensamento”. Ela foi jogada fora da massa, e percebeu todo o circo que foi construído num mundo perecível, de coisas que não fazem sentido, aparentemente. Ela acorda, e como no filme Matrix, ela começa a enxergar as coisas como elas são, sem o auxílio do instagram da vida.

    Talvez caiba a essa pessoa que acordou, colocar sua visão pra fora de todo esse circo. Expandir sua mente para além desse universo, talvez? O Ex-Ministro do Canadá afirmou a existência de alienigenas (embora essa seja uma outra questão). Mas o que quero dizer é que existem perguntas a serem respondidas, e uma vez acordados, não podemos cair no erro de achar que já estamos salvos de toda essa armação.

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