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Carta ao pai – Denise Stoklos

25 de agosto de 2013

Quem puder, assista Carta ao Pai, nova peça de Denise Stoklos que está no SESC Consolação em SP:

http://www.sescsp.org.br/programacao/9260_CARTA+AO+PAI

denise

Assisti ontem e recomendo que assistam, por todos os motivos. Denise Stoklos é uma artista inacreditável como performer, como diretora de seus próprios processos, como idealizadora de seus próprios trabalhos. Denise é uma usina de ideias corporificadas. Toda ideia de Denise é um corpo que ocupa lugar no espaço. Por isso, vê-la no palco traduz-se em êxtase: passa-se à outra ordem de existência, aquela da arte, aquela da transcendência, que é, ao mesmo tempo, um choque com o real. Cai-se dentro do real; finalmente descortinado, ele é sonho.

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Em sua nova peça “Carta ao Pai”, Stoklos e seu “teatro essencial” mostram-se, mais uma vez, como “tudo”: particular e geral, singular e universal, começo e fim, horizontal e vertical.  A experiência da peça é algo como falta com plenitude, prazer com dor, feio com belo, horror com gozo, pensamento com corpo. Tudo está ali: literatura, filosofia, psicanálise, teatro, dança, desenho, palavra e silêncio. Pode parecer abstrato o que eu digo, mas é assim que vi a peça. Assim que vi o mundo de Kafka pelas lentes de Stoklos.

Facsímile de Carta Ao Pai

Facsímile de Carta Ao Pai

A peça é surpreendente (poderia ser diferente?). Eu teria vontade de contar até o fim, mas há os prazeres do inusitado que fazem bem à percepção.

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Franz Kafka com 5 anos

Para vê-la não é preciso ter lido A Carta ao Pai de Franz Kafka. Necessário apenas, estar de ouvidos bem abertos, de olhos bem abertos, deixar-se levar por Stoklos e sua habilidade de abrir um portal para além do espetáculo ao qual nos acostumamos como moscas em uma janela fechada. Ali, deixamos de ser moscas, voamos como pássaros até o espírito aquietar-se aos poucos. Rimos, rimos muito, sabendo que todo riso é o mais intenso desespero e choramos, choramos, como se o intenso desesperar da vida, nos devolvesse uma solidão necessária.

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A dor de existir de Kafka é tratada como a dor de existir de todos. A dor de existir da arte, do teatro, do povo brasileiro. Denise Stoklos, obrigada por nos deixar saber que Kafka é nosso.

8 Comentários leave one →
  1. 25 de agosto de 2013 11:37 am

    Resenha linda. Tomara que esse espetáculo chegue a Salvador. Denise Stoklos é mesmo surpreendente, ela sabe tocar lá no âmago do nosso ser. O espetáculo teatral mais emocionante que já assisti foi Mary Stuart, encenado por ela no Teatro Castro Alves. Quando terminou, a platéia não parou de aplaudir em pé, por mais de 15 minutos. Foi necessário que ela não voltasse mais ao palco, para que as palmas parassem. Pura emoção, arte.

  2. 25 de agosto de 2013 11:52 am

    Marcia! É preciso ser a genial pensadora, tão generosa, além de ser de uma ilimitada sensibilidade, de intensa articulação vinda de suor autêntico em cima de tantos livros lidos e escritos, e muito conectada com seu próprio tempo e com o OUTRO para escrever assim! Eu te agradeço, te reverencio e agora mergulho inteira no seu “Sociedade Fissurada”. Obrigada.

  3. 26 de agosto de 2013 12:25 pm

    Sou da legião de fieis seguidores da Denise. Sua resenha foi ela em palavras. Tomara que a peça venha mais para o sul, para o bem de todos nós.

  4. Ariano Rodrigues permalink
    4 de setembro de 2013 6:55 pm

    Massa a resenha.Denise é devoradora!! Já tive o privilégio de vê-la em algumas peças.A primeira vez que a vi no teatro Laura Alvim,E chorei o espetáculo inteiro.Brava!!! Ariano Rodrigues

  5. Nivaldo Pondian permalink
    5 de setembro de 2013 7:16 pm

    MUITISSIMO INTERESSANTE, CREIO QUE TODOS DEVERIAM ANALISAR TAL CONTEXTO TÃO ACENTUADO EM NOSSO MUNDO MODERNO!

  6. Flavio Izidoro permalink
    10 de setembro de 2013 8:24 am

    A peça é espetacular, surpreendente, quanta criativade e talento desta artista maravilhosa !!! Parabens !! vi a entrevista desta grande artista na tv Cultura (metropolis) e tive o privilegio em ver a peça . Valeu a ida e todos os aplausos

  7. 10 de setembro de 2013 3:13 pm

    Fui nesse domingo. Sim, a Denise é excelente. Mas a sua leitura do Kafka foi pequena, demasiado afetada. Tudo aquilo que a gente não imagina no personagem Kafkiano. E a segunda leitura ainda mais ignóbil. Em cima das críticas, encerrou-se à questão do ator de teatro e sua conturbada relação com o governo (e as políticas de fomento à cultura). Claro que é uma problemática importante a ser levantada, porém, ainda diminuta.

  8. 8 de novembro de 2013 11:25 am

    Olá. Vocês já conhecem a “Carta ao Filho”, de Sylvio Massa??? É a resposta de Herrmann Kafka para seu filho Franz Kakfa, construída pelo auto, através da redescoberta da personalidade de Franz. A relação com o pai ganha um olhar que ajuda a compreender muito da personalidade de um dos autores mais controversos da literatura moderna. É fascinantemente imperdível!!!
    Quem tiver interesse em conhecer melhor o livro ou adquirir um exemplar, pode entrar em contato através do email: editoraaltadena@altadena.com.br

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