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As Mulheres e a Vida Contemporânea

27 de agosto de 2013

Vou participar de um evento muito interessante organizado pela Ana Elise Dorneles Dias em Porto Alegre no dia 4 de setembro.

O evento se chama Contemporâneas e pode ser conhecido na seguinte página do Facebook: https://www.facebook.com/Contemporaneasuniversofeminino

 

Escrevi esse texto para quem quiser ler antes da nossa conversa.

Vou aproveitar e lançar o livro “Sociedade Fissurada” no mesmo dia no local do evento.

 

 

As Mulheres e a Vida contemporânea

Já notaram que se fala muito de “mulher contemporânea” em nossos dias e muito menos em homem contemporâneo? Pois é, as mulheres estão em alta. Vemos uma tendência geral crescente de valorizar o lugar das mulheres na sociedade. Esta tendência nasce das próprias demandas e necessidades das mulheres. Alguns homens capazes de pensar em termos de “reconhecimento” até aderem e defendem as mulheres, sua competência no trabalho, seus direitos em geral. Muitos homens pensam que as mulheres devem ter direitos assegurados como os dos próprios homens. Diria que esse é o “homem” contemporâneo. Um homem que ultrapassou o desejo de dominação. É bom para os próprios homens que pensem assim. Mas é fato que se as próprias mulheres não defendessem seu lugar e seus direitos, eles não fariam nenhum sentido.

Alguém que ainda não analisou a questão historicamente falando pode se perguntar:  “por que isso está acontecendo agora?”.  Ora, não foi de repente que as mulheres começaram a se ocupar de suas próprias questões e passaram a construir um mundo onde haja espaço para elas. Antes, digamos que há meio século atrás, as mulheres viviam para a família e para seus maridos, correspondiam às expectativas dos homens, hoje elas são muito mais capazes de viver para si mesmas. Mesmo aquelas que escolhem casar e ter filhos não abdicam tão facilmente de si mesmas. Tentam equilibrar trabalho e família.

Pesquisadores dizem que esse desejo de dar conta das duas causas (família e trabalho) é muito brasileiro. Em outros países, ou as mulheres trabalham ou tem filhos.  Isso se explica, aliás, pelo fato de que no Brasil, as mulheres da classe média podem contar com o trabalho barato de mulheres de classes menos favorecidas. Na Europa ninguém consegue uma babá senão a preço de ouro. Isso desglamoriza um pouco o sucesso profissional e familiar da mulher brasileira, é verdade. Mas, muito melhor, nos dá o senso de uma verdade que implica a desigualdade de classes. Nenhum feminista que se preze pode esquecer esse fato, sob pena de mistificar as conquistas femininas como se elas não se dessem nos limites dos contextos sociais e históricos.

Mesmo assim, ainda estamos no quadro da valorização das mulheres como era impossível em outras épocas. Esta valorização é evidentemente “autovalorização”. Hoje em dia, quando conhecemos uma mulher que não trabalha fora de casa, que não tem projeto profissional, somos capazes de olhar com estranheza para tal postura. Por mais que em nossa época as pessoas infelizmente vivam sob o jugo do poder do capital, há, na contramão, para as mulheres, uma expectativa de realização pessoal por meio de projetos de vida. Isso, é preciso enfatizar, vale muito mais para as mulheres do que para os homens. Dos homens ainda se espera que sejam provedores, que paguem as contas, que cumpram um papel no campo do poder e da hierarquia. Os poucos surge também a preocupação com a realização do homens. Mas ainda é rara diante da força do papel hierárquico que, a propósito, muitos deles também já não desejam.

O feminismo irônico da mulher contemporânea

Mas é verdade que enquanto o patriarcado põe todo mundo sob seu jugo, uma revolução vem acontecendo, às vezes mais silenciosa, às vezes mais falante.  O que chamo de patriarcado é a lógica da “dominação masculina”. Ela não faz bem a ninguém, mas está ainda em voga na violência contra a mulher (seja doméstica, seja na mídia), e também na homofobia. A revolução é há muito tempo o feminismo que cresce como lógica interna da sociedade democrática que exige cada vez mais liberdade de ser e estar.

Essa liberdade de ser e estar é a maior ofensa ao patriarcado que se impõe com  todo o peso possível. Um peso que perde terreno se suas “vítimas” se contrapõem a ele em uma luta de vida e morte tal como, tantas vezes, fazem as diversas modalidades de feminismos. Mas o patriarcado é vencido também pelo cansaço, por aquilo que podemos chamar um feminismo irônico. O feminismo irônico não é estressado nem histérico. Ele é divertido. E muitas vezes quieto. Vejamos um exemplo interessante: é muito comum que em uma família as filhas mulheres possam estudar, mas que no fundo, se espera delas que casem com um bom marido e tenham filhos. Nesse campo é que as mulheres muitas vezes surpreendem justamente por que não se esperava muita coisa delas. Elas aproveitam que foram esquecidas e fazem o que querem na vida pessoal e no trabalho. Realizam-se como pessoas e profissionais sem se importar com o que os outros vão pensar. Aproveitam o vão onde não estão sendo observadas e seguem em frente.

Um outro lado da questão que começa a surgir no campo do feminismo irônico que é, ao mesmo tempo, orgânico. Quando as mulheres falam em seu próprio trabalho não esperam apenas pagar contas e fazer sucesso segundo os padrões do capital, mas esperam estar se realizando como seres que são capazes de mudar o seu próprio mundo e o mundo ao seu redor. Tantas artistas, ativistas, empreendedoras sociais existem em nosso tempo que vemos a criatividade como uma marca feminina no campo do trabalho.

Se há alguma diferença no modo de pensar das mulheres que em nossa época surgem em busca de direitos, creio que seja esta. As mulheres querem “ser” algo muito diferente do que os homens foram. Tendo a apostar que a cultura cooperativa e colaborativa tem a ver com esse desejo que nasceu no projeto feminista há 200 anos na forma de luta pelos direitos da “humanidade” como um todo. Humanidade na qual devem estar inclusas todas as pessoas independente de características biológicas ou fenótipos, independentemente de suas escolhas e destinos, inclusive as escolhas e experiências sexuais que hoje em dia vão para além do binômio “mulher” e “homem” e põem em cena a expressão de singularidades diversas.

Sofie

Pertencer a seu tempo, ser dona de seu próprio tempo

Alguém poderá dizer que essa autovalorização e esse desejo de realização é uma questão de classe social. E que as mulheres de classe média e mais escolarizadas se envolvem com um tipo de liberdade que não é comum entre as classes menos favorecidas. Não é verdade, a tendência de lutas pelos direitos ou a mera consciência de si cresce entre as mulheres em todas as esferas. E é preciso fomentar essa liberdade. Conheço uma moça que é manicure, ou seja, pertence a classe social trabalhadora. Ela é mãe de três garotas jovens, ficou viúva, envolveu-se com outro homem e teve mais um filho. Trabalha muito e cria seus filhos todos. O pai do menino mais novo quer casar com ela. Mas ela não quer casar com ele. E quando pergunto a ela o motivo, ela sempre responde que ela ama a própria solidão, que ela precisa do seu próprio tempo.

Achei revelador ela dizer que precisa de seu próprio tempo.

Conto o exemplo dessa moça de quarenta e poucos anos porque me parece um ótimo caso para pensarmos na descoberta da liberdade de ser e estar. A nossa personagem é uma moça que é do seu tempo por que quer ter seu próprio tempo. A meu ver essa é a característica comum das mulheres contemporâneas. Há ainda muitas mulheres que se submetem ao patriarcado, que tentam agradar não apenas aos homens, mas a toda a moral masculinista, que sonham com um casamento ideal e a maternidade como se este fosse um objetivo de vida.  Mas muitas outras já desconstruíram esse paradigma e defendem a liberdade de cada uma a partir da defesa da liberdade pessoal.  Por isso, vemos tantas mulheres que ainda querem casar, ter filhos, etc. e outras tantas que não desejam fazer nada disso. Muitas mulheres hoje adoram crianças sem terem se casado, outras tantas casam e optam por não ter filhos. Outras tantas descobrem na homossexualidade uma vida mais feliz.

Todas elas rompem com o padrão de subjugação que sempre fez tantas mulheres infelizes. Isso significa que encontram a liberdade que não pode ser realizada por ninguém, senão por elas mesmas.

Isso significa ser uma mulher contemporânea: ser dona do seu próprio tempo respeitando o tempo de cada uma, respeitando primeiramente a si mesma.

12 Comentários leave one →
  1. 27 de agosto de 2013 12:00 pm

    muito legal! estava falando com uma amiga esses dias exatamente sobre esta questão do tempo. penso que isso hj está para todas as mulheres! (para os homens tbm, claro) mas acho interessante abordar esta questão para as mulheres. é um peso (que remete ao da liberdade) sobre os ombros da mulher contemporânea, digamos assim. e tbm sobre seus corpos. antes, elas se casavam e reproduziam e cumpriam seu papel, ou melhor, o papel que a sociedade patriarcal lhes dava. hj não. há uma multiplicidade de funções, em que o tempo entra como elemento fundamental para ela se realizar sabendo tbm que sobre seu corpo o tempo atua, sobretudo em relação à reprodução. os homens podem ser pais em qualquer idade, as mulheres, não. mas isso hj não impede que a mulher busque sua realização pessoal e, se desejarem, se tornem mães depois dos 40… penso que as mulheres hj, ao tomarem o tempo para si, ou melhor dizendo, ao roubarem do tempo do mundo um tempo para si – o tempo delas (e isso costuma exigir um deslocamento delas) – elas dão ao tempo uma dimensão subjetiva muito interessante. e, sim, contemporânea. (muito interessante sua escolha. dará um debate muito bacana. parabéns!)

    • Renata Carvalho da silva permalink
      22 de outubro de 2013 10:05 am

      Olá, Márcia! Adorei o texto!
      Sobre a diferença entre as mulheres brasileiras e as europeias “Pesquisadores dizem que esse desejo de dar conta das duas causas (família e trabalho) é muito brasileiro”, você poderia sugerir alguma referência bibliográfica para que eu possa aprofundar?
      Desde já, agradeço!
      Abraço,
      Renata Carvalho

  2. Evita permalink
    27 de agosto de 2013 12:18 pm

    Muito bom! é isso, sermos livres para fazermos nossas escolhas, sem julgar o próximo e sem sermos julgadas . Mas se por ventura alguém se achar no direito de julgar/apontar dane-se. Eu não me importo… sou livre!!!

  3. 27 de agosto de 2013 12:29 pm

    Imagino que um homem contemporâneo vai além daquele que exige ou deseja direitos iguais para as mulheres. Penso nesse homem como quem não enxerga que há diferença entre gêneros quando o assunto é ‘direitos’. E hoje o homem, seja o moderno ou o das cavernas, não tem muita escolha. Meu sentimento é de, no mínimo, curiosidade em vivenciar um momento em que vemos um Steve Ballmer meter os pés pelas mãos frente à gigante Microsoft, enquanto que Melissa Mayer reergue uma empresa feita a Yahoo!, que há pouco tempo esteve à beira da falência e prestes a ser vendida àquela mesma Microsoft. Hoje em dia não enxergo diferença entre gêneros. E se houver diferença, a vantagem está, claramente, do lado das mulheres…!

  4. Viviane Regina Caliskevstz permalink
    27 de agosto de 2013 3:38 pm

    Ao ler um texto intitulado “ENSAIO ACERCA DAS MULHERES” escrito por Arthur Schopenhauer (filósofo do século XIX), primeiro percebi a dificuldade de aturar a essência machista que amarravam as frases desse texto. Contudo não tem como analisa-lo sem um contexto histórico, no caso sec. XIX. Nas páginas que se seguiam, a visão dos homens sobre o universo feminino ficava cada vez mais agressiva, e cada vez mais difícil de ler, encontra-se aqui alguns trechos interessantes retirado desse ensaio:
    “O simples aspecto da mulher revela que não é destinada nem aos grandes trabalhos intelectuais, nem aos grandes trabalhos materiais (…) os homens são feitos para ganhar dinheiro e elas para o gastar (…) a jovialidade, que lhe é própria e a torna capaz de distrair e, por vezes, de consolar o homem, acabrunhado de cuidados e inquietações (…) são inferiores aos homens no que respeita à equidade (senso de justiça), à Retidão (senso de integridade) e à escrupulosa probidade (honestidade). (…) Os homens entre si são naturalmente indiferentes, as mulheres são, por índole, inimigas (…) a situação que um homem ocupa depende de mil considerações; quanto às mulheres, uma só decide tudo: o homem a quem souberem agradar. A sua única função coloca-as num pé de igualdade bem mais acentuado, e por isso procuram criar entre si diferenças de categoria. (…) Foi necessário que a inteligência do homem se obscurecesse pelo amor para que chamasse belo a esse sexo de pequena estatura, ombros estreitos, ancas largas, e pernas curtas (…) As mulheres não têm nem o sentimento nem a inteligência da música, como não têm o da poesia, ou das artes plásticas; o que há nelas é pura macaqueação (macacos), puro pretexto, pura Afetação explorada pelo desejo de agradarem. (…) o homem esforça-se, em todas as coisas, por dominar diretamente: ou pela inteligência ou pela força; a mulher, pelo contrário, vê-se sempre em toda a parte reduzida a um domínio (…) Mas que melhor se pode esperar da parte das mulheres se refletirmos que no mundo inteiro esse sexo não pôde produzir um único espírito verdadeiramente grande, nem uma obra completa e original nas belas artes, nem, fosse no que fosse, uma única obra de valor durável? (…) A mulher no Ocidente, o que chamam a dama, encontra-se numa posição absolutamente falsa, porque a mulher, o sexus sequior (sexo seguro) dos antigos, não foi feita de modo nenhum para inspirar veneração e receber homenagens, nem para levantar mais a cabeça que o homem, nem para ter direitos iguais aos dele. (…) Só devia haver no mundo mulheres caseiras aplicando-se aos trabalhos domésticos, e raparigas que aspirassem ao mesmo fim e se educariam sem arrogância, para o trabalho e para a submissão (…) igual ao homem, o que ela não é sob nenhum ponto de vista (…). Exceções isoladas e parciais não alteram este estado de coisas”. Schopenhauer ainda embasa seus argumentos em Rousseau, que afirma que “As mulheres, em geral, não apreciam arte alguma, não entendem nenhuma e não têm nenhum talento”, e em Napoleão que conclui que “As mulheres não têm categoria”.
    No entanto, resolvi trazer essas opiniões para um analise atual, pois quase que diariamente ouço reclamações dos homens, que não conseguem se relacionar com ninguém porque não entende as mulheres, as quais só pensam em tirar proveito das situações, com seus microvestidos, só demonstram interesse pela marca do carro, ou pelas cifras que o macho possui, visto que se as cifras não existirem ou forem baixas, o contato físico terá um saldo negativo. Escuto também mulheres, as que felizmente conseguem formular opiniões, reclamando de homens que as usam, homens desprovidos de caráter e sentimento, mas que as dominam de uma forma sadomasoquista, fazendo com que as mesma percam sua energia vital. Essas mulheres tornam-se escravas de um relacionamento que tem no Poder, o combustível da relação de dominado e dominador (mulheres que não se respeitam e não se amam o suficiente para perceberem que ao buscarem o amor do outro nunca o vão ter, e homens que são idolatrados e postos em pedestais por essas mesmas mulheres, e que são acostumados a olharem-nas de cima). Vivem ambos numa prisão de Poder, que em resumo lhes atormenta e os priva da simplicidade de uma vida plena. Quando vejo pessoas levantando essas questões, e percebo que elas já estão passando dos 30 anos, começo a perceber que o crédito da vida esta se esgotando para todos, e quase chego a ficar sem argumentos quando me vejo ouvindo as reclamações.
    Mas ai novos questionamentos me surgem quando passo a observar o comportamento social, (aliais um excelente exercício), e chego a quase concordar com as colocações de Schopenhauer, pois vejo mulheres querendo se passar por meninas e meninas se passando por mulheres; vejo um alto investimento em sapatos e vestidos (curtos), os quais configuram-se como UNICAS ferramentas de conquistas dos machos disponíveis. Aliais deve morar nisso o fato de haver mais lojas de vestuários do que livrarias nas cidades em geral. Vejo mulheres desmaiadas em banheiros porque conseguiram ingerir mais bebidas alcoólicas que os homens, e quase sempre motivado pelo desprezo de algum macho que preferiu outra fêmea (estou usando esses substantivo porque vejo muito instinto primitivo nas relações sociais, mesmo Freud afirmando que o ser humano é o ser mais (des)naturalizado que existe). Schopenhauer compara o comportamento das mulheres do sec. XIX ao dos macacos, afirmando que essas não possuem a capacidade para compreender a Razão, para apreciar as artes, e nem para as conversas, pós seus comportamentos “tagarelas” não as deixas raciocinar, e por isso são vistas como objetos de diversão por parte dos homens. Bom, me pergunto o que mudou no nosso século? As mulheres, na sua maioria, não estão vestidas e desprovidas de capacidade mental, como descreveu Schopenhauer, dispostas a escolhas e divertimento dos homens? Raramente vi situações em que houvesse uma união feminina tão consolidada que pudesse superar a união masculina.
    Esses dias a traz li um artigo da revista Veja que mostrava mulheres que comandam negócios altamente lucrativos, empresárias de grandes escritórios, estão conseguindo mudar a imagem da mulher masculinizada na qual se transformou todas as pioneiras que conquistaram posições sociais equivalentes aos dos homens. Sabe qual era a briga dessas mulheres? O direito de se vestirem como mulheres (saia, vestidos coloridos, salto alto). Confesso que fiquei indignada em ler isso numa época em que as informações se tornaram instantâneas, visto que informação significa poder, poder de mudança de postura, de paradigmas, e de superação de conceitos impostos. Mas ai voltei a realidade e percebi que não importa a disponibilidade de informações se o processamento delas não é efetivo, afinal, ninguém consegue ganhar uma guerra se não souber usar as armas disponíveis. Minha indignação focou-se numa simples questão: se as mulheres são femininas na hora da conquista o que as impede de serem femininas na hora do trabalho? Porque mulheres tem que se vestirem estereotipadas de homens para produzirem, para exercerem seu direito intelectual? Será que isso é uma brecha que as mulheres encontraram para poder se infiltrarem no universo masculino, será que a visão de ótica leva os homens as verem como semelhantes, logo menos perigosos (visto que estamos numa selva)? Fico imaginando se essas questões são perceptíveis às mulheres, se elas possuem a noção do poder patriarcalista que as aprisiona, pois lembro que desde muito criança, sempre vi mulheres reproduzindo o discurso masculino, em suas falas, em suas atitudes, e ao crescer, percebi que elas passaram a vida toda reclamando da posição de mulher e de seus homens. Percebi então que uma das engrenagens mais potentes desse sistema maluco é a ALIENAÇÃO, é ela que rege as instâncias sociais (religião, cultural, política, cotidiana). É essa alienação que aprisiona todas as mulheres, e não deixa nem mesmo as que não se encaixam nesse padrão pré-determinado por valores patriarcais se libertarem, caindo no que Schopenhauer descreve: “Exceções isoladas e parciais não alteram este estado de coisas”. Vivemos numa época em que para sermos respeitadas temos que nos enquadrar num modelo ideal, aos homens é claro: não podemos mostrar os dentes, usar roupa muito feminina, ser simpática então, esquece, porque podemos dar a impressão de que logo queremos ir para a cama com o primeiro macho que aparecer em nossa frente.
    Mulher sozinha vira motivo de desconfiança. Nossa já nem sei mais de que século estou falando. Li um artigo (bem como da pra notar eu lei muito, logo quebrei o modelo colocado por Schopenhauer ao afirmar que mulheres não têm propensões intelectuais) que questionava o direito que uma mulher tem de se arrumar, ir até um bar ou restaurante, e aproveitar a noite sozinha, e voltar para casa satisfeita pela ótima companhia que ela mesma a proporciona. O artigo falava no DIREITO DE UMA MULHER ESTAR SOZINHA, direito??? mas quem é que diz o que podemos ou não fazer. Bem, acabei concordando com o colunista, visto que é quase impossível estar sozinha, sem que haja um macho dominante pronto para estragar com a noite. Uma mulher sozinha representa para a maioria dos homens duas coisas: desespero feminino e um sexo fácil (se bem que hoje isso esta tão fácil). Uma mulher não tem sossego se estiver sozinha, e pior o uso da palavra NÃO acompanhada das demais VOCÊ PODE ME DAR LICENÇA, QUERO FICAR SOZINHA, torna-se Grega aos ouvidos dos homens, que insistem até uma explosão de ira, que resulta, é claro, numa conclusão masculina como: vadia, puta, cadela, frígida (para os mais tradicionais). E eu achando que essas expressões referiam-se as mulheres fáceis…pelo menos sempre ouvi isso.
    Os homens reclamam que não entendem as mulheres, as mulheres reclamam que os homens não prestam, mas o que eu vejo é simplesmente falta de amor próprio, para ambos, falta de alto estima, falta de respeito pessoal e para com os outros, mas principalmente uma falta de individualidade (derivada de indivíduo, único, e não de egoísmo) que os torne senhores de si, conhecedores de sua essência. As pessoas não se conhecem e não aprenderam a dominar-se e buscam diariamente dominar os outros … é obvio que a probabilidade de algo dar errado será enorme.
    Eu vejo as opiniões de Schopenhauer como paradigmas de uma época, e paradigmas estão sujeitos a superações, e aos poucos estão sendo superados, visto que há tantas mulheres talentosas em todas as esferas sociais. Contudo, enquanto esses conceitos continuarem sendo reproduzidos, sem que haja uma reflexão pessoal das ações, poucas mudanças ocorreram, e nós mulheres teremos que conviver nessa prisão moral criada pelos homens e defendida pelas mulheres, onde não possuímos nem o direito de sermos mulheres de verdade, pois vivemos um estereótipo de vida que não pertence a nossa essência, pelo menos não a mim… e a você já pensou a quem pertence a sua essência?

  5. Seila Albornoz permalink
    27 de agosto de 2013 6:51 pm

    Márcia, és tão clara e própria nos mais variados assuntos que abordas, como este, propiciando oportunidade para que se reflita, assimile, alargue e / ou adquira novos conhecimentos e, principalmente, se efetue mudança de hábito e / ou de visão.
    Talvez ao ler o que escreves, possa estar sintetizado nesta frase de Fernando Pessoa:
    “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Forte abraço, Seila Albornoz

  6. 27 de agosto de 2013 8:35 pm

    As mulheres são parecidas com os homens em seus projetos e atitudes para o sucesso. Não estou falando de intelectuais, artistas, etc, tem uma vida própria. Mas das mulheres do mundo executivo. O sucesso delas é igual ao doso homens. São mulheres homens. Para vencer em instituições privadas elas devem se parecer cada vez mais com os homens. Com em multinacionais por exemplo. Veja o que se fala da Presidenta Dilma: ela é um General. Parece que a única saída para as mulheres executivas é ter atitudes de homens em cargos executivos. Não teríamos outra solução?

  7. 28 de agosto de 2013 10:57 am

    Sinto orgulho de ter ao meu lado uma mulher cujo passado e presente posso identificar em várias passagens desse texto. Um orgulhoso coadjuvante de sua história.

    Ótimo texto.

  8. Jake permalink
    2 de setembro de 2013 7:08 pm

    Márcia, esperava um texto mais profundo, que tratasse da liberdade feminina de uma forma muito mais contextualizada. Muitas vezes, a submissão da mulher ao “patriarcado” não é uma opção – é simplesmente a necessidade de sobrevivencia para ela própria e para os filhos. Ou, o sonho de casar, ser mãe e abdicar da vida profissional também pode ser uma opção aparente, mas totalmente imposta pela família, pelos contos de fada e por tantas outras influencias culturais que, direta ou indiretamente, ainda direcionam as opções das mulheres.

    Pelo seu texto ainda deu a impressão de que não é possível ter filhos e sucesso profissional, ainda mais em tempos em que empregadas domésticas (também mulheres com sonhos, etc) tornam-se artigo de luxo – e os pais, onde estão? Ah, sim, claro, eles estão construindo o sucesso profissional deles, certo?

    • 2 de setembro de 2013 8:22 pm

      Jake, como vc deve ter notado, trata-se de um pequeno espaço de blog para colocar algumas questões que, neste momento, devem ficar para pensar. Que vc esperasse um texto “mais profundo, que tratasse da liberdade feminina de uma forma muito mais contextualizada” gostaria de entender em que sentido. Já escrevi vários textos sobre mulheres abordando vários temas, inclusive i da liberdade. Não não vejo em que sentido esse possa estar inconsistente, por favor, explique mais.
      Espero não ter dado a entender que penso que o patriarcado seja um opção. Isso seria tão anti-feminista! Seria simplesmente sem sentido.
      Sobre o tópico: “o sonho de casar, ser mãe e abdicar da vida profissional também pode ser uma opção aparente, mas totalmente imposta pela família, pelos contos de fada e por tantas outras influencias culturais que, direta ou indiretamente, ainda direcionam as opções das mulheres” não creio que o termo “totalmente” seja adequado.
      Quanto a esta sua frase “não é possível ter filhos e sucesso profissional”, pensei que eu tivesse sinalizado para o contrário.
      Sobre os homens, bom, claro que a maior parte não está nem aí.
      Obrigada por seu interessante comentário.
      Abraços

  9. Fernanda permalink
    9 de setembro de 2013 8:38 pm

    Acho que temos novos homens (homens contemporâneos?), já criados por mães já não submissas ao patriarcado. Uma mulher, com seu projeto profissional e tudo mais, pode ver em um homem desses um amigo, mais do que tudo, e também um bom companheiro para criar uma criança nesse “admirável mundo novo” (caso a mulher tenha vontade mesmo de ter um filho). Sem essas ilusões de contos de fada e essa bobagem toda de casar na igreja e tudo mais, sabendo das dificuldades que com certeza virão. Seria abdicar de sua liberdade se unir a esse homem? Ou também pode ser uma opção de vida dentro dessa liberdade de escolha?
    Gostaria muito de ler opiniões. Acho que não é uma pergunta tão simples quanto parece…

  10. Sérgio Tadeu Guimaraes dos Santos permalink
    24 de setembro de 2013 6:35 pm

    Gostaria de discordar do Jake. Embora haja mulheres em situação de necessidade, acho que houve uma mudança ética independente da questão da necessidade. Não é possível hoje manter um casamento só por necessidade material. Não é só as mulheres de classe média, com autonomia financeira que rompem um relacionamento. Conheço casos também (como citado pela Márcia) em que mulheres de classes populares (na faixa de 50-60 anos) tiveram que se separar pois nao dava mais. Não era nem violência física, era falta de compromisso, responsabilidade, carinho etc.Essas mulheres descobriram que podiam viver (até melhor) sem um homem nas suas vidas.Quanto ao que o Vitor Flores acho que no mundo do trabalho executivo, a regra ainda é essa: Não importa se você é homen ou mulher o que importa é que você está no cargo de comando para aumentar o lucro da empresa, e a briga pelo poder (para ficar no lugar) é estimulada.A minha chefe (é uma mulher, sim) está no cargo porque é competente (mais competente do que eu) eu reconheço isto e não vejo problemas em seguir sua diretriz( sem ser puxa-saco)…

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