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100 parágrafos em palavras de vidro – da série #omanto

27 de setembro de 2013
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100 parágrafos em palavras de vidro

 

 

 

 

“Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos”.

Jorge Luis Borges. In O imortal

 

  1. Transcrevi as 9 fitas cassete que encontrei no quarto que minha mãe ocupava na casa onde viveu e morreu. Trechos de cartas, poesias, histórias sem começos definidos ou fins claros, fragmentos filosóficos, verbetes de dicionários, bulas de remédio, cantos de pássaros, livros de bordados e embalagens de aviamentos, eram lidos enquanto um gravador ligado registrava a confusão sonora ao redor. Demorei a perceber que ela ditava e, depois, que os dizia sem ler. Ao que parece, sem o propósito de gravar a maior parte, talvez sem perceber que guardava uma pronúncia, enquanto uma outra parte, a menor, era gravada com intenção direta de registro. Avaliar suas intenções não me levou muito longe. Com o tempo, apenas ao avançar na transcrição dos dizeres, percebi que o dito era como um véu que escondia o não dito ainda que estivesse, claramente, sendo dito. Ao me expressar deste modo, não quero ser mal interpretada. Dizer o óbvio e, ao mesmo tempo, fingir o contrário pela formulação confusa, tática que aprendi com os livros, não é o que busco. Estudei-os por obrigação, mais que por gosto. Por perceber que o material, mesmo sonoro, e antes de transcrito, se parecia com a coisa feita de papel e letras, matéria quase antimaterial, superfície sobre superfície com fundura de espírito, a que se chama livro e ao qual eu cheguei apenas por ter passado perto do instante indecidível entre a sorte e o azar a que se chama vida quando se quer dizer destino. Não saberei, não decidirei, não vou me antecipar e julgar como se eu entendesse tudo o que ouvi e o que fiz. Chamo livro por questão de forma. Se há qualquer chance de que não o seja, ela está neste buraco no qual a opção é o que falta para mim. Buraco aqui é figura de linguagem e logo ficará legível o que ela realmente significa para além da sempre disponível formulação que tanto mais clareia quanto mais confunde. Não vou dispor da formulação confusa que, em cada um dos dizeres que encontrei, alertou-me para o significado deste mundo espesso e superficial de palavras. Chamei livro, agi como se estivesse diante de um livro. No entanto, parece-me desonesto fazer igual ao que vi nos livros, como se eu pudesse pensar igual, copiar as ideias sinuosas que dão a impressão de complexidade, ainda que ilusões atraiam pessoas como nós, eu e você, como a luz atrai mariposas. Aliás, metáfora que, estando nos livros, talvez por ironia do mesmo destino que não perdoa aquele que dele se ri, me perseguiu até que eu a grafasse aqui. Deixo a formulação confusa, bem como a cópia, e tudo o mais de lado, o que digo apenas para justificar que deixarei de lado. Vou de uma vez ao livro. Não à ficção, nem, muito menos, à mentira que, de certo modo, a envolve, tampouco ao ensaio, à crônica ou qualquer destes gêneros mistos que agradam os indecisos. Sei que este como qualquer outro é um pensamento raso; sendo disto que se trata à cada página que se produz, não vejo contradição. Estaria eu aqui se não fosse a adesão ao raso? Devo ser fiel ao que me move como se um moribundo pedindo água me alcançasse com a própria mão um copo vazio no deserto que ele sacou com as últimas forças dentre os próprios pertences. O copo de água me cabe. O dever humanitário de não deixar que morra sem matar-lhe a sede não me impede de perceber que a mala que trazia o moribundo não tinha nada além deste copo. Uso a metáfora para que entendam o tamanho da culpa a surgir caso o moribundo morra em seco mesmo sabendo que o copo nada mais era do que uma isca que ele mesmo preparou numa viagem de séculos contra o meu projeto de vida. Olha-me como um vampiro futuro, um vampiro que há de vir, habitante dos muros da minha imaginação, e me pede água enquanto espera minha tática, ou minha generosidade. A que pode mantê-lo vivo. A mesma que o fez permanecer entre os livros quando deveria ter desaparecido como um sonho. Seus dentes são a ameaça palavra por palavra, a formulação confusa que me pede cada linha. Linha sempre pronta ao meu pescoço. Lançar-me à tarefa que aqui levo a cabo é, por isso, o mesmo que fugir de toda tática com os dentes amarelos do moribundo, zumbi a perseguir-me. Agir na contramão do que deveria ser feito sem deixar de dar água ao moribundo que, um dia, tornado zumbi, preencherá todas as perspectivas pelas quais eu possa olhar. De nada posso contra o destino que lhe cabe, ainda que me peça resgate com seu rosto sempre acordado e me envolva, por vingança, na sina que é só sua. Quando o que é meu for seu, ou o que é seu for meu, para onde poderei seguir? Tudo já foi anunciado na natureza de coisa ida à qual quer me condenar e eu, sem saber de saídas, sem lembrar que poderia quebrar o copo e trocar o plano inteiro, terei a única alternativa que cabe a quem assiste e percebe o que ocorre mesmo sem querer. Posso seguir. Não é decisão, é pergunta. Enquanto viajo pelo deserto buscando o que pôr dentro do copo, conto com a desculpa de que nunca me relacionei com as letras e que o próprio vidro contém, dentro de si, a potência da água, potência das letras apagadas. O copo não é um copo, é um espelho. Disto já esquecera. Não tenho mais conhecimento das formas. Tenho o copo. Não a liberdade de quebrá-lo e inverter a potência do copo pela potência do copo quebrado, a impotência sem a qual não sou nada. Não teria nada a dizer se tudo fosse diferente: um espelho em vez de um copo. Um lobisomem em vez de um vampiro. Fico com os dois. Que se contente o meu moribundo em seu devir zumbi. A metamorfose entre o vampirismo e a licantropia motivada pela existência de um copo impossível de quebrar e que devém espelho. Pena não se tratar de ilusão, volto ao copo, mas da forma da água em sua ausência. É o que temos pela frente, um copo vazio e um espelho, alguns monstros. Deixo, porém, tudo de lado mais uma vez. Conto com a novidade da própria coisa sobre a coisa, algo que dispensa de todo ardil, da formulação confusa, do copo, do espelho e até dos monstros. O moribundo me persegue até o futuro, seguido pelo vampiro, seguido do lobisomem, todos seguidos por mim com um copo de vidro nas mãos, um espelho na outra, a fugir pelo deserto que ameaça o porvir, não mais que a memória de um passado que morre em seco a cada segundo de abandono. Não posso seguir mais nada. O féretro das coisas me persegue. Eu me movo, nada mais posso fazer além de fazer cada coisa de uma vez. #Toco a tecla,  a letra, logo a palavra inteira. Cada uma delas não me permite mentir e toda ilusão que poderia haver desvanece.  leandro17
2 Comentários leave one →
  1. 28 de setembro de 2013 8:14 am

    Deve ter sido bom rever a sua mãe. Assim, sem a máscara das táticas que aprendemos nos livros.

  2. SIEGFRIED FUCHS permalink
    1 de outubro de 2013 8:18 pm

    Eu comigo mesmo, num monólogo. Não sei se entendi bem mas é isso. E passar por isso para ir além de si.
    Ainda: o indizível é a emoção, quando não se a quer dizer.
    E, ainda, tudo o que é dito ou escrito, a palavra… é para o outro, para outra pessoa.
    Valeu Márcia. O texto é muito bom; sempre atiça a gente.

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