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Aos professores do Brasil e do Rio

2 de outubro de 2013

Prezados professores, meus colegas, prezados estudantes e ex-estudantes,

estive há dois dias atrás em um encontro de educação daqueles dos quais participamos para promover a nossa lucidez conjunta. O tema de debate da mesa da qual participei era “formação de professores”. A mesa era composta por César Nunes da UNICAMP e Emília Cipriano da PUC-SP. Nesse dia fiquei muito feliz pela qualidade da conversa, pela lucidez das abordagens. Sempre comprovo que nós que trabalhamos com educação sabemos muito bem do que é preciso em termos políticos para que as coisas melhorem em nosso país. Cristovão Buarque fez a conferência final do encontro e foi muito feliz em suas observações sobre caminhos concretos em termos de projetos. Ele insistiu na questão grave do salário dos professores e no projeto de educação nacional. A postura de Cristovão Buarque é a de um sobrevivente numa ilha no mar de lama da política nacional em relação à educação. Seu isolamento é prova de que o cenário geral é realmente biopolítico e condena a todos e cada um ao salve-se-quem-puder típico de um país sem cidadania.

No Brasil, não somos apenas privados de nossa cidadania, mas verdadeiramente condenados à injustiça, à degradação moral e física pela ausência de direitos, à indignidade.

Aquele foi um bom momento para pensar em muitas coisas: políticas, éticas, estéticas…

Sou professora há 20 anos. Sempre tive muito orgulho da minha profissão. Acho nobre, digno e muito bonito ser professora. No período em que fiz televisão, continuei sendo professora. Hoje, tendo muitos outros compromissos, continuo sendo professora. Amo a minha sala de aula com meus estudantes. Nosso encontro é um encontro xamânico, de poder, de alegria, de festa e de cura. Nunca em minha vida, saí da sala de aula sem acreditar que ali eu estou construindo um mundo melhor política e existencialmente falando. Que ali estou educando para a lucidez, contra a barbárie e para além do capital. Hoje, no entanto, me senti muito pequena e em perigo real.  Ao abrir a porta às 6 horas da manhã, peguei o jornal e vi essa foto:

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O choque, a perplexidade, o estranhamento. Adiei o pensamento. Segurei. Segui.

Tinha uma banca na PUC-SP que durou até o começo da tarde. Raphael Dallanese defendeu uma bela tese sobre comunicação e jogo sob orientação de Norval Baitello Junior a quem muito admiro. Foram horas de alegria acadêmica. Um bom debate é impagável. Ouvir as opiniões de outros colegas é instigante. Sempre é bom ouvir um professor falando, disso eu tenho certeza. Professores são muito interessantes, inteligentes, articulados, até mesmo sábios (e há, entre nós, até daqueles mais sábios ainda, os que riem de si mesmos). Até no mais ressentido, pois há muito ressentimento entre nós, brilha aquele fulgor de inteligência que sempre encanta.

Contudo, no fundo, no fundo, o martelo da indiganação contida desde as 6 da manhã provocava em mim uma dor de cabeça… eu nunca tenho dor de cabeça…

Era a foto.

Estou até agora tentando compreender como uma cena dessas é possível? Como um evento desses é possível? Que ódio é esse que flui nas ordens, nas posturas, configurando-se em violência aberta e mais do que cínica, uma violência que se desprende da própria condição humana e nos joga na inumanidade.

Não gostaria apenas de entender esse ódio, pois que a foto o torna explícito. Os policiais foram rebaixados pelo governo fascista a cães de caça. Neste momento falo do governo do Rio, mas existem tantos, como tivemos a oportunidade de comprovar este ano… A ditadura muda apenas de dono. os policiais foram rebaixados a fascistas miseráveis que dão prova de ignorância e insensibilidade, de miséria moral e política como aqueles que os regem.

Tivessem ido à escola, pensei eu. Tivessem experimentado o prazer da liberdade, do amor, do conhecimento. Se pelo menos ganhassem o dinheiro sujo que seus patrões endinheirados… seria mais fácil entender. Mas o poder está no governo e em cada um que a ele se submete…

Não gostaria apenas de entender. Gostaria de acabar com isso. Todos nós gostaríamos de acabar com isso, não é mesmo? De acabar com a injustiça que estamos assistindo. Com a violência que o governo fascista pratica sem sentir nada.

Como, me digam, como? Estou pronta como todos devemos estar nessa hora. Essa é a nossa pergunta e ela não poderá ficar por muito tempo sem resposta.

12 Comentários leave one →
  1. 2 de outubro de 2013 9:19 pm

    Também queria saber como. Infelizmente esse tipo de cena me da vontade de reagir da pior maneira: com violência também. A minha vontade é de quebrar tudo e quando vejo os “vândalos” quebrando e os jornalistas comentando chocados sobre os “arruaceiros” que quebraram o vidro do Itau, fico com mais raiva ainda. E torço: quebra tudo!

  2. 2 de outubro de 2013 9:32 pm

    estava no olho do furacão e vi isso:

  3. 2 de outubro de 2013 9:35 pm

    sinto que o lado mais grosseiro e truculento da polícia foi o grande contemplado após junho e julho…
    Olhe esse spray de pimenta na foto… (antes parecia um desodorante, agora é um “extintor de gente”

  4. 2 de outubro de 2013 10:32 pm

    Márcia…

    A foto diz muito! O Brasil está vivendo uma total inversão de valores. Segundo Plínio, um incorformado de plantão, adorável, que posta no meu blog, caminhamos a passos largos para uma ditadura; não exatamente ideológica, mas algo ainda mais pavoroso… A ditadura do silêncio! Ele não se referiu ao silêncio que contrasta com o barulho, mas ao que se traduz em vazio. O silêncio dos cemitérios…Corpos sem alma! Em decomposição!
    A falência das instituições; a banalização da violência; a coisificação das pessoas! Todo este processo vem minando nossa humanidade. E, pior: acho que ainda estamos longe do fundo do poço. Parece pessimista? Pessimista é o cara que acha que tudo vai dar m… Não é o meu caso! Eu tenho certeza! Minha sugestão: vamos transformar nossas sensações ruins em boas. Vamos sentir raiva! Neste caso, é o que há de melhor! Ela garantirá nossa dignidade, além de nos manter acordados. Os professores “encarando” os capangas do governo só pode significar que alguns de nós permanecerão acordados. Ainda resta alguma alma!
    Por hora, vamos esquecer a prescrição: “Bem aventurados os mansos e pacíficos”. Quem vai herdar a terra são as baratas!
    Abraços.

    Patrícia.

  5. Daniele permalink
    3 de outubro de 2013 12:14 am

    O ter me emocionou, obrigada Márcia

    • Daniele permalink
      3 de outubro de 2013 12:16 am

      O texto me emocionou, obrigada Márcia.

  6. Jerônimo permalink
    3 de outubro de 2013 7:58 am

    A polícia carioca fez muito bem! Afinal de contas ela está impedindo que aquela “terrorista”, “assassina”, “vândala”, “ladra”, “traficante”, etc, avance! Ainda bem que eles chegaram a tempo!!!!!!! Tive um professor no 2º grau que me disse: Jerônimo, o governo totalitário e tirano jamais irá investir na educação, pois um povo culto e educado jamais colocaria ou permitiria “eles” no poder!!!!

  7. RONALDO FELIX BISPO permalink
    3 de outubro de 2013 8:28 am

    O que precisamos fazer diante desse sistema que massacra o direito a vida.EDUCAÇÃO É O BERÇO DE FORMAÇÃO DE TODOS OS CIDADÃOS EM QUALQUER LUGAR DO MUN-
    DO.Se queremos um mundo mais humano é pela educação,um pais com mais moralidade é
    pela educação um sistema mais justo é pela educação.
    Ouço incansavelmente protestos em redes sociais,em programas de radio,televisão impren
    sa escrita que precisamos mudar este pais,que os politicos tem que olhar para os fatos,que
    não podemos mais aceitar o que está acontecendo em todas as esferas sociais.
    POIS BEM,QUANDO ASSISTIMOS A UM FILME E AINDA NÃO CONHEÇEMOS SEUS PER-
    SONAGENS ELES PODEM NOS AGRADAR OU NOS DECEPCIONAR.SE FOI BOM QUERE-
    VER VÁRIAS VEZES,MAS SE É RUIM ATÉ COMENTAMOS PARA QUE NÃO SEJA VISTO.
    SÓ MUDAREMOS O CURSO DA HISTÓRIA SE MUDARMOS OS PERSONAGENS,MAS
    QUEM DEVE ESCREVER E DIRIGIR O ROTEIRO DESTE FILME SOMOS TODOS NÓS
    .SERÁ QUE DENTRO DESSES MILHÕES DE BRASILEIROS NÃO HÁ PESSOAS DE BOA FORMAÇÃO,CARÁTER E PERSONALIDADE PARA MUDAR O RUMO DA NOSSA HIS-
    TÓRIA.TEM SIM.PESSOAS COM BONS PRINCIPIOS E IDEAIS FANTÁSTICOS.
    CONVOCO A TODOS PARA INICIARMOS ESTE PROCESSO DE OBSERVAÇÃO PERTO
    DE VOCÊ.VAMOS COLOCAR ESTAS PESSOAS FAZENDO COM INTELIGÊNCIA A MUDAN-
    ÇA GRADATIVA DA NOSSA POLITICA.
    A REDE SOCIAL É UM DOS CANAIS IMPORTANTES PARA ESTA TROCA DE IDÉIAS.
    ESTOU ABERTO PARA PARA PROPOSTAS,COMENTÁRIOS OBSERVAÇÕES.
    TRANSFORMA VOCÊ,TRANSFORMA BRASIL.

    Ronaldo Felix Bispo
    email :felixbispo@yahoo.com.br
    facebook: Ronaldo Felix Bispo

  8. 3 de outubro de 2013 9:46 am

    Texto corajoso, Márcia. Comungo da sua indignação.

  9. Aparecida Camuri Goulart Pelegrini permalink
    3 de outubro de 2013 1:40 pm

    Ontem quando vi a foto fiquei indignada, o que posso fazer como professora? Nos terceiros anos do Médio estou justamente falando da Ditadura e me vejo obrigada a citar como exemplo da repressão da polícia militar da época, a mesma de hoje, somos então bandidos, terroristas, comunistas? O que somos? Apenas professores.

  10. Priscila permalink
    3 de outubro de 2013 8:46 pm

    Já não tenho mais vergonha para ter deste governo, pois já senti vergonha demais. Na terça feira, após terminar meu almoço às 14h, tive que ver nossos professores correndo das bombas de gás que a nossa polícia alienadamente jogou, e a agressão durou a tarde toda e no início da noite também.
    Realmente não sei o que é pior, mas ouvir tantas pessoas desenformadas sobre a luta dos professores dói no ouvido. Minimizar sua importância profissional é ser covardemente desumano.
    Sujar a imagem da “moral responsável” do professor da rede pública, é o que querem aqueles que apoiam educação privada pela exploração comercial, cobrando fortunas por uma educação privada “de qualidade” e também pagando mau aos seus profissionais.
    Todo Professor deve ser valorizado, esta luta deve ser de todos e para todos.

  11. 23 de outubro de 2013 3:17 pm

    Marcia, querida. Você não aparentava estar com dor de cabeça. Estava bela e radiante. Um beijo do Rapha.

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