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“Sou ser humano, não”

4 de outubro de 2013

“Sou ser humano, não”

“Sou ser humano, não”. A frase do policial dita a uma moça, provavelmente uma professora, quando tentava fazer-se ouvir por ele, estarreceu a muitos. A terrível verdade de fundo dos fatos foi escancarada pelo indivíduo fardado, o burocrata do sistema que está ali para fazer o que faz: espancar, bater, atirar, lançar bombas e gás lacrimogênio contra qualquer um. Ele não age por que quer, embora  possamos argumentar que é provável que também queira. Questionado sobre seu querer, talvez nos respondesse que não quer, o que nos estarreceria novamente e nos faria saber que está vazio de si mesmo.

O policial pode ser um homem burro, como afirmou Theodor Adorno sobre os nazistas. Um sujeito sem pensamento como Arendt veio depois nos mostrar. Mas de qualquer modo, este policial nos avisa o que todos já sabemos: que há algo de desumano na violência praticada por policiais a mando do governo. Acostumados que estamos com o círculo cínico do poder, vemos o policial declarando sua guerra em que o lado particular enlaça-se  ao braço mais forte do governo.  Não vemos novidade no fato de que cada um aproveita a barbárie como pode. Mas o que está por trás desse poder particular do policial e da empáfia governamental que a sustenta?

Com aquela ponta de dúvida que surge quando sabemos que as coisas não são bem assim, paramos para pensar no que ele quis dizer com sua frase. Pensamos em seus afetos, em sua família, na escola (de polícia, inclusive) pela qual passou, no país onde é um funcionário, além de tudo, onde é muito mal pago. Certamente, ele descarrega nos outros o seu próprio ressentimento em relação ao país onde vive, ao sistema cínico ao qual serve como um otário. “Sou ser humano, não”. Como verá seus filhos, caso os tenha, pensará que são seres humanos? Que diferença isso faria para ele? Certamente nos perguntamos como pode ter pensado uma coisa como essa e dito tão calmamente: que não é um ser humano. Como esse policial pode ter, sem vergonha alguma, declarado o subtexto da barbárie à qual todos estamos condenados? O policial foi cínico e, ao mesmo tempo, mostrou a todos o círculo cínico no qual está preso junto conosco.

Mas o que o policial disse não foi apenas essa verdade que doeu em todos nós e que nos faz saber que a situação é grave. Aliás, o que ele disse não foi apenas um dito, foi também um “feito”. Um feito que nos coloca diante de questões muito sérias. O que o policial deixou claro, ao olhar para a professora com aquele desdém que vimos na cena, é que ela não existe para ele. Ele a apagou com uma frase. Restou a ela apenas o silêncio. Onde ela estará agora?

Não ser “um ser humano”, naquele momento, não era um problema epistemológico simples, não era uma oração que descrevia uma situação, mas era um gesto “performativo”, um gesto com efeito e para provocar efeito. Uma fala performativa é uma fala que faz algo com o outro. Uma fala que foi a ação pela qual ele se autorizou a “não ser um ser humano”, ou seja, a não precisar de um outro ser humano. Não existe o “humano” como substância, mas é verdade que se há algo de bom em ser humano, é o respeito a um outro ser igual a si mesmo no simples direito de existir (por isso, podemos pensar que animais são humanos). Como ele se autorizou a não participar da coisa humana? Se essa coisa humana só tem sentido enquanto é reconhecimento do outro?

Por meio de seu gesto, o policial não precisava mais reconhecer a moça, ou seja, não precisava mais respeitá-la como ser humano, assim como um feroz cão de guarda que não sabendo que é humano, não deve “reconhecimento” a quem deve estraçalhar quando for o caso.

Digamos que o policial, funcionário do governo, não se sinta engajado na “condição humana”, podemos, sem dúvida,  perguntar de onde tirou este sentimento. Mas muito mais, no caso, parece que temos que nos perguntar quem o autorizou a isso? E, mais ainda, quais são as consequências desse pensamento quando sabemos que a política – quando ela é também uma ética – depende da responsabilidade pelo que somos, dizemos e fazemos uns com os outros?

Verdade que a política que temos não é nada disso, e este policial, fruto de seu tempo, fruto das condições sociais de nosso país, é filho de nossa política. Ele vai sujar as mãos de sangue enquanto Eduardo Eichmann Paes e seus colegas de fascismo, ficarão no gabinete brincando de fazer mira.

Como um policial da SS, ele está por um triz de matar seu semelhante, justamente por que não se vê a si mesmo como um semelhante, o outro não existe. Se existe, ele o apaga. Se não se vê participando da coisa “humana” da qual os outros participam, será que é porque ele se reconhece como melhor, ou como pior? Será que se reconhece a si mesmo? Será que chega a pensar nisso? Ou estará de tal modo preso ao imediato que não se pergunta e, como um nazista qualquer, simplesmente obedece amparado na ordem governamental?

Todos sabemos que o poder de polícia é a parte crua da violência do Estado. Todos sabemos também que o culto à sociedade de segurança não passa de um modo de sustentar o poder fazendo uso da violência. Em momentos como este que vimos acima tudo fica tão claro que é de estarrecer. Não sabemos o que fazer além de administrar o próprio medo da parte que nos cabe. A personalidade autoritária e fascista está entre nós e se manifesta sem vergonha. Como será possível conviver neste cenário? Que direito poderá surgir ou ser respeitado se a proposta é a da guerra de todos contra todos?

O estado é de barbárie social. E não deveria ser.

O que nos estarrece, por fim, é que este homem ainda jovem, não tenha pensado por um minuto em quem ele é. Ninguém que pense mesmo é capaz de ir fundo e só encontrar ódio dentro de si. O conhecimento é erótico e só um burro prefere o ódio ao desejo de saber que é, neste momento, estarrecedoramente manifesto pelos professores que, a despeito de todas as suas tragédias nessa profissão humilhada que é atualmente a de ensinar, são certamente “seres humanos” mais felizes.

O outro é o conceito fundamental da ética. O outro é aquele que me precede. Que me constitui em termos ontológicos e psicológicos. Mas em temos práticos, ou seja, em temos éticos, ele é, fundamentalmente, aquele com quem me relaciono. Na irrelação, o outro permanece como um espectro,  na forma de algo absurdo que facilmente apago para me sentir bem, pois que o outro externo é sempre amedrontador, sempre terrível. Minha tendência é passar por cima dele, fingir que ele não me toca. Dizer-lhe, que não sou da sua laia… ou “não sou ser humano não”…

Theodor Adorno, filósofo do testemunho do período nazista, disse algo mais ou menos assim: enquanto soubermos manter as aparências de civilização ainda podemos ter esperança. O nazismo sobrevive em cada um que perde de vista que as coisas podem ser diferentes.

11 Comentários leave one →
  1. 4 de outubro de 2013 5:27 pm

    Republicou isso em reblogador.

  2. 4 de outubro de 2013 7:13 pm

    É estarrecedor sim, mas isso está em muitos outros lugares e situações. Já fiz essa mesma pergunta a alguns atendentes de telemarketing que são impermeáveis a qualquer argumento ou questão que não seja prevista em seus “scropts” de atendimento e ficam em loop repetindo frases robóticas. É desesperador. Aí a gentediz: “Será que você pode me responder como se fosse uma pessoa?” E eles respondem um “Vou estar encaminhando sua sugestão, senhora.” Isso tudo assusta. Que cabeças são essas tão treináveis?

    • dknxohq permalink
      4 de outubro de 2013 8:17 pm

      São as cabeças ou os treinos?

  3. 4 de outubro de 2013 9:41 pm

    Márcia…

    Interessante e contundente o que escreveu neste artigo. Você é ótima! Curioso! Hoje recebi um texto que fala sobre fragmentação. Como dizia meu avô: no meu fraco de modo de pensar, creio que as pessoas tendem a se fragmentar. Vestimos alguns papéis! De pai; de amigo; de advogado; celebridade; de amante; de filosofo? Tem jeito? Enfim, o mundo exterior exige de nós este posicionamento. A grande questão, a meu ver, seria: qual o papel de um policial? Este policial, em particular, deve ter um conceito muito bem definido a este respeito. Talvez ele seja um pai dócil, um esposo atencioso! É esquisito! Mas, há quem encarne seus papéis com tanta intensidade que acabam sendo subjugados por eles. Penso que o mal não está em representar papéis, mas em representá-los de modo inconsciente. A consciência nos faz sofrer, mas nos mantém alertas. Para piorar, o papel dele implica em segurar armas. A única finalidade de uma arma de fogo é ferir! Policiais são treinados para obedecer! É um combustivel perigoso! Como rever este papel? Como acordar este homem? É o nosso nó górdio! Pois, muitas vezes exigimos a truculência deles! Não estou falando só do governo, estou falando de nós! O problema das coisas é que elas andam aos pares, sempre advindas da mesma fonte, mesmo quando aparentemente opostas. Se existe uma saida, somos parte dela…

    Abraços.

    Patrícia

  4. Maurício Gomes permalink
    5 de outubro de 2013 10:23 am

    O policial é mais um!

    Ao ler o texto de Márcia Tiburi, “Sou ser humano, não” começo a me questionar enquanto ser humano, enquanto ser ontológico e psicológico, enquanto um ser determinado e livre.
    Quem eu sou? Uma indagação para lá de surreal?
    O policial segura a arma e o professor segura o livro ou um policial segura uma arma e um livro e o professor segura um livro e uma arma ou um policial abomina segurar uma arma, porém tem que segurá-la (circunstâncias da vida), daí pergunte a ele se ele queria ser um policial ou um professor segura um livro, porém , devido às circunstâncias da vida, ele continua a segurar sem vontades e pergunte a ele se ele queria ser professor?
    A frase dele já diz aquilo que o classifica como um ser ontológico e psicológico: um ser humano com suas falhas, seus erros, suas crenças, suas decepções, seus erros, suas vontades, suas obrigações, suas condutas, suas dores, suas escolhas e suas atitudes, suas decepções, suas iras, suas vaidades, suas passividades(diante do autoritarismo), suas mentiras e verdades, suas particularidades, seu estado de direito, seu estado de exceção, enfim, um verdadeiro ser humano. O policial é um verdadeiro e autentico ser humano.
    Invertemos a situação. Se fosse o professor que tivesse dito a frase: “Sou ser humano, não”? Contextos diferentes? Eles estão em um campo de concentração, de confronto, em que o Estado só observa com seus olhos fulminantes. Quem vence quem.
    A banalização desta situação nos faz sentar nas cadeiras de um tribunal e julgar o policial como um algoz do espetáculo da vida, da mídia, dos filósofos e sociólogos.
    “Arre!” Estou farto de tudo isso!
    (Maurício Gomes)

  5. Daniel permalink
    8 de outubro de 2013 12:28 am

    O texto me deixou emocionado. Eu que em pouco tempo serei professor de história.
    Um abraço, Márcia.

    • Daniel permalink
      8 de outubro de 2013 12:30 am

      O texto me deixou emocionado. Eu, que em pouco tempo serei professor de história.
      Um abraço, Daniel.

  6. André Matias permalink
    9 de outubro de 2013 11:09 am

    A realidade dos “policia” é desumana. Do apartamentinho da professora e da Márcia não dá pra ver esse tipo de coisa não. Vocês tão muito mal informados. Estão muito mal influenciados por jornalzinho e televisão!

    • 10 de outubro de 2013 10:37 pm

      Eu acho que vc não entendeu a questão. O que o texto coloca vai justamente ne direção que a “realidade” é desumana. Mas isso não desresponsabiliza ninguém.
      E não argumente falando do que os outros sabem ou não. Nós podemos saber muito mais do que vc pensa… Cada um sabe de si, e o diálogo é o que nos ilumina.

  7. Danilo Henrique permalink
    17 de outubro de 2013 5:24 pm

    Márcia, não foi um feliz comentário. O policial é treinado muitas vezes para intimidar e quem conhece este treinamento sabe que este foi o caso do vídeo.

    O policial não é um burocrata como faz em sua alegação. Isto faz parte de um senso comum que estarrece quem lê um artigo de alguém que se diz praticante da filosofia, alguém a qual esperamos um passo além da simples repetição ideológica.

    A problemática de um mundo que não pensa, que simplesmente apreende o fato e é incapaz de desenvolver uma reflexão sobre o mesmo é uma realidade latente, mas não devemos esquecer de certas definições do esclarecimento que nos restringe a crítica para a vida pública. “Raciocinai o quanto quiserdes mas obedecei”, já dizia o esclarecido déspota kantiano

    Podemos dizer que muitos policiais não são satisfeitos com o governo para o qual trabalham, mas ainda assim, eles obedecem. Através de um treinamento de contenção eles controlam através do gás, ou de golpes de imobilização, os mais “descomedidos” participantes dos protestos que explodem país a fora. Acredite, se fosse determinação da segurança pública efetivamente proibir a expressão popular esses homens o fariam sem maiores dificuldades. O objetivo da polícia é controlar as manifestações para que as mesmas não se transformem em badernas. Ainda assim, a polícia não é ostensiva contra mascarados e outros tomados por certo inconsciente coletivo, tanto que já temos aí meses de protestos e os mesmos decorrem livremente. Nenhum destes protestos foram impedidos ou proibidos, apenas contidos!

    Claro que existem os policiais de má conduta, assim como manifestantes, como os que eu citei acima, e ambos devem ser punidos severamente. Ainda mais o policial que descumpre com seu dever de proteção da população. A divergência é que o policial age pela obediência a seu cargo público, cumprindo sua função na vida privada. Agora pergunto a qual função o manifestante exacerbado obedece? Porque o policial em sua função é um ser mecânico e o mascarado depredando propriedades particulares, não?

    Ora se ele não é mecânico age por vontade, e portanto é deliberadamente um infrator, que deve ser contido pela força da lei. Senão, trata-se de mais um ser mecânico de nossa contemporaneidade, caindo sobre ele a verdadeira crítica feita em seu texto pois para este sua humanidade não existe de fato, todo o pensamento que ele poderia exercer na esfera pública é anulado por uma ideologia comum, a qual ele segue por um impulso coletivo, como um animal.

    Ainda assim, quando as massas incorrem nesta histeria o prejuízo não é tão grande. Um enorme estrago ocorre quando os “intelectuais” são tomados da mesma febre e passam a exercer uma intelectualidade “orgânica”. Pois sem esclarecidos não há quem esclareça

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