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Aborto como metáfora I

9 de outubro de 2013

O texto a seguir será publicado no livro FILOSOFIA: MACHISMOS E FEMINISMOS em breve pela editora da UFSC. Considerando que o texto está pronto há mais de um ano e o livro se torna entre nós algo tão esperado quando demorado, decidi publicar o texto aqui. Será uma ótima oportunidade de receber críticas de leitoras pensantes. Agradeço, de antemão, a quem puder lê-lo e analisar, comentar, criticar.

Vou publicar em 3 partes para o texto não complicar o tamanho da postagem, mas peço que as partes não sejam consideradas separadamente.

Aborto como Metáfora

A todas as mulheres que descobriram que são livres.

A insignificância da discussão sobre aborto no Brasil se deve ao fato de que ela não chegou ao lugar onde devia. Inscrito no território do moralismo, o que se diz sobre aborto por aqui não passa, de uma maneira geral para a qual importa salvaguardar exceções, de espectro discursivo da ideologia masculinista contra as mulheres. Aborto é a mais perfeita metáfora do moralismo – uma metáfora do “mal” construída pelo olhar desrespeitoso contra as mulheres – que está na base fundamental do discurso patriarcal.

Antes de iniciar meus argumentos na intenção de entender o lugar desta metáfora no discurso masculinista, devo definir que, na construção de minha exposição chamarei de “mulheres” ao sujeito representativo de um gênero, ainda que estejamos orientadas pelo desejo de superá-lo, e de “mulher” ao indivíduo que pode engravidar. Desejo assim, desvencilhar-me da armadilha essencialista na qual a leitora menos atenta pode me colocar. E digo “leitora”, porque estou escrevendo pensando, sobretudo, em mulheres e em quem possa se interessar por uma fala dirigida à sua condição. Quero facilitar a compreensão do que tenho a dizer, já que, neste território uma das estratégias discursivas das mais usuais é sempre fingir que não compreendeu o que a outra queria dizer, muito embora o outro (os homens) sejam sempre ouvidos e aceitos (aliás, por eles mesmos e, infelizmente, por várias mulheres que não se dão conta de sua posição de sujeitos potencialmente livres, mas sempre também facilmente amarradas às armadilhas do discurso patriarcal). É por isso também que a leitora verá muitas aspas abraçando as palavras que usarei. Minha intenção é intensificar por meio delas os termos que soam problemáticos no contexto dos discursos e merecem por isso mais atenção.

Assim, posso seguir afirmando a primeira questão que não pode ser deixada de lado quando entramos neste assunto – e que continua me deixando perplexa depois de anos a me envolver com o problema. Questão que apenas pode ser posta de um ponto de vista feminista (este ponto de vista que se preocupa com o que acontece às mulheres e não está contra elas, independente de suas profissões, etnias, definições e escolhas): por que homens discutem tão facilmente um tema que seria, antes de mais nada, assunto de mulheres? Justamente porque estão “contra” as mulheres e porque falar seja o modo de se posicionar “contra”. Que estejam contra elas – aspecto que repetirei várias vezes, pois está na base do discurso que quero aqui questionar – implica que jamais levantarão argumentos a favor do aborto, pois aquele que argumenta contra o aborto não consegue – por ignorância ou autoritarismo – colocar-se em seu lugar. De um maneira geral podemos dizer que os homens falam de aborto porque estão acostumados a falar: é que ocupam o lugar dos discursos como protagonistas e autores e as mulheres como coadjuvantes e figurantes. É preciso ter em vista que um homem que queira falar sobre o aborto só pode fazê-lo do seu ponto de vista e este ponto de vista só valerá como discurso que merece ser ouvido caso tenha sido antes questionado enquanto “ponto de vista”. Que homens (padres, papas, juristas, advogados) se pronunciem muito mais do que mulheres, vem apenas comprovar o estágio precário do feminismo no Brasil quanto à questão da liberdade das mulheres, apesar das tantas lutadoras da causa dos direitos femininos que vem a ser o sentido geral do feminismo conseqüente.

Muitas vezes, infelizmente, o discurso antiabortista é promovido pelas próprias mulheres que concordam com os argumentos dos homens sem questionar sua proveniência interessada. Talvez elas mesmas tenham interesses na sustentação do que, as oprimindo, ao mesmo tempo lhes serve, em algum sentido, de sustento. Na prática do aborto por parte de mulheres há um interesse evidente. O de praticar a liberdade de não permanecer grávida. Mas há, também, entre mulheres, na contramão do exercídio de suas liberdades, muita escravização voluntária. Infelizmente, há casos em que mulheres alimentam com relação ao aborto (e mesmo outros temas relacionados ao seu desejo e seus corpos) aquilo que Ricardo Goldemberg denominou de círculo cínico (2002, p. 14). O círculo cínico é a estrutura da corrupção, ele implica um sujeito enganador e um enganado que aceita a posição de otário. Há, neste sentido, mulheres que são vítimas da escravização na qualidade de otárias, o que não deve ser dito na intenção da ofensa, mas da desmistificação dos interesseiros e submissos acordos entre sacerdotes e escravos da moral em que se tornam as pessoas de um modo geral quando se indispõem a pensar reflexivamente. Neste sentido é que pretendo usar a expressão “cinismo masculinista” para falar do discurso ideológico como círculo cínico que une homens e mulheres. O ponto de vista feminista, no sentido em que o manifesto aqui, vem a ser o desejo de sair deste círculo marcado pela corrupção das consciências e das ações. A crítica parte desta denúncia.

No lugar do cinismo masculinista que tem comandado o sentido dos debates tanto na esfera pública quanto na privada, deveria avançar a reflexão filosófica entre as mulheres que, no entanto, permanece estagnada. Enquanto o grito da indignação moral faz pose de suficiência ética, garante-se o lucro moral da igreja e de todas as instituições conservadoras (entre elas a família, tenha ela em seu ideário e práticas, melhores ou piores intenções em relação a seus membros nascidos com corpos de “mulheres”) contra a questão mais básica da decisão das mulheres sobre seus corpos e projetos relacionados, afinal, às suas próprias vidas. É espantoso que haja pessoas que não tenham segurança para decidir acerca de si mesmas neste aspecto. Não se discute o aborto neste sentido porque as mulheres são culturalmente alienadas da questão. E o são pelo próprio discurso e pela prática de “surdez” dos agentes e autoridades que faz deste mesmo discurso uma lei e uma moral. O que pretendo afirmar é que a forma do discurso, e do pseudo-debate (como se não se devesse discutir o sentido do “debate” para uma questão que é da soberana decisão de uma mulher) já existe para evitar que as mulheres se pronunciem em favor de si mesmas.

E este “si mesma” relaciona-se diretamente com o que podemos entender como sendo o seu próprio desejo. Desejo, aliás, que nos coloca desde já diante do cinismo masculinista em sua mais básica ação dicursiva: com o discurso contra o aborto, o cinismo masculinista quer, ele mesmo, abortar o desejo das mulheres impondo-lhes um conteúdo para este “desejo” que ele mesmo inventou. Assim como as mulheres são vitimas do aborto como metáfora do masculinismo – aborto que elas devem assumir como tabu-, o cinismo discursivo também realiza o aborto na base de uma metáfora: o aborto é praticado contra as mulheres como uma espécie de autocontradição performativa constantemente reproduzida. “Abortamos as mulheres para que elas não abortem” seria o lema subterrâneo do discurso masculinista. É o desejo (que é do outro, que é construção coletiva, que não é “natural”, mas cultural) que deveria muito mais entrar no debate das mulheres sobre elas mesmas, fazendo com que a mística masculinista que especula sobre “o que quer uma mulher”, o que seriam seus “orgasmos” ou a sua “natural maternidade”, caísse por terra. Somente as mulheres em seus próprios grupos podem quebrar o círculo no qual foram capturadas.

10 Comentários leave one →
  1. 9 de outubro de 2013 12:01 pm

    muito interessante, Márcia! parabéns pela lucidez, coragem e pelo texto. as brasileiras precisamos assumir este discurso – já passou da hora. estamos atrasadas em relação a outros países, mas, sobretudo, em relação a nós mesmas, como mulheres, cidadãs, sujeitos de direitos. transferir este discurso para um “terceiro” que nada fará (pq nunca fez nem faz) pela liberdade da mulher sobre seu corpo é o mais grave que fazemos, como mulheres, contra “a mulher” (como vc diz no texto). está passando da hora de parar de terceirizar este discurso. e sobre nossa hipocrisia, em relação à prática de aborto, ela tem causado muitas mortes. pois as mulheres pobres, que não podem pagar pra fazer aborto, são vítimas da clandestinidade que nossa hipocrisia as submete. (vou acompanhar os próximos posts…)

  2. Taís permalink
    9 de outubro de 2013 2:35 pm

    Aguardo os demais textos, para amarrar o assunto com suas próprias ligações e fechar, também abrir uma nova crítica. Obrigada por contribuir para isso.

  3. 9 de outubro de 2013 4:05 pm

    Curti muito. Gostaria de ver mais a fundo o tema sobre o círculo cínico.

  4. 9 de outubro de 2013 9:33 pm

    Marcia querida, por onde começar, pelo que seu texto me disse e tocou em minha experiência. Acho que não passa uma semana em que não me pego discutindo esse assunto nas redes sociais. E essa questão de serem os homens que pregam contra o aborto é a que mais me enfeza, para falar a verdade. Um amigo muito querido disse que o aborto só é proibido por aqui porque os homens não podem engravidam, e que se um dia a ciência tornasse isso possível até os homens fundamentalistas passariam a ficar a favor…O fato é que há uma verdadeira obsessão e distorção discursiva, nos chamam de matadores de bebês e coisas horríveis e fingem que não entendem que não estamos defendendo o aborto, mas o direito de escolha por parte da mulher, apenas isso. E nessas vezes em que bato de frente com os fundamentalistas descobri um sujeito maluco, que se diz filósofo, Olavo de Carvalho, há escutou? Ele é uma espécie de guru do conservadorismo, que faz previsões bem doidas e tem alguns obsessões, como o aborto e a guerra aos comunistas, veja só você. O fato é que isso o que você coloca lembra um pouco a violência simbólica que o Bourdieu fala, que se dá com o consentimento de quem sofre a violência, e claro que isso acontece porque as mulheres se calam. É a voz dos homens que se ouve muito mais forte quando o assunto é aborto. Mas Marcia, a questão do corpo é o último e grande estágio a ser conquistado no âmbito feminista, o problema é que temos assuntos tão mais graves que desmobilizam as mulheres. Não há um dia em que eu não vejo uma notícia de uma menina, de uma mulher, assassinada brutalmente por um louco insano que decidiu fazê-la de presa. São histórias iguais, só mudam as personagens. Essas mulheres procuram diversas vezes a polícia, não recebem proteção e são mortas. São mortes anunciadas que ocorrem em todos os níveis e classes, do Pimenta das Neves que matou a Sandra pelas costas, ao imbecil que matou a menina Eloá e aos milhares de casos anônimos, na favela ou no bairro classe média, Quando um homem decide fazer a mulher de presa, ela será morta, é questão de tempo. Leio que a Lei Maria da Penha não reduziu a violência contra a mulher, como se esperava, por absoluto descumprimento. E por tudo isso, acho que não conseguimos chegar a esse estágio em que mulher se percebe dona de seu corpo e possa sair desse círculo que você cita. Mas temos que falar e falar muito, pela linguagem, ao menos, podemos resistir e tentar subverter esse discurso machista. Enfim, falei demais, me desculpe. Um abraço, belo texto, e parabém pelo empenho em tratar essa questão por uma ótica não essencialista.

  5. Joana permalink
    10 de outubro de 2013 7:28 pm

    Resumindo o magnífico texto: homens não podem argumentar, mulheres podem matar. Viva a liberdade.

    • 10 de outubro de 2013 10:35 pm

      Desculpe, mas não concordo com o seu resumo. Talvez eu não o tenha entendido bem. Mas obrigada pelo comentário, de qualquer modo.

    • 11 de outubro de 2013 6:25 pm

      Sem dúvida Joana. Viva a senciência do feto, a sua liberdade, a sua integridade moral. Sim, moral. Repito: MORAL.

  6. Karin Carteri permalink
    11 de outubro de 2013 3:38 pm

    matar o que não está vivo? ah, o embrião vale mais do que uma pessoa já formada, sempre esqueço deste argumento extremamente lúcido, racional e corenete dos “defensores da vida”.

  7. maria de lourdes permalink
    1 de dezembro de 2013 5:44 pm

    Depois vocês dão chilique quando são chamadas de ditadoras…então,uma mulher que se posiciona contra o aborto é “manipulada pelos homens”? Como feminista diz defender as mulheres se quando nos posicionamos contra qualquer bandeira feministas somos automaticamente desqualificadas como seres pensantes? e que obsessão é essa de matar fetos? legalizar aborto vai fazer magicamente o machismo desaparecer,o estupro desaparecer da face da Terra? É muita ignorância regada á pseudo-intelectualismo,e é uma pena que as mães das senhoritas não exerceu o direito dela de tê-las abortado.É fácil defender o aborto depois que já nasceu!

  8. Karin Carteri permalink
    10 de dezembro de 2013 10:31 am

    não se quer obrigar ninguém a fazer aborto. o que se quer é que quem precise fazê-lo o possa, sem ser em clínicas clandestinas e sem o risco de ser presa. também é muito fácil criticar sem vivenciar o problema. ou tendo dinheiro pra pagar aborto em clínica decente. nenhuma mulher está livre de engravidar sem querer. anticoncepcionais falham. nenhuma pessoa deve ser obrigada a fazer o que não quer. inclusive ser mãe. ser mãe não deve ser uma obrigação, mas sim uma escolha consciente, só isso. por que só o pai pode optar? ah, porque se a mãe optar por não ser mãe é uma assassina. só ela é a “culpada”. desculpe. mas não entendo que uma mulher não entenda que isso é uma forma de opressão e das mais ordinárias.

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