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Os brasileiros e sua autocompreensão

14 de outubro de 2013

Os brasileiros e sua autocompreensão

 

Para muitas pessoas não é fácil entender as manifestações coletivas em nome de causas e direitos sociais que vêm acontecendo em âmbito global e que, recentemente, surpreendendo a muitos, surgiram também no Brasil. O desconhecimento sobre história social e política, bem como sobre o significado profundo das lutas, sublevações e insurreições mundiais e nacionais contribui para a perplexidade quanto à situação presente. Não se conhece o passado, não se entende o presente e, além de tudo, não é possível prever o futuro quanto à mudanças sociais concretas em termos de direitos, cidadania, reforma política ou direção de políticas públicas. Se por um lado o que pensamos do futuro pertence à especulação e à fantasia, por outro é o efeito direto do que não somos capazes de imaginar, daquilo que se dá em bases inconscientes, do que é da ordem imponderável do desejo. Que o desejo de um mundo melhor possa nos amparar é o novo sentimento que surge como um terceiro elemento no instante em que a alternativa estava entre o apático fim das utopias e a ideia de que todas as utopias já tinham sido realizadas.

 

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Certo, no entanto, é que uma mudança de autocompreensão coletiva está em cena no Brasil atual. E este talvez seja o aspecto mais decisivo no contexto dos acontecimentos, a experiência subjetiva que está sendo vivida quando muitos acreditavam no fim do sujeito ético e político aniquilado pelos diversos mecanismos de dessubjetivação que vão da economia à tecnologia. A impressão generalizada, do senso comum à investigação em ciências humanas, era de que as pessoas estavam vendidas ao sistema econômico, tinham cancelado qualquer desejo político, eram servas do consumismo e da publicidade e, portanto, já não pertenciam a si mesmas. Não tinham subjetividade, a instância da decisão, da liberdade que se elabora e forma na intimidade de cada um e em sua relação com o outro.

No contexto, surpreende que a Internet, que aparece muitas vezes como a máquina devoradora de subjetividades, se torne um mecanismo democrático, uma instância de trocas intersubjetivas, que faz irromper liberdades individuais na formação da expressão comum tal como a da multidão nas ruas. Que a Internet como meio tecnológico tenha sido a ameaça de aniquilação da subjetividade e que, de repente, ajude a forjar outras subjetividades, mostra apenas que o ser humano permanece humano na liberdade de recriar seu sentido, seu modo de viver e que possa usar instrumentos, tais como a Internet, simplesmente a seu favor.

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Todos estes acontecimentos, devido à força que lhes caracterizou, afetam o âmbito da autocomprensão. Sabemos que a autocompreensão pode ser positiva ou negativa, na forma de autovalorização ou autodesvalorização, e orientar ações de uma pessoa, de um grupo, de sociedades inteiras. A autocompreensão é fundamental na definição de projetos pessoais ou coletivos.

 

A mudança de autocompreensão que está em jogo no momento atual, se dá em função da aparição de uma subjetividade negada até então. Aspectos inusitados vem à tona perturbando compreensões prévias. É neste aspecto que os discursos sobre os brasileiros enquanto massa, não poderão mais ser pronunciados sem desconfiança, pois algo que estava oculto sobre a condição brasileira de repente apareceu. Pesquisas recentes sobre o “zeitgeist” contemporâneo diziam que os brasileiros eram os mais “felizes” e satisfeitos do mundo. Pode, nesta base, soar simplesmente curioso que o contrário tenha surgido diante de tantas manifestações por mudanças as mais diversas, exigidas no contexto de uma insatisfação geral demonstrada publicamente e com tanta ênfase como vimos nas ruas de várias cidades tomadas por milhões de pessoas. A queixa geral que ouvíamos como um sussurro social poderia ter continuado seu zunido gasto, mas que tenha se tornado ativismo político, é algo que não se esperava dos brasileiros. O que de fato, está acontecendo entre nós? É algo que podemos nos perguntar. Mais do que curiosidade, o que está em cena é um abalo sísmico no processo de nossa autocompreensão comum. O que quer dizer que nunca mais nos veremos do mesmo modo porque, devido aos eventos políticos e sociais, já não somos os mesmos.

 

O “mito do brasileiro”

 

A autocompreensão está dada no dia a dia na experiência com a própria mentalidade. Assim como “eu me compreendo”, “nós nos compreendemos” no contexto geral. Assim como podemos falar de uma auto-imagem pessoal, podemos falar em uma auto-imagem coletiva. Ora, é nesse sentido que nossa autocompreensão coletiva implica a crença geral do que podemos chamar de “mito do brasileiro”. Tal mito está em vigência no senso comum, sempre alimentado por certa antropologia, filosofia e sociologia, e até mesmo pela literatura, mas, sobretudo, pela televisão que se tornou uma verdadeira prótese existencial e cognitiva para nosso povo.

 

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O “mito do brasileiro” é transmitido pelos meios de comunicação em geral, inclusive os de massa, na forma de “verdades” explicativas sobre a população e seus indivíduos. Tanto o “Brasil”, quanto “o brasileiro”, restam compreensíveis por meio da narrativa mítica. A tendência de explicar o que não se pode entender com o arsenal conceitual que se tem a mão não é nenhuma novidade. O risco de “mitificar” (ou mistificar) é evidente.  No âmbito do mito, isso quer dizer que talvez a pergunta “quem somos nós?” não seja jamais colocada com seriedade, mas uma resposta está sempre pronta a ser usada mesmo quando jamais se questionou o sentido da própria pergunta.

O desejo de identidade está dado e é nele que se deposita não apenas a esperança de autoconhecimento, mas também o desejo de explicar o “outro” a partir do “mesmo”. Isso quer dizer que a identidade é caracterizada pela tendência a imperar sobre a alteridade, nem que precise construir a “alteridade”. Isso quer dizer em último caso, que é preciso tomar cuidado com definições de pessoas ou grupos, pois elas podem ser altamente falsas. É isso que fez alguns teóricos afirmarem que o antisemitismo criou o “judeu”, assim como Colombo criou os “índios”. Essa é a função do mito, explicar e definir – inventado a “identidade do outro” a partir de uma identidade de si – não deixando espaço para nenhuma diferença. O susto de muitos com a novidade brasileira se deve à alteridade que surge sem caber no parâmetro da identidade sempre afeita a “essências” e “naturezas”.

Na construção da “identidade” nacional, podemos lembrar a figura de Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter” de Mario de Andrade. Nesta linha o “brasileiro” é eminentemente acomodado e preguiçoso, ama o futebol e o carnaval mais do que tudo. Cerveja, praia e uma vida fácil são, para ele, o efetivo paraíso da vida sem esforço. Conchavo e cordialidade, em vez de trabalho e estudo, compõem o retrato desse indivíduo alienado e acostumado à escravidão e à colônia. Herói do jeitinho, ele só pensa em levar vantagem no que for possível. Curioso, na contramão, é que “O Guarani” de José de Alencar, cujo herói Peri é um índio valente e guerreiro, não esteja presente como símbolo no nosso imaginário. É que na base do mito está o interesse.  E o interesse só se desmascara na análise dos contextos.  O mito como explicação evita que se olhe para as transformações históricas, as novidades sociais e tecnológicas que afetam profundamente as subjetividades em geral, inclusive a do “brasileiro”. Pois foi justamente esse “mito do brasileiro” o que caiu por terra nas manifestações.

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A singularidade para além da identidade  

 

Quem analisa a história do Brasil e o presente de sua desigualdade social, econômica e cultural, verá, em primeiro lugar, que “brasileiros” (ou argentinos, ou franceses ou angolanos) não podem mais ser definidos por um “padrão”. Se quisermos ser irônicos, considerando que a ironia é, em filosofia, um método para olhar o lado falso da verdade e o lado verdadeiro que está por trás da falsidade, poderíamos dizer que partilhamos apenas duas coisas: a língua e a injustiça social. Em segundo lugar, a carga horária de trabalho e de estudo dos brasileiros, mostra de modo mais evidente um país de pessoas que fazem esforços desmedidos para superarem suas condições sociais e econômicas em meio a toda sorte de adversidades e precariedade social. As manifestações do últimos tempos mostram que a cordialidade, a acomodação, o desinteresse político já não nos retratam, se é que um dia disseram algum verdade.

 

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Contra a ideia gasta da identidade (de gênero, classe, raça, partido político, desejo e necessidade), podemos, em termos mais democráticos, postular a singularidade. É ela que, no Brasil e no mundo, vai às ruas. É ela que perturba a nossa compreensão, pois estamos acostumados a pensar a política na base da soberania, ou seja, da pertença do poder a alguém ou algum grupo. A democracia que descobrimos  neste momento está para além disso, está intimamente ligada à nossa subjetividade e, certamente, mudará nossa autocompreensão coletiva. Já sabemos que “um outro mundo é possível”, agora é a hora de assumir a responsabilidade sobre o desejo que surgiu entre nós como algo comum e que nos devolve ao contexto de relações em que o político se recria. Ética, como ação de uma subjetividade enriquecida pela experiência espiritual da comunidade e da alteridade real, é o passo que há de vir.

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Obs: O texto acima foi publicado em um dos últimos números da Revista Mente e Cérebro

8 Comentários leave one →
  1. 14 de outubro de 2013 11:00 pm

    Ainda é apenas uma semente… mas toda floresta nasceu assim! #euacredito

    • 23 de novembro de 2013 12:24 am

      E também o capim… #euduvido

      A toda sorte ainda gosto do sonho ação da tua frase, que bom sermos assim!

  2. Plínio permalink
    14 de outubro de 2013 11:19 pm

    Olá… Interessante o texto! O trecho que fala sobre a persistência da nossa humanidade, a despeito de todos os “nãos”, me fez lembrar uma cena do filme 2001- Uma Odisseia no Espaço… Aliás, se eu tivesse como me mandar para o espaço me mandaria; no mínimo embarcaria a minha ex-sogra! A questão é que precisamos encarar as coisas; elas não somem por serem ignoradas. Acredito que somos todos, em maior ou menor grau, afetados em nossas respectivas humanidades quando o desumano prospera. Eu, particularmente, estou tirando férias do Brasil. Ironicamente, farei o caminho inverso. Irei para Lisboa! Não é um sonho! Estou indo na marra, movido por confusão e cansaço! Escrevi à Patrícia Ubert – pessoa que me apresentou o seu blog. A culpa é dela- O Brasil se tornou insuportavelmente chato e ordinário!
    Não espero encontrar nada melhor por lá; o frio de “V.” irá comigo. Inclusive, Portugal é o país mais indicado para preservar as minhas “brasileirices”. Se eu realmente quisesse mudar iria para Amsterdam. O fato é que vemos melhor de fora. Para entender algo muito complexo é preciso certa distância. Assistir… Para mim que sou idealista, deverá ser um refresco. Não sei se as pessoas que estão nas ruas sabem dos propósitos de suas manifestações. Há muita incoerência em nós! Os mesmos que exigem a punição de José Dirceu irão votar no chefe dele. Esta propensão para desvincular coisas intimamente ligadas me confunde! Confuso, não sei de que lado ficar. Não sei nem se existem lados opostos! Oposição não tem sido o nosso forte. Eu poderia morrer por um causa, não que eu seja nobre, não sou! Mas, para garantir um minimo de dignidade as futuras gerações. Depois, gosto de encrencas! A questão é que a causa precisa ao menos existir, do contrário, o mais sábio é desertar. Nasci em dezembro de 71, no auge da ditadura militar. Não provei do chicote! Mas, não reconheço nessa “pseudo-democracia” o oposto dele. Não importa se o amargo vem do fel ou de um chocolate; amargo é sempre amargo. Nunca houve espaço para a liberdade de expressão plena; a tolerância e as garantias individuais! De um lado o Estado, de outro, “Deus”, a nos oprimir! Não falo da fé, estou falando da utilização dela para garantir um fim. Talvez esta seja a razão da minha descrença, do meu exílio voluntário. Não sei se as pessoas que vão às ruas, estão lutando ou só acompanhando alguma procissão. O que a maioria não sabe é que só seremos felizes quando o governo e os deuses nos deixarem em paz… Nunca é cedo ou tarde para ir embora! É o que pretendo ensinar ao meu filho.
    Se algum dia for a Lisboa, me avise… Vou buscar você no aeroporto. Estarei de verde e amarelo… Só para entregar que a distância pode ser uma tentativa desesperada de preservar o amor.

    Um grande abraço. Plínio. Ah, parabéns pelo dia dos professores!

  3. SIEGFRIED FUCHS permalink
    15 de outubro de 2013 4:28 am

    O liame entre a melancolia sentida e a razão (em sentido amplo, não só lógico) deve ser rompido, para se pensar e sentir mais claramente. A razão é objetiva, o pensamento. A subjetividade continua existindo, mas sub jecto. Eu queria completar dizendo isto; é um novo paradigma que liberta a mente.

  4. 15 de outubro de 2013 12:34 pm

    Márcia…

    Em um país que acha a educação prescindível, ser professor tende a se tornar falta de opção.
    Hoje, existe toda uma apologia à pobreza de espírito! Neste sentido, aqueles que detêm conhecimento intelectual tendem a ser vistos como figuras antipáticas, talvez, obsoletas! Há até quem sinta orgulho de ser analfabeto, desde que rico, claro! É uma forma de provar que a educação é dispensável. O saber relaciona-se mais ao ser que ao ter, daí o pouco caso. Quem ganha com isso? Desconfio que exista toda uma ideologia por trás! Quem perde? Todos! Nasci na década de setenta. “Na minha época” havia respeito pelos professores! Eles eram autoridades! Ameaçar, xingar, ou bater, era algo muito raro, uma exceção! Lembro-me de todos os meus ex-professores! Alguns foram decisivos em boa parte das minhas escolhas. Na minha noção de ética… Pessoas importantes na minha vida! Guardo estas figuras na memória com muito carinho, saudade e respeito! Tive muita sorte em tê-los! Lamento e sinto muita pena dos alunos que menosprezam seus professores. Ao mesmo tempo fico imaginando: quais lembranças terão de suas escolas, colegas e mestres? O que os meus professores guardaram de nós? E o que os atuais professores terão pela frente? Que tipo de povo despreza o conhecimento? Fico feliz que ainda existam educadores que acreditam; que persistem; que conseguem iluminar… Eles me fazem ter esperança de que nenhuma escuridão é para sempre.

    Parabéns, Márcia! Parabéns a todos os professores!

  5. 15 de outubro de 2013 1:58 pm

    Tenho lido e acompanhado tudo. Tenho tido pouco tempo para me ater e comentar! Passo hoje para dizer OBRIGADA POR VOCÊ SER ANTES DE TUDO UMA PROFESSORA! Vida longa e muito AMOR! Beijo!

  6. 16 de outubro de 2013 12:09 am

    _Estamos “perdendo a Educação”. Dá pra se dizer, “Viva o dia do Professor? Então, Viva o seu Dia!

  7. 30 de outubro de 2013 1:50 pm

    Espero que esse tesão coletivo subverta nossa concepção sobre nós mesmos, individual e coletiva. O maior risco é a mera substituição da aparência cordial por uma aparência insolente, preservando o mesmo conteúdo viciado e hipócrita. Não sei quantas gerações demoraríamos pra nos recuperar dessa frustração coletiva.
    Gostei mto da reflexão.

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