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A diferença entre feminismo e feminino

17 de outubro de 2013

A diferença entre feminismo e feminino

Para a Lorena Duarte, colega feminista que me chamou a atenção do fato

A diferença entre feminismo e feminino não é um “sm” no lugar do “n”. Mas a confusão das letras pode causar certa dor de cabeça…

Poster by Cuban artist José Gómez Fresquet (Frémez), circa 1970. Image: cwluherstory.com

Poster by Cuban artist José Gómez Fresquet (Frémez), circa 1970. Image: cwluherstory.com

Nesta semana, o Diário Catarinense publicou uma entrevista, fruto de uma conversa que tive com a repórter Kiara Domit por ocasião da feira do livro de Criciúma. A conversa foi super simpática, no final da festa, quando todos estavam cansados. Mesmo assim foi legal e eu respondi as perguntas, ainda que num clima coloquial, com muita lucidez.

Só que saíram uns erros. Hoje o jornal me mandou um pedido de desculpas e me avisaram que publicaram uma correção.

O correto é: “EU DESCONFIO MUITO DO FEMININO“.

O todo da entrevista pode ser lida aqui:

http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/variedades/noticia/2013/10/eu-desconfio-muito-do-feminino-4299159.html

O que causou estranheza foi aparecer a frase “Eu desconfio muito do feminismo”. Por que eu disse feminino e saiu feminismo. No entanto, a matéria era bem feminista, como acredito que a própria Kiara é.

Verdade que foi publicado um trechinho da entrevista. Eu prefiro, aliás, mandar as respostas por escrito… não é a primeira vez que  acontece um erro me envolvendo. Até porque os meus temas são sérios, graves, até polêmicos como pensam certas pessoas.

O que eu chamo de feminino? A construção dos ideias da masculinidade que pesam sobre as mulheres: maternidade, sensualidade, formas corporais, gênero, gestos, papéis. Eu penso a teoria feminista como um gesto feminista de desconstrução que tem que passar pela desconstrução do feminino. A liberdade real das mulheres – travestis, transhomens e todo mundo – surge desse processo.

Por que as pessoas precisam ser femininas? Não precisam. Mas “quem” precisa que outra pessoa seja feminina??? Esta é uma pergunta melhor…

Já o feminismo, eu o defendo sempre. E assumo o meu como um desejo de dialogar com o mundo em defesa da singularidade de cada pessoa, no qual estejam inclusas mulheres em sua pluralidade radical.

Mês de novembro vem aí e o Dossiê Judith Butler que organizei para a Revista Cult com um debate importantíssimo para o nosso tempo em que as “identidades” precisam ser repensadas… E o feminismo é o nosso jeito de começar sempre bem e seguir melhor ainda.

(Há textos meus em livros, neste blog e no site da Revista Cult com trabalhos mais específicos sobre o tema, quem quiser saber mais só procurar.)

 

 

7 Comentários leave one →
  1. Danilo Henrique permalink
    17 de outubro de 2013 5:53 pm

    Márcia, os papéis sexuais não são atribuídos apenas pelos ideais da masculinidade. São atribuídos por todos.

    Mas abandoná-los é realmente significativo? Até aonde eu posso abandonar meus papéis sociais e até aonde obedecê-los significa uma liberdade ainda maior do que negá-los.

    Toda obediência é vista no senso comum como restrição a liberdade. Mas isso não passa de um erro grosseiro. Obedecer as leis é uma obediência que nos torna livres, pois obedecendo exerço minha cidadania. Cumpro com meu dever perante o outro e exijo portanto que este cumpra seu dever comigo. Eis aí a sociedade, a dependência que temos do “outro”.

    Claro que poderemos ter leis injustas, mas então caberá a sociedade repensar esta lei, mas nunca sem jamais descumprir os deveres como cidadão.

    O dever tem seu aspecto regulador, marcando a mútua dependência que temos na sociedade, e isso por mais desconfortável que seja, pesa.
    Sócrates obedeceu o tribunal e bebeu a cicuta, ele mudou a concepção do pensamento para sempre, mas teve que sofrer o “peso de seu papel social”

    Desconstruir esses papéis? É necessário com certeza, a desconstrução faz parte da dialética. Mas faz parte da dialética também uma nova construção. E é isso que não vejo!

    Minha crítica a este pensamento feminista é a mesma que tenho a todos os ativistas. Desconstroem sem formular uma nova realidade, substituindo o pensamento, que se movimenta constantemente, por uma ideologia, fixa

    As feministas de verdade serão as que construírem uma nova realidade, trazendo um diálogo efetivo e não impositivo. Uma nova “identidade” só se dará por um caminho dialético que implica que uma construção de um novo papel social, que também pesará, só que menos do que o anterior (na época em que foi repensado)

    • Andrei Santovich Ricon permalink
      18 de outubro de 2013 8:47 am

      Você estuda Hegel, certeza! E por ter isso em comum, achei válida grande parte da sua escrita. Mas discordo no ponto em que você diz que no feminismo não há uma nova construção. Sim, há. Se há disparidade entre os gêneros, e o feminino se vê em condição de consciência escrava, enquanto o masculino é o senhor, dialeticamente só haverá reconhecimento com o embate entre eles. Nada mais justo do que a consciência que se vê escreva buscar um lugar que lhe compete, mediante a luta. E essa luta é o que trava o feminismo.

      • Danilo Henrique permalink
        21 de outubro de 2013 2:24 pm

        Estou estudando, Hegel é o cara! Não só ele como conceitos análogos que existem dentro das ciências…

        De toda forma, compreendo sua questão, só que é justamente isso que eu expus. Veja, eu não penso como inválido o embate a hegemonia. Pelo contrário, isso é justamente a antítese da tese vigente (o masculinismo, no caso feminista). E é isso que eu digo que o feminismo faz, ele promove a crítica, mais do que adequada, a este pensamento corrente.

        O que eu proponho do feminismo é que ele complete a dialética! O movimento dialético é composto da tese, antítese e síntese. O feminismo, (bem como qualquer outro ativismo contemporâneo) só realiza a antítese sem conceber uma síntese.

        Note que em épocas anteriores os movimentos ativistas elaboraram sínteses de suas críticas, tanto é que houve a movimentação das classes dominantes para vigorar direitos que se mantêm essenciais até hoje (como o voto para as mulheres, a igualdade no trabalho, enfim)

        No entanto hoje esses movimentos, com os direitos já conquistados, não conseguem mais promover uma síntese de suas antíteses. Não atualizaram seus discursos na nova realidade que os próprios grupos ativistas conquistaram, se tornando portanto, obsoletos.

        A nova realidade pede desses grupos uma síntese mais efetiva, possível, real. Quando esses grupos falam de desconstruir papéis sexuais estão falando de conceitos que não apenas perduram a séculos, estão falando de conceitos que se misturam com a própria constituição biológica do ser humano. É necessário um estudo mais aprofundado dessas questões para que a síntese proposta não acabe sendo na realidade uma ideologia tão ou mais nociva que a anterior.

        Temos que separar o que é construção social do que é biológico, de forma precisa, metodológica. E então poderemos ter uma antítese efetiva que construa uma nova concepção do conhecimento!

        Penso que esses movimentos estão se precipitando sobre teorias sociais que não estão prontas ainda, precisamos de uma reflexão maior e de uma atualização dos métodos dos ativistas sociais.

        Senão será apenas um conceito imposto na marra (feminismo) contra um conceito que já existe também imposto na marra!

        A filosofia deve fugir exatamente disso! Ela deve procurar um conhecimento sólido, claro e distinto para ter suas bases.

        É isso que não vejo no feminismo (e nenhum ativista) e proponho como forma de esclarecimento!

    • Lorena permalink
      18 de outubro de 2013 11:04 am

      Caro Danilo,

      Existe a discussão há séculos sobre o que você está tentando expor: quando normas (sociais, morais, mas especialmente as jurídicas) são injustas e flagrantemente violentas à nossa dignidade, temos o direito de desobedecê-las? É o debate central da Antígona, de Sófocles, do Mercador de Veneza, de Shakespeare e de grande parte da obra de Rousseau. Todos eles, em algum nível, chegam à conclusão de que uma norma flagrantemente injusta e atentadora à dignidade, é passível de ser desobedecida, sim, porque carece de legitimidade. Até porque a “sociedade”, como um bloco fechado, coeso e unívoco, não existe. É só um conceito abstrato. Assim, quantas mortes uma norma deve causar antes de cair? Como ela cai? Cai só por vontade dos legisladores e juízes ou é necessário que outras pressões aconteçam?
      De toda sorte, quando falamos do “feminino”, a coisa é diferente. Primeiro porque é um conjunto de prescrições, sem forma definida, que não está escrita em lugar nenhum e que ainda assim é conhecida de todos e quem as desobedece, sofre coerção. Esta coerção vem de forma difusa, por todos os lados, ainda que ninguém profira uma palavra sequer. Uma mulher que não se enquadra nos padrões estéticos ou morais tradicionais para o “feminino” (ela é gorda, ou “promíscua”, ou tem o “cabelo ruim”, ou ela “xinga, ela bebe, ela fuma, ela briga” e por isso “não pode ser a dona do seu lar”, como diria o grande Candeia) pode não chegar a ouvir com todas as letras a reprovação que isso causa. Ainda assim, ela vai sentir a repressão que vem daí. Esse “feminino”, é importante dizer, é uma construção do homem, e não da mulher. É elemento de opressão, é amarra, porque impede o autoconhecimento de um gênero inteiro! Prova disso é que ainda hoje o homem se sente no direito de dizer oque é uma “mulher de verdade”, ou uma “feminista de verdade”.
      O eterno feminino não precisa ser substituído por um novo feminino. Pelo menos não como parece que você tenta colocar. Não, não existe uma definição pronta do que é ser mulher, pra se colocar no lugar das definições antigas. Descobrir o que é, afinal, ser mulher, é parte do processo. Depois de séculos de opressão, estamos finalmente nos colocando de maneira pública e coletiva as perguntas necessárias pra essa compreensão.
      Parafraseando os modernistas de 22: podemos não saber ainda tudo o que queremos, mas nem por isso aguentaremos mais aquilo que já sabemos que desprezamos.
      Um abraço!

      • Danilo Henrique permalink
        21 de outubro de 2013 2:51 pm

        Eu compreendo essa questão da mesma forma, o que eu proponho é um apenas um estudo melhor fundamentado para que o feminismo não caia em ser uma outra “imposição”…

        Ao propormos, por exemplo, que a mulher dita “promíscua” como no seu exemplo acima, deixe de ser taxada dessa forma por suas atitudes, incorremos no risco de nulificar nossos valores, impondo um novo valor confuso, deturpado e tão rigidamente oposto quanto o anterior.

        Não defendo que se continue taxando a mesma de vagabunda e que fiquemos nisso mesmo. De forma alguma. Veja, a mulher deve ter o direito de se relacionar com quem e quantas vezes quiser ao longo de sua vida, assim como o homem.

        A questão é que essa síntese não percorre mais a esfera pública, dos direitos e deveres. Não é como o voto feminino, que bastou uma lei para que se efetuasse uma mobilização efetiva,bem definida e bem sucedida dos movimentos feministas.

        Essas particularidades pertencem a esfera particular do ser. Devemos propor uma mobilização não por leis que invadam essa esfera e proíbam pessoas de serem taxadas de vagabundas, ou que tornem isso “bullyng”.

        As mobilizações nessa esfera são de caráter pessoal. Se um homem recebeu por cultura chamar uma mulher de “vagabunda” por ela ter se relacionado com muitos homens não é uma lei que vai mudar sua mentalidade.

        Tornar crime o julgamento particular através da alcunha de “constrangimento” não será efetivo contra a mentalidade, que ainda em silêncio, continuará sendo a mesma. Ao contrário, irá insuflar no indivíduo um sentimento de rancor e de imposição contra seus conceitos particulares. Ou seja, aos poucos, o feminismo se tornará o novo masculinismo, tão opressor quanto e tão impositivo quanto.

        Essa síntese, nesse caso específico, se da no âmbito do esclarecimento, que é muito mais complexo do que lidar com as leis e com a opinião pública. Agora lidamos com o particular, com o costume, com as particularidades aonde não sabemos o que é homem como efeito do social e o que é homem como efeito do natural.

        Por isso que eu defendo uma nova abordagem do feminismo. Antes de falarmos de desconstruir papéis, vamos elaborar papéis novos, de pouquinho!

        Ir colocando passo a passo as questões do esclarecimento para serem discutidas sob diversas óticas, a cultural, a social, a científica, etc…

        As vezes nos depararemos com ideias que o próprio feminismo leva em si que estão equivocadas!

        É esta abordagem que penso que falta, uma abordagem racional, de discussão de antítese no sentido mais hegeliano possível. Uma dialética real e não novas imposições para substituir antigas!

        E uma dialética que não tenha medo de dizer que está errada em alguns pontos, um ativismo que não seja arrogante de não saber abrir mão quando está no exagero!

        Falta essa postura ao ativismo, para ele se adequar ao mundo que ele mesmo, no passado, ajudou a construir.

        O conhecimento está em constante movimento, quando assumimos posturas estáticas, ficamos atrasados automaticamente!

  2. 17 de outubro de 2013 8:41 pm

    Márcia,

    Acho você uma pessoa muito interessante. Gosto de gente que diz o que pensa, apesar de todos os riscos. Você se diz feminista e queria entender a questão, porque confesso que tenho muita dificuldade de raciocinar fora de um parâmetro. Por exemplo: se você me pedir uma definição de saúde provavelmente ela estará ligada ao meu conceito de doença. Talvez seja um modo limitado de entender o mundo. Então, para eu não morrer de catapora, me indica um livro interessante sobre o feminismo. Mas, um livro f…! Para me pirar! Vou precisar, agora que mencionou a palavra “desconstrução”. Estou perturbada! Perguntei para o meu companheiro se ele acha que o machismo pode desconstruir o masculino. Ele me olhou de um jeito esquisito… “Como assim? Dá um exemplo!”
    Quando desconstruimos o feminino ou o masculino, colocamos algo no lugar? Ou a idéia é retirar qualquer conceito de gênero. Dá para viver sem esse parâmetro? Dá para se reconhecer sem a ideia do outro? A psicologia não ocupa muito as minhas leituras, mas li algo interessante que se baseia nas ideias de Jung. Segundo o texto, o masculino e o feminino seriam mais um estado de espírito que propriamente um conceito. Neste sentido, masculino e masculinidade; feminino e feminilidade não caminham necessariamente juntos. Ainda assim, eu precisaria dos conceitos para sentir-me no tal estado de espírito… As bolinhas vermelhas já começaram a apontar…

    Ajuda…

  3. 18 de outubro de 2013 10:54 pm

    Tem gente que a gente gosta de graça. Feminista, feminina ou qualquer que seja o tal do rótulo, eu confio em você. Como disse, apenas é, e de graça.

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