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Ainda que o último fio seja intangível ao nossos olhos

18 de novembro de 2013

Texto da exposição “Trouxeste a Chave? ” que abre na Galeria Mônica Filgueiras no dia 18 de novembro e vai até dezembro.

Ainda que o último fio seja intangível ao nossos olhos

Marcia Tiburi

 

corpografias para blog

 

Corpográficos. Vulcanográficos, ambigráficos, personográficos. Tramográficos, aracnográficos, espacialográficos. Ascensográficos.  Impulsográficos. Aerográficos. Corrosivográficos. Levitográficos. Sabergráficos. Vorticegráficos. Pelegráficos. Inundográficos. Rebentográficos. Anjográficos. Riscográficos. Ventográficos.

Branca de Oliveira é acostumada com complexas tecnologias. Leva-nos, contudo, neste trabalho a uma viagem na potencialidade do material mais simples da história da arte: a grafite. À aventura na forma mais básica das artes visuais: o desenho. Não é somente o retorno ao elemento fundante do gesto imagético, mas um aprofundamento no fantasma da tecnologia que, historicamente, nos dispensou as mãos. Branca volta a elas, devolve-as ao gesto e ao corpo que, desenhando, pratica seu primeiro movimento: ir além de si. Esse gesto liga, relaciona, anexa. Tenta, testa, e por isso risca, arranha, suja, deixa acontecer. Funda nexos.

Toda a experimentação é desenho. Desenho é design, é gesto de significação.  Mas desenho é também grafo. Grafo é linha que conecta e desconecta uma coisa com outra, e a linha à outra linha. Grafar implica uma gramática: grafamos com vértices, arestas, paralelos, setas, laços, nervuras, ranhuras, arcos. Olhar esse trabalho de Branca de Oliveira implica deixar-se levar pelas linhas, aceitar seus emaranhados; ao mesmo tempo, duvidar deles. Prestar atenção em seus limites e direcionamentos.

Podemos, sem dúvida, olhar para os símbolos, os signos, os sinais. Para o universo de conteúdos aos quais nos lança esta experiência. Mas eles seriam completamente outros se não fossem desenhados.

É que o desenho nos traz a sombra. O desenho nos dá o erro; no mais básico dos gestos, a potencialidade do que poderia ser e não ser. O desenho não é somente o grafo e sua história, mas é ainda o desajuste no mapa, o que estremece na planta, o que alucina na imagem desenhada, a imagem corpografada nascida nesse ponto simples da mão que atua com a grafite. A imagem levitografada, ambigrafada é toda não imagem. Às vezes, quando algo escapa, é então que algo foi desenhado.

Ficamos sabendo que a mutegrafia é diurna, que é também noturna. Olhando bem, vemos que o corpo desenhado é corpográfico. E que é possível corpografar. Basta começar por algum lugar como ela começou. Problema seria fazer o começo. Então nosso olhar roda, roda; roda até encontrar o quadrado mágico, o palíndromo, o design… Ambigrafamos quando transformamos qualquer um, em verso e reverso… problema, sabemos, é versar e reversar. Por isso, olhar atentamente é o caminho. Sabendo que o desenho de Branca de Oliveira começa no morfismo, mas rompe com ele: dimórfico mórfico, eis como seria o caso de tentar entendê-lo.

Mas um desenho não se entende simplesmente, antes, é preciso vê-lo. Encantados com a narrativa, curiosos da alegoria, concentrados no conjunto de detalhes que nos põem em estado de vertigem mental, fixamos os olhos. Ora, o desenho é um gesto sempre sutil que exige a concentração mais delicada. Quanto há para interpretar? O que se pode dizer?

Não é preciso dizer nada. Basta ver, ainda que o último fio seja intangível aos nossos olhos.

convite Branca cópia

3 Comentários leave one →
  1. 19 de novembro de 2013 4:40 am

    Foda!
    Que vontade de dar um pulo em Sampa só para VER isso DE PERTO!

  2. 19 de novembro de 2013 3:17 pm

    Caríssima Márcia,
    Indiquei seu blog ao ‘Semper Fidelis Award’, veja mais em http://alessandrabarbierato.wordpress.com/semper-fidelis-award/. Abraço

  3. 27 de novembro de 2013 8:08 pm

    Olá muito o blog , gostaria que desse uma olhada no livro sobre filosofia de um escritor muito bom https://clubedeautores.com.br/book/128614–FILOSOFIA_E_LIBERDADE#.UpZ2EtJDuuE caso se interessar tem mais conteúdo no site dele http://www.marianosoltys.prosaeverso.net/audios.php

    Obrigado pela atenção

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