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A DROGA NOSSA DE CADA DIA

7 de dezembro de 2013

O artigo abaixo foi publicado no Jornal Pioneiro de Caxias do Sul no suplemento Dialeto na semana que passou semana a propósito do meu livro Sociedade Fissurada escrito em parceria com a Andréa Costa Dias

A droga nossa de cada dia.

Quando usamos a expressão “drogas” estamos falando de um objeto tratado por todos nós como o maior tabu de nossa época. Temos medo das “drogas” e, por isso, agimos com duas posturas básicas em relação a elas. Em primeiro lugar, evitamos falar sobre o tema como se, pelo silêncio, ele pudesse se desmanchar no ar.  Em segundo lugar tratamos as drogas como “o mal”, o flagelo que atinge aqueles que são “fracos”, que “não tem cabeça boa” ou “andam em más companhias”.

Com o uso genérico do termo “drogas” acobertamos a complexidade da vida das substâncias sobre as quais sabemos pouco ou quase nada. Transferimos o problema da “relação” para as drogas “em si mesmas”, como se elas fossem a causa de algum mal do qual nós seríamos apenas as vítimas. A nossa relação com as drogas é ampla, muito maior do que imaginamos, mas não gostamos de saber disso. Costumamos defender ou atacar substâncias diversas em função de medos obscuros que podem ocultar também interesses nada claros.

Raramente nos ocupamos em questionar o que estamos fazendo com as chamadas drogas em uma escala social e não apenas individual. Em relação à elas somos, antes de mais nada, moralistas e preconceituosos. Costumamos confiar na psiquiatria, bem como nas neurociências como campos que detém o saber sobre a vida das substâncias e seus efeitos sobre nós. Contudo, no âmbito do senso comum, não conhecemos os estudos especializados senão pela mediação dos meios de comunicação que jamais nos apresentam a complexidade das pesquisas científicas. Entendemos quase nada dessas ciências, mas costumamos confiar nelas porque são apresentadas a nós como detentoras da totalidade da verdade quanto às drogas. E esta postura só fortalece a sustentação do círculo vicioso e até mesmo cínico da sociedade no qual as drogas são o bode expiatório. No Brasil, por exemplo, há um preconceito muito grande contra a maconha promovido em diversos níveis de discurso, do governamental ao senso comum, passando pelo religioso e pelo moralista, que é o mesmo tipo de preconceito que impede pesquisas científicas sérias e que, em escala social, impede avanços possíveis sobre os quais poderíamos ser responsáveis. Mas o Brasil ainda é uma país que prefere o autoritarismo à responsabilidade.

sf

As ciências e os meios de comunicação determinam o modo como vemos as drogas. Curioso, no cenário dos interesses, é que não se veja a participacão das ciências humanas, da antropologia, da história e da sociologia nas pesquisas. É que estas ciências mostram que as chamadas “drogas” tem história, que os usos e costumes em relação a elas são muito diferentes no tempo e no espaço. Que há muitos fatores sociais e políticos implicados naquilo que é tratado como sendo dependência química ou toxicomania e até mesmo tráfico.  Tratado como mera prática de bandidagem, ocultam-se aspectos políticos diretamente relacionados  ao sentido indesejado da legalização por parte do governo. Essa moral não nos permite questionar o que são realmente as chamadas drogas. Em nossa cultura vemos que o álcool não é um tabu tão grande quanto a maconha, que as anfetaminas não sofrem tanta estigmatização. Esquecemos que o açúcar era uma droga que, aos poucos foi deixando de ter este lugar no nosso imaginário social. Mas não nos perguntamos pelos motivos segundo os quais certas substâncias são tão condenadas e outras não porque perdemos o senso histórico e, ao mesmo tempo, não ligamos para motivos sociais. As drogas só podem ser compreendidas se prestarmos atenção na rede que organiza o seu sistema.

Olhamos para as drogas de acordo com a moral vigente bancada pelo pensamento proibicionista conservador que espera sempre as coisas permaneçam como estão.

A ideia de droga é é tão construída pela ciência quanto pela sociedade. Em nosso cotidiano todos nós temos experiências relativas a drogas. Lembrando que nossa relação com o mundo das “drogas” e das dependências é ampla, podemos falar em esteticomanias e não só em toxicomanias. As esteticomanias (mania do corpo perfeito, “vício” em internet, em redes sociais, em sexo, em comida, em televisão, etc.) se referem a nossos corpos que são, ao mesmo tempo, nosso espírito. Neste sentido, é interessante perceber que não há uma relação direta entre drogas e vícios, podemos ser viciados em práticas que não tem a ver com “drogas”. Nem toda droga vicia. Embora tudo o que nos pareça substancial nos cause apego. Também o “vício” deve ser questionado, pois que falamos em vício sem perceber que participamos todos de um círculo vicioso de preconceitos que não nos levam a nenhum lugar melhor comparativamente a onde estamos.

Há muitos modos de dependência além da química, como a psíquica e até mesmo a conceitual. Podemos dizer de alguém que troca o álcool por um deus, que ele simplesmente trocou de absoluto. Trocou uma ideia que o fazia agir por outra.

Todos temos experiências relativas às drogas, muitos tem experiências absolutas com as drogas. É que assim como podemos dizer de Deus, não importa se ele existe. Assim não importa se as drogas existem de fato ou não, mas importa o que fazemos com elas, e o que elas significam para nós.

Creio que o lugar de tabu nos diz claramente que há interesses em jogo e que a nossa generosidade democrática deveria começar justamente por romper com o tabu. Certamente evitaremos muito sofrimento na vida cotidiana aprisionada no círculo vicioso do medo contra o qual só a lucidez pode lutar.

Marcia Tiburi, filósofa, é autora de Sociedade Fissurada – para pensar as drogas e a banalidade do vício. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Quem quiser acompanhar o Seminário que deu origem ao livro, veja: http://www.sempreumpapo.com.br/mondolivro/?page_id=1311

5 Comentários leave one →
  1. 9 de dezembro de 2013 9:44 am

    Blog muito interessante e bastante rico em termos de informação, estarei lendo-o com alguma frequência, obrigado!

  2. Milton Filho permalink
    16 de dezembro de 2013 10:18 am

    Olá, Marcia Tiburi!

    Ia fazer um comentário ao seu texto “A droga nossa de cada dia”, mas então lembrei de um poema que compus e que me serve ao discurso, embora seja um ponto sob pressão, dando ao leitor o direito e o trabalho à explosão das ideias contidas.

    Este, entitulado “Peçonha”:

    “À maneira das serpentes
    Rastejamos sinuosamente.
    A diferença é que
    Fazemos isso na vertical.”

    ou este, “vida animal”:

    “O homem ficou de pé,
    Mas não perdeu sua elegância
    De quadrúpede.”

    Por falta de competência para fazer um comentário à altura dos seus dizeres, faço-me de inoportuno e deselegante, apresentando esses poemas, desculpe-me.
    Encontrei esse blog por acaso e vi o título do seu livro, SOCIEDADE FISSURADA. Já tinha ouvido em algum lugar sobre este seu livro e não esqueci porque, de fato, é um belíssimo e sugestivo título. Por isso tudo não resisti e faço esse comentário.
    Ao ler seu texto, chego sempre numa visão única, o homem, só o homem e sua fuga desabalada em direção, tragicamente, a si mesmo. Enquanto o homem não souber ler nas entrelinhas, vai queimar nos infernos. O fogo purifica e a dor acorda o quadrúpede mais rápido. Estou um pouco azedo mas, tenho essa esperança.

    Milton Filho

  3. Érica permalink
    24 de dezembro de 2013 12:10 pm

    Falou, falou e disse pouca coisa. As drogas legais e ilegais são determinadas pela capacidade de alterar nossa sensopercepção e nossa consciência. Hoje é assim. Existiu uma época em que apenas interesses mercantis definiu olegal do ilegal. Temos que ter bom senso e contextualizar nossas falas.

  4. Edson permalink
    1 de janeiro de 2014 11:29 pm

    A quem interessa a droga e o usuário droga?

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