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Os brasileiros e sua autocompreensão

14 de outubro de 2013

Os brasileiros e sua autocompreensão

 

Para muitas pessoas não é fácil entender as manifestações coletivas em nome de causas e direitos sociais que vêm acontecendo em âmbito global e que, recentemente, surpreendendo a muitos, surgiram também no Brasil. O desconhecimento sobre história social e política, bem como sobre o significado profundo das lutas, sublevações e insurreições mundiais e nacionais contribui para a perplexidade quanto à situação presente. Não se conhece o passado, não se entende o presente e, além de tudo, não é possível prever o futuro quanto à mudanças sociais concretas em termos de direitos, cidadania, reforma política ou direção de políticas públicas. Se por um lado o que pensamos do futuro pertence à especulação e à fantasia, por outro é o efeito direto do que não somos capazes de imaginar, daquilo que se dá em bases inconscientes, do que é da ordem imponderável do desejo. Que o desejo de um mundo melhor possa nos amparar é o novo sentimento que surge como um terceiro elemento no instante em que a alternativa estava entre o apático fim das utopias e a ideia de que todas as utopias já tinham sido realizadas.

 

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Certo, no entanto, é que uma mudança de autocompreensão coletiva está em cena no Brasil atual. E este talvez seja o aspecto mais decisivo no contexto dos acontecimentos, a experiência subjetiva que está sendo vivida quando muitos acreditavam no fim do sujeito ético e político aniquilado pelos diversos mecanismos de dessubjetivação que vão da economia à tecnologia. A impressão generalizada, do senso comum à investigação em ciências humanas, era de que as pessoas estavam vendidas ao sistema econômico, tinham cancelado qualquer desejo político, eram servas do consumismo e da publicidade e, portanto, já não pertenciam a si mesmas. Não tinham subjetividade, a instância da decisão, da liberdade que se elabora e forma na intimidade de cada um e em sua relação com o outro.

No contexto, surpreende que a Internet, que aparece muitas vezes como a máquina devoradora de subjetividades, se torne um mecanismo democrático, uma instância de trocas intersubjetivas, que faz irromper liberdades individuais na formação da expressão comum tal como a da multidão nas ruas. Que a Internet como meio tecnológico tenha sido a ameaça de aniquilação da subjetividade e que, de repente, ajude a forjar outras subjetividades, mostra apenas que o ser humano permanece humano na liberdade de recriar seu sentido, seu modo de viver e que possa usar instrumentos, tais como a Internet, simplesmente a seu favor.

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Todos estes acontecimentos, devido à força que lhes caracterizou, afetam o âmbito da autocomprensão. Sabemos que a autocompreensão pode ser positiva ou negativa, na forma de autovalorização ou autodesvalorização, e orientar ações de uma pessoa, de um grupo, de sociedades inteiras. A autocompreensão é fundamental na definição de projetos pessoais ou coletivos.

 

A mudança de autocompreensão que está em jogo no momento atual, se dá em função da aparição de uma subjetividade negada até então. Aspectos inusitados vem à tona perturbando compreensões prévias. É neste aspecto que os discursos sobre os brasileiros enquanto massa, não poderão mais ser pronunciados sem desconfiança, pois algo que estava oculto sobre a condição brasileira de repente apareceu. Pesquisas recentes sobre o “zeitgeist” contemporâneo diziam que os brasileiros eram os mais “felizes” e satisfeitos do mundo. Pode, nesta base, soar simplesmente curioso que o contrário tenha surgido diante de tantas manifestações por mudanças as mais diversas, exigidas no contexto de uma insatisfação geral demonstrada publicamente e com tanta ênfase como vimos nas ruas de várias cidades tomadas por milhões de pessoas. A queixa geral que ouvíamos como um sussurro social poderia ter continuado seu zunido gasto, mas que tenha se tornado ativismo político, é algo que não se esperava dos brasileiros. O que de fato, está acontecendo entre nós? É algo que podemos nos perguntar. Mais do que curiosidade, o que está em cena é um abalo sísmico no processo de nossa autocompreensão comum. O que quer dizer que nunca mais nos veremos do mesmo modo porque, devido aos eventos políticos e sociais, já não somos os mesmos.

 

O “mito do brasileiro”

 

A autocompreensão está dada no dia a dia na experiência com a própria mentalidade. Assim como “eu me compreendo”, “nós nos compreendemos” no contexto geral. Assim como podemos falar de uma auto-imagem pessoal, podemos falar em uma auto-imagem coletiva. Ora, é nesse sentido que nossa autocompreensão coletiva implica a crença geral do que podemos chamar de “mito do brasileiro”. Tal mito está em vigência no senso comum, sempre alimentado por certa antropologia, filosofia e sociologia, e até mesmo pela literatura, mas, sobretudo, pela televisão que se tornou uma verdadeira prótese existencial e cognitiva para nosso povo.

 

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O “mito do brasileiro” é transmitido pelos meios de comunicação em geral, inclusive os de massa, na forma de “verdades” explicativas sobre a população e seus indivíduos. Tanto o “Brasil”, quanto “o brasileiro”, restam compreensíveis por meio da narrativa mítica. A tendência de explicar o que não se pode entender com o arsenal conceitual que se tem a mão não é nenhuma novidade. O risco de “mitificar” (ou mistificar) é evidente.  No âmbito do mito, isso quer dizer que talvez a pergunta “quem somos nós?” não seja jamais colocada com seriedade, mas uma resposta está sempre pronta a ser usada mesmo quando jamais se questionou o sentido da própria pergunta.

O desejo de identidade está dado e é nele que se deposita não apenas a esperança de autoconhecimento, mas também o desejo de explicar o “outro” a partir do “mesmo”. Isso quer dizer que a identidade é caracterizada pela tendência a imperar sobre a alteridade, nem que precise construir a “alteridade”. Isso quer dizer em último caso, que é preciso tomar cuidado com definições de pessoas ou grupos, pois elas podem ser altamente falsas. É isso que fez alguns teóricos afirmarem que o antisemitismo criou o “judeu”, assim como Colombo criou os “índios”. Essa é a função do mito, explicar e definir – inventado a “identidade do outro” a partir de uma identidade de si – não deixando espaço para nenhuma diferença. O susto de muitos com a novidade brasileira se deve à alteridade que surge sem caber no parâmetro da identidade sempre afeita a “essências” e “naturezas”.

Na construção da “identidade” nacional, podemos lembrar a figura de Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter” de Mario de Andrade. Nesta linha o “brasileiro” é eminentemente acomodado e preguiçoso, ama o futebol e o carnaval mais do que tudo. Cerveja, praia e uma vida fácil são, para ele, o efetivo paraíso da vida sem esforço. Conchavo e cordialidade, em vez de trabalho e estudo, compõem o retrato desse indivíduo alienado e acostumado à escravidão e à colônia. Herói do jeitinho, ele só pensa em levar vantagem no que for possível. Curioso, na contramão, é que “O Guarani” de José de Alencar, cujo herói Peri é um índio valente e guerreiro, não esteja presente como símbolo no nosso imaginário. É que na base do mito está o interesse.  E o interesse só se desmascara na análise dos contextos.  O mito como explicação evita que se olhe para as transformações históricas, as novidades sociais e tecnológicas que afetam profundamente as subjetividades em geral, inclusive a do “brasileiro”. Pois foi justamente esse “mito do brasileiro” o que caiu por terra nas manifestações.

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A singularidade para além da identidade  

 

Quem analisa a história do Brasil e o presente de sua desigualdade social, econômica e cultural, verá, em primeiro lugar, que “brasileiros” (ou argentinos, ou franceses ou angolanos) não podem mais ser definidos por um “padrão”. Se quisermos ser irônicos, considerando que a ironia é, em filosofia, um método para olhar o lado falso da verdade e o lado verdadeiro que está por trás da falsidade, poderíamos dizer que partilhamos apenas duas coisas: a língua e a injustiça social. Em segundo lugar, a carga horária de trabalho e de estudo dos brasileiros, mostra de modo mais evidente um país de pessoas que fazem esforços desmedidos para superarem suas condições sociais e econômicas em meio a toda sorte de adversidades e precariedade social. As manifestações do últimos tempos mostram que a cordialidade, a acomodação, o desinteresse político já não nos retratam, se é que um dia disseram algum verdade.

 

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Contra a ideia gasta da identidade (de gênero, classe, raça, partido político, desejo e necessidade), podemos, em termos mais democráticos, postular a singularidade. É ela que, no Brasil e no mundo, vai às ruas. É ela que perturba a nossa compreensão, pois estamos acostumados a pensar a política na base da soberania, ou seja, da pertença do poder a alguém ou algum grupo. A democracia que descobrimos  neste momento está para além disso, está intimamente ligada à nossa subjetividade e, certamente, mudará nossa autocompreensão coletiva. Já sabemos que “um outro mundo é possível”, agora é a hora de assumir a responsabilidade sobre o desejo que surgiu entre nós como algo comum e que nos devolve ao contexto de relações em que o político se recria. Ética, como ação de uma subjetividade enriquecida pela experiência espiritual da comunidade e da alteridade real, é o passo que há de vir.

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Obs: O texto acima foi publicado em um dos últimos números da Revista Mente e Cérebro

A inspeção aleatória ou como viver junto

11 de outubro de 2013

A inspeção aleatória, ou como viver junto

No Aeroporto de Florianópolis ao passar pelo detector de metal, o alarme acionou e fui avisada de que minha bagagem teria que ser inspecionada.

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Um homem de brancas luvas de plástico abriu minha bolsa e pegou minha garrafa de água, começou a mexer no meu estojo de canetas onde também carrego documentos e outras pequenas utilidades como clipes, apontador, lápis. Como ele pegou na mão a garrafa de água eu disse a ele que não poderia mais usá-la e sugeri, diretamente, que a jogasse fora. Ele me olhou perguntando “o que eu posso fazer?” enquanto eu tentava entender o que se passava e pensava no que responder e continuou inspecionando minha bolsa em busca de alguma coisa que eu não conseguia entender o que era.

Ele também não sabia o que era.

Em segundos, vendo que não se tratava de uma busca por algo, mas de uma busca em si mesma, e já bastante indignada com a reviração inútil, perguntei pelo por que daquilo tudo. Falei que já era suficiente o que ele tinha visto. Foi então que ele falou da inspeção aleatória. “Como assim?” continuei perguntando, “vocês não estão buscando nada?”, “do que se trata, afinal”? Enquanto ele continuava olhando a minha bolsa, um outro homem, mais jovem, veio e me disse que eram procedimentos da Infraero, que a inspeção aleatória acontecia a cada 20 passageiros. Até entendi, somos todos vítimas da burocracia. Mas ele continuava pegando as minhas coisas e aquilo me causava muito mal estar.

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Cada movimento das mãos enluvadas era a prática de algo como uma agressividade calma, um tipo de violência estranhamente modesta. Preocupada em perder meu vôo, falei novamente que já era suficiente. E ironicamente sugeri que se procurava algo olhasse também na mochila, que fizesse o serviço completo, mas cuidasse que poderia encontrar roupa íntima suja: calcinhas.

Verdade que, neste momento, eu não fui elegante. Talvez não fosse hora para ironia. A situação também não era respeitosa como em geral não é quando se fica “diante da lei”. Uma dor do tipo de uma indignação subia pela minha espinha e eu que sou uma pessoa acioanda verbalmente pela injustiça, tive que me controlar. A indignação é um afeto que conhece o caminho que vai da ofensa sentida à língua que revida. Talvez eu devesse ter ficado realmente muito quieta, mas a situação era absurda – como naqueles contos de Kafka que experimentamos na carne todos os dias – e era esse absurdo que incomodava.

Trecho de Na Colônica Penal de Kafka, por R. Crumb

Trecho de Na Colônica Penal de Kafka, por R. Crumb

Então, surpreendentemente, o homem abriu mesmo a mochila, começou a desfiar o carregador do computador e, enfiando a mão de luvas no fundo dela, chegou exatamente nas ditas calcinhas – coisas que pessoas como mulheres usam – pegou-as na mão e as olhou. Eu não acreditei, me assustei, falei alto, meio chocada. Pensava em como era possível que ele fizesse uma coisa dessas. Falei que parasse com aquilo. O outro veio em sua defesa e disse “você autorizou. Você disse para ele abrir a mochila”. Eu que não percebi que tinha autorizado coisa alguma, só puder dizer imeditamente na intenção de acabar com a loucura: “então eu desautorizo”. Descobri que eu estava mandado nos seguranças. Mas claro que não era isso.

Ele fechou minha bolsa e me falou que eu não poderia embarcar. “Por quê?” Perguntei. Por que a senhora não autorizou a inspeção aleatória. Mas eu autorizei, respondi confusa. Então, percebendo que havia um problema, falei imediatamente que autorizava, de fato, mas não a mexer nas minhas intimidades. Ele mandou alguém chamar a Polícia Federal, disse que eles estavam cumprindo as regras da Infraero e eu estava criando problemas.

Eu que não suporto autoritarismo nenhum, engoli em seco. Pois a humilhação estava em cena e esse era o jogo. E, no jogo, a culpa pelo “problema, entendi logo, era minha. E a culpa também residia em que eu era culpada de não autorizar que mexessem nas minhas coisas. E que, em não autorizando, eu era a culpada de não voar, a culpada pela minha própria desgraça naquele momento. Com medo, porque é de se ter medo nessas horas, medo de tudo o que pode acontecer caso você seja preso, eu disse que autorizava de uma vez por todas já que ele não iria me deixar embarcar. Eu sabia, obviamente, que estava sendo obrigada a autorizar, do contrário eu seria punida. A contradição era óbvia.

Na minha cabeça de filósofa, uma autorização não pode ser obrigatória e nem penalizada, mas aceitei para evitar algo pior. Ele continuou afirmando que eram regras da Infraero, e perguntou se eu queria que viesse uma mulher fazer a inspeção aleatória. Achei que era uma solução mais razoável e aceitei meio estarrecida. Aceitei, vá lá…

Então, a moça veio, bastante quieta pondo luvas pretas em vez de brancas, ciente de que ela também tinha uma regra a cumprir. Imaginei que ela seria gentil, e realmente parecia tentar ser. Usava como seu colega aquela agressividade calma, a violência modesta que aprendeu na repartição, mas tudo bem, eu suportaria. No entanto, o mal estar continuava, aquele mal estar que é fruto da humilhação vivida e que, mesmo quando a gente tenta ser forte, fica cutucando no fundo do peito. A mulher mexia na minha mochila, enfiava o braço lá no fundo, não sei por que, mas pelo menos não desfiou meu fio de computador, nem tocou nas minhas calcinhas para lavar. Mas quando passou para a bolsa, ela encontrou o que o outro não tinha encontrado, os livros, e apalpou-os, abriu um deles e, sem curiosidade nenhuma, passou a mão como fazem os agentes de segurança – sejam policiais ou não – em torno de um corpo à procura de uma arma.

Parece uma ironia, mas o livro que a moça da segurança tocou como se dentro dele tivesse uma arma escondida para uma fuga de um presídio, chama-se “Como viver junto”. É um livro que me acompanha há dez anos, desde 2003 quando foi publicado no Brasil pela Martins Fontes. No meu exemplar há muitos desenhos da Maria Luiza de quando ela tinha 6 anos. Eu sempre deixei a Maria Luiza desenhar nos meus livros, porque queria que ela soubesse que os livros são lugares para a gente ser feliz.

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Por fim, eu voltava da Feira do Livro de Criciúma, onde conversei com as pessoas sobre como “fazemos filosofia com as pessoas” e não “para as pessoas” e de como a “literatura é uma viagem vertical para dentro de nós mesmos”, de “como nos salva de todo autoritatismo” e vários outros assuntos ético-políticos desses que tem algo para melhorar o nosso mundo. Era uma conversa bonita com os habitantes de Criciúma que estavam na linda praça onde acontecia a feira, com o Carlos Henrique Schroeder que fazia a generosa mediação. Uns minutos antes eu tinha conversado com um repórter simpático que me pediu uma frase do tipo “bem forte” para colocar na matéria. Eu disse: “Existem dois tipos de analfabetismo, o dos livros e o políticos. Os dois alimentam um ao outro, mas podemos combater um combatendo o outro. Esse é o nosso desafio.”

Eu realmente acredito nisso, apesar de todas as questões que possa levantar sobre isso. Quem anda pelo Brasil criando espaços literários e de leitura é sempre um militante da leitura, um militante do melhor tipo de política, aquela que se cria no íntimo de cada um, aquela que permite criar meu espaço em mim mesma. Mas mesmo esse militante do livro, da leitura e da literatura pode ser preso diante da porta da lei pelos sacerdotes do fascismo cotidiano e ficar sem saída. Chorar a humilhação ferida, ou seguir lutando, eis o nosso desafio.

O texto é sempre o novo passo na marcha que não tem fim.

Aborto como metáfora III

9 de outubro de 2013

III

 

A maternidade é, em nossa cultura, um código moral ao qual aquele que nasce com um corpo de mulher deve submeter-se. O fato de que a maternidade também venha a ser uma experiência espiritual e corporal para uma mulher sem que ela se sinta obrigada a ser mãe, não está descartado. A escolha livre das mulheres precisa ser defendida contra a menorização das mulheres pelo discurso masculinista que as submete à maternidade compulsória. Se a mulher deve se submeter à maternidade, ou seja, ao embrião, por fim, ela deve submeter-se ao que Elisabeth Badinter chamou de “sistema maternalista” (2010) cujo cerne é a tirania do bebê. A insubmissão do embrião à falta de desejo de maternidade define a soberania do embrião contra a escravidão da mulher. No discurso masculinista, o embrião está no cerne da gravidez e não a grávida, assim como o bebê está no cerne da maternidade e não a mãe. O feminismo é a crítica desta postura.

Buscando ver de outro modo, buscando verificar outra similaridade – e outra simetria – ocultada pelo discurso masculinista, o que vemos aparecer é outra questão: o embrião é tão objeto do discurso masculinista quanto a mulher. Pois que ele mesmo – e de fato – não tendo desejo (e sendo neste aspecto realmente diferente da mulher) não pode escolher por si mesmo, mas o homem toma para si o direito de escolher por ele. Como se se tratasse de escolher pelo embrião e não por si mesmo no ato de ser mãe ou pai. A projeção sobre o embrião é um excesso metafísico sem consistência. Assim como o homem “escolhe” pela mulher e constitui assim a ideologia masculinista, e escolhe pelo emrbião. Mas como não pode fazê-lo com sinceridade tanto porque não se trata de escolha para o embrião que não é livre, quanto porque da mulher ele usurpa a liberdade, o discurso masculinista não sai de sua tática cínica. A questão da “escolha” jamais poderá ser do embrião desde que ele não entrou na esfera da linguagem e do desejo. Ele é apenas uma potência de existência (mesmo que seja algo em certo sentido vivo) que se submete à potência do desejo ao seu redor. A má metafísica argumentará pelo “direito” do embrião do mesmo modo que Leibniz escrevia no século XVII mostrando como Deus pensava ao ter criado o mundo, como se Leibniz (tão bem criticado por Kant) pudesse saber o que Deus pensava. Caso lancem o argumento ainda mais “profundo” do “desejo do embrião” para além do “direito do embrião”, a atenção de quem busca questionar as ideologias deverá redobrar-se.

O resultado inevitável de tal argumento idealista é que o embrião parece dotado da condição existencial de “mais vida” (entendido aqui seja como “potência de vida”) enquanto a mulher de um “mais corpo” (como se não fosse ela mesma “vida atual”). A vida potencial é considerada neste argumento idealista como maior e mais valiosa do que a atual. É isto o que torna sua relação assimétrica: mesmo que o embrião precise do corpo da mulher, não derivaria dele. Daí que a correspondência de um e outro seja complicada e a decisão sobre suas vidas venha a depender de um acordo ou de uma “vitória” da mulher que será interpretada pelos masculinistas antiabortistas como imoral. No entanto, no masculinismo, é a mulher que tem que morrer – ser abortada – para dar lugar à mãe e assim deixar de ser “imoral”. Deste ponto de vista, o embrião, é que acaba sendo o instrumento do aborto que o masculinismo faz da mulher. Seria um carrasco inconsciente do desejo do corpo e da existência que ele habita. O mandante do crime seria o homem que escraviza a ambos. A mulher seria sempre culpada pelo sistema da criminalização em que o único livre é o homem (o velho pater potestas imperando sobre a família). Seja como mulher que não quis engravidar, seja como mulher que, engravidando, praticou o aborto. Como de certo modo independente da mulher, o embrião seria dotado de uma “mais vida” do que a da mulher, já que ela seria a mera vida (o corpo vivo) e ele a vida que conta “mais” do que a vida dela mesma cujo caráter “espiritual” foi sumariamente descartado ao abdicar do previamente estabelecido “desejo de ser mãe”.

A crença fundamentalista de que a maternidade é a chance da espiritualização da mulher está ligada a esta forma de teorizar separando a mulher de uma espiritualidade que possa estar para além da maternidade. A maternidade seria o capital moral da mulher. Transformada em uma espécie de “norma”, a maternidade define que uma mulher é ou não “normal”, ou seja, “natural” e não “desnaturada” quando é heterodeterminada como mãe. Crença que se tornou verdade incontestável fazendo da maternidade um mito, ou seja, uma explicação inquestionada (só seria questionada se as mulheres fossem seres suficientemente espirituais para isso, pois aos homens não interessaria questionar).

No contexto do discurso masculinista é que apareceu o mito da maternidade. Nele o aborto aparece como um tabu. Em contextos moralistas é proibido falar dele abertamente. Aquela que fala se arrisca ao apedrejamento simbólico. Mulheres que se pronunciam falando de aborto, ou porque já abortaram ou porque abortariam se fosse preciso, são estigmatizadas como más ou anômalas. O aborto é, assim, uma metáfora para a mãe desnaturada, aquela que não quis obedecer à “natureza”, que não teria aceito viver segundo “sua” natureza. O embrião seria sacralizado na cultura ao ser o elo que ligaria o corpo da mulher ao espírito por ela adquirido apenas no ato da maternidade.

É preciso, assim, questionar estes discursos. Esta é a tarefa do feminismo conseqüente que vem fazendo o favor histórico de devolver às mulheres a questão do aborto contra os acobertamentos dos masculinistas expertos que temem a autolegislação das mulheres.

 

Mais-valia moral, biopolítica ou da importância da distinção entre ética e moral quando a questão é aborto

 

O tema “aborto” é eminentemente biopolítico. Mas não apenas. Por um lado, o argumento biopolítico faz ver que homens e seus poderes querem historicamente controlar os corpos das mulheres, mas por outro, é preciso também ver que a questão do aborto é uma das mais exploradas na busca da mais valia moral que reforça o poder das instituições num quadro social irreflexivo. Falar contra o aborto é, para os moralistas, politicamente correto. Afirmar o aborto como assassinato em vez de olhar para a necessidade de sua legalização como questão de saúde pública ou de liberdade feminina também.

Mas vociferar contra o aborto não é apenas um modo biopolítico de controlar a vida das mulheres, de perscrutar seus atos por meio de seus corpos, mas um modo de angariar adeptos de um modo geral por meio do discurso do senso comum se sustenta por meio d ídolos e sacerdotes. Neste sentido, a fala anti-abortista é apenas parte do discurso imbecilizante dos poderosos na direção de quem possa cair em sua conversa, ou seja, na direção de qualquer um que não esteja com o pensamento crítico em ação, bem como com a racional capacidade analítica. Em um país de mulheres analfabetas e de corrupção desmedida estas falas não são bem vindas.

A ética depende de uma reflexão intelectual sobre a moral. É só a reflexão da ética contra o saber pré-estabelecido do pré-conceito que pode mover a sociedade de sua indolência atual neste campo. Com isso não quero sustentar que a moral deve ser lançada fora como resto incômodo, mas que é preciso questioná-la sempre no seu próprio processo de transformação histórico e geográfico. O controle moral que se vale da incompetência intelectual que elevaria a questão à ética, faz da moral um amplo campo do poder. A ética, neste caso, é o campo não do poder como manipulação, mas do poder como potência de transformação. Uma ética que seja crítica da moral deve prever a exposição das relações de poder que estão por trás da constituição dos valores. Por exemplo, o da vida sobre a qual se alicerça o discurso ideológico contra as mulheres.

Os argumentos contra o aborto arriscam-se no capcioso. Atém-se, de um modo geral à ideologias, posições grosseiras afirmativas ou negativas. Não ultrapassam a indignação moral que, ainda que seja fundamental – pois é impossível deixar de lado os sentimentos e emoções morais na elaboração de uma ética – não nos faz pensar no que fazemos e, com isso, não nos lança no território teórico-prático da ética. Ética é o campo onde a pergunta “o que estou fazendo?” é tão importante quanto a pergunta “onde quero chegar com o que faço?”, o que implica medir conseqüências.

Homens que nunca irão parir, jamais serão mães, não abortarão falam sobre o aborto enquanto as mulheres fazem. Não devemos com isso supor que os homens não deveriam simplesmente deixar de discutir a questão, mas perguntar por que a palavra dos homens se mostra prevalente nesta questão. Devemos perguntar por que eles parecem mais interessados do que as imediatamente interessadas que continuam fazendo ou não seus abortos, tendo ou não seus filhos. A contradição entre o discurso dos homens e a ação praticada por mulheres é o que precisa ser levada a sério. Ela pode ajudar a explicar porque o aborto não foi legalizado no Brasil e nem será em países onde as mulheres são, em sua maioria, pobres e desprovidas de poder.

 

A legalização do aborto não virá dos donos do poder e dos discursos que comandam e decidem sobre o corpo das mulheres. Elas, em silêncio, agem como se não fossem donas e senhoras de seus corpos. E, de fato, não o são enquanto continuam na velha economia da sedução, da prostituição, da maternidade, da vida doméstica, do voyerismo do qual são a mercadoria. Que as decisões sobre seus próprios corpos não pertença às mulheres é uma contradição que ainda muito poucas conseguem avaliar. Não ter voz significa não pertencer à política. À medida que não participam e nem percebem o quanto estão alienadas da conversa, as mulheres perpetuam a injustiça. Em última instância, estão distantes da ética que envolve a decisão sobre seus direitos e sua própria vida.

Além disso, a questão do aborto sinaliza que a liberdade das mulheres – prisioneiras ancestrais de uma estrutura social que tem sua lógica – está sempre vigiada. Que nossa sociedade seja patriarcal significa bem mais do que dominação dos homens sobre as mulheres. Que estas sejam vítimas e aqueles algozes. Mas que o patriarcado depende da ausência de democracia na qual os direitos das mulheres venham à luz.

 

Bibliografia sugerida e eventualmente citada

 

1.      Agamben, Giorgio. Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.

2.      Beauvoir, Simone. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

3.      Benjamin, Walter. Para uma critica de la violência y otros ensaios. Madri: Taurus, 2001.

4.      Blay, Eva. Assassinato de Mulheres e Direitos Humanos. São Paulo: ed. 34, 2008.

5.      Cabrera, Julio; di Sanctis, Thiago Lenharo. Porque te amo, não nascerás! Nascituri te Salutant. Brasília: LGE, 2009.

6.      Goldemberg, Ricardo. No círculo cínico ou Caro Lacan, por que negar a psicanálise aos canalhas? Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002.

7.      Mori, Maurizio. Aborto e Morale. Capire um nuovo diritto. Turim: Einaudi, 2008.

8.      Prado, Danda. O que é aborto. São Paulo: Brasiliense, 2007.

9.      Sontag, Susan. Doença como metáfora. Aids e suas metáforas. Trad. Rubens Figueiredo e Paulo Henrique Britto. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007.

 

Aborto como metáfora II

9 de outubro de 2013

II

A segunda questão interessante relacionada ao discurso masculinista é aquela que relaciona “desejo” da mãe e vida do embrião.

Há quem fale tentando garantir que o aborto é uma questão de “vida” do embrião e não uma questão de “vida”, “corpo” ou de desejo das mulheres e da mulher. Com o apelo ao embrião tentam fazer com que o aborto pareça uma questão geral e não uma questão das mulheres como sujeitos históricos e políticos e da mulher grávida como indivíduo que não é contemplado em sua singularidade humana, senão na identidade da sacrossantificada maternidade em devir. Neste ponto, o discurso antiabortista mascara-se como um discurso “do bem” porque defende “a vida” enquanto, na verdade, incide virulentamente na potência do desejo feminino tentando configurá-lo. No caso, está sempre em cena o suposto desejo de ser mãe contra o “impensável” desejo de não ser mãe. Este é colocado na cultura moralista como improbidade negativista pela qual as mulheres deverão ser punidas (e da qual muitas sentem-se autoculpadas). A mulher que não deseje ser mãe (seja por sua negação em procriar a priori, ou por ter cometido qualquer erro por ignorância, despreparo, engano ou acidente e precise fazer um aborto) deverá pagar simbolicamente por sua negação. O discurso antiabortista é a exigência deste pagamento simbólico, o que faz dele um imperativo violento. E, pior que tudo, há nele aquela falácia sutil que poderia ser desmanchada apenas pela crítica à qual ele se coloca imune como qualquer discurso autoritário: o autoritarismo do discurso masculinista e antiabortista é falacioso, pois ao mesmo tempo que prega contra a prática histórica e cultural do aborto fazendo-o parecer um problema moral, age ele mesmo imoralmente praticando outro tipo de aborto: ele aborta as próprias mulheres, seu desejo, sua autocompreensão, sua liberdade. Assim o faz para autosustentar-se porque é da natureza violenta do discurso patriarcal como discurso contra as mulheres. Na ausência de discurso não é impossível que um homem decida fazer violência com as próprias mãos como, segundo afirma Eva Blay (2008, p.23), tem sido um padrão em nossa cultura.

No ápice do nonsense dos argumentos masculinistas antiabortistas há quem diga que o embrião “não pertença” ao corpo da mulher onde habita. Este argumento é ligado ao argumento da vida. A idéia é conhecida, ela faz parte do senso comum sendo possível ouvi-la constantemente. Uma versão mais elaborada, ainda que perigosamente capciosa, está no âmbito filosófico e jurídico. Ela trata de discutir o estatuto desta “pertença” como sendo especial. Inventa-se, a propósito, metafisicamente a especialidade desta pertença. O estatuto da pertença é considerado tão especial como a “vida” do embrião, nunca a vida de uma mulher é considerada no mesmo amplo sentido (potencialidade, direito, política) com que o embrião é revestido do conceito de vida. Argumenta-se na direção da potência do embrião como vida humana sem que se pense na vida da mulher. O próprio conceito de vida fica obscuro, mas é sobre ele que se insiste como se detendo-o estivesse resolvida a questão da verdade. O caráter ideológico da verdade também não entra em cena.

A mulher é reduzida ao seu corpo e à única potencialidade que interessa é a de que pode ser mãe. Ela mesma que é tratada como mero corpo que pode gestar e parir não tem o direito de tratar o embrião como mero corpo que pode ser extraído do seu próprio por um ato de sua vontade (nem mesmo quando ela teve vontade de engravidar). Enquanto é tratada como mero corpo, é tratada também como um meio da vida do embrião. Um meio usado pelo corpo do embrião. A mãe é um meio do vir-a-ser do embrião. O embrião, por sua vez, não pode nunca ser tratado como mero meio de vida da mulher, coisa que podemos sempre dizer dos filhos que são, enquanto concebidos, manipulados pelos pais (suas intenções, suas motivações para ter filhos e o que fazem com eles depois), mas que jamais podemos dizer de um embrião na medida em que ele enquanto é retirado pelo aborto é liberto da manipulação à qual estará condenado. Em palavras mais claras: os filhos são tidos por interesses, os abortos são a interrupção do interesse sobre os filhos. Pressupomos, é claro, que ninguém pode ser obrigado a ter um  interesse. Assim o interesse na procriação da parte dos homens não pode ser lançado sobre as mulheres e vice-versa.

A questão do embrião como meio para uma coisa que a mulher não deseja coloca que esta mulher é, na verdade, ela mesma o meio do interesse de outrem. E não é do embrião, pois este não tem interesse algum. Antes ele é a condição de possibilidade de que a mulher realize-se como mãe, mesmo que não deseje ser mãe. A pergunta que fica é se podemos a esta altura voltar atrás historicamente dando às costas ao princípio kantiano que informa que a ética é o tratamento de qualquer ser humano como fim e não como meio. A mulher não poderia servir de meio do embrião tornar-se bebê (criança e adulto são potencialidades que escapam da questão) senão por meio de um consentimento baseado em seu desejo (em sua biologia, em sua necessidade, jamais, até porque o sentido de gerar um ser humano pode ser questionado conforme se pode ver lendo o livro de Cabrera e Di Santis (2009). Neste sentido, o aborto de um embrião jamais poderia ser tratado como “meio”, este jamais seria uma questão: o que coloca o problema noutro nível e elimina a falácia do direito do embrião ao qual mulheres grávidas que não desejem ser mães estão condenadas. Neste caso, negar o aborto é fazer da mulher um meio de algo que ela não consente: é, portanto, antiético.

Está em jogo, como é evidente, a questão do estatuto corporal dos seres envolvidos e sua assimetria jurídica. O corpo do embrião é ornado com cuidados metafísicos, mas o “corpo de mulher” não merece o mesmo tratamento por parte da cultura masculinista a não ser para fazer deste corpo o de uma mãe (como também é possível fazer deste corpo o de uma prostituta, de um símbolo sexual, de uma bruxa, todos eles estigmas heterodeterminados pelo patriarcado). Na base deste argumento encontra-se toda a história misógina da filosofia e da teologia que julgam e deliberam sobre os corpos de mulheres, marcando-os como “o segundo sexo” (Beauvoir, 2009) que deve obediência à espiritualidade masculina de nossa civilização patriarcal. Não é demais deixar claro que o termo espiritualidade aqui significa racionalidade que se expressa em um discurso. Por meio desta marcação, a mulher é sempre corpo, o homem é sempre espírito, ou seja, aquela é sensibilidade inarticulável e este é racionalidade que se expressa por meio da linguagem discursiva. Não é de admirar que as mulheres não se pronunciem sobre a questão que lhes importa, pois o dizer das mulheres (tantas vezes analisado por várias feministas) não seria próprio de uma “natureza feminina”. Que a mulher se pronunciasse seria o mesmo que cair em contradição com o seu próprio ser racionalmente inexpressivo. Masculinistad de plantão amparam-se ainda no mais débil jusnaturalismo para defender seu lugar ao tratar de assunto que não lhe diz respeito.

Neste argumento em que está em jogo a relação entre mulher e embrião, está clara a existência de dois pesos e duas medidas. Corpo feminino e embrião não correspondem um ao outro senão por uma relação cujo significado está em que o caráter “especial” do embrião determina que ele não possa submeter-se ao corpo de uma mulher. No entanto, para que o corpo do embrião seja “superiorizado”, ele precisa antes ser espiritualizado. Esta sobreposição é a espiritualização do embrião. Ela é produzida por meio do discurso, seja das teologias, seja das filosofias ou das teorias jurídicas que trabalham neste sentido. Na mesma direção, o corpo da mulher precisa ser desespiritualizado para valer menos do que o do embrião no mercado patriarcal que define a seu bel prazer o que é “vida”, o que é “ser humano” desde que dispõe da máquina antropológica do discurso.

Para menorizar, para desespiritualizar e, por fim, dominar, o corpo da mulher tem que ser marcado por “sexo” e “nudez”. A mãe, no entanto, seria considerada uma ultrapassagem (ainda que dialética) desta forma de ser das mulheres. Infelizmente, todo o imaginário pornográfico que objetiviza a mulher (e assim a manipula fazendo-a servir como meio para outra coisa) contribui para o processo de desespiritualização da qual a mulher só consegue sair quando acede à posição iconológica da mãe.

Em resumo: o corpo do embrião é considerado mais especial do que o corpo da mulher porque ele seria espiritualizado e o da mulher não. A espiritualização, por sua vez, se dá pela idéia da “vida” que ele é. A vida da mulher, no entanto, não é discutida no que concerne à mulher.

Na economia dos corpos, o corpo do embrião funciona como se ele fosse um hospedeiro para a mulher que não deseja ser mãe. No masculinismo esta condição é algo de sublime. No masculinismo não se ousa dizer que seja um hospedeiro desde que se pressupõe que as mulheres e a mulher grávida teria nascido para o ato de hospedá-lo. No entanto, quando não convidado  – e, neste caso, a teoria moralista sempre coloca que a mulher quis engravidar desde que manteve relações sexuais, ou seja, ela é culpabilizada por ter feito sexo com um homem, o que se confirma na lei brasileira pela qual se tem o direito de abortar desde que se tenha sido estuprada, caso em que seria impossível sustentar o conhecimento prévio sobre o ato sexual e suas conseqüências e para a qual a questão da vida do embrião não importa – este hospedeiro continuaria, segundo o masculinismo, com o mesmo direito de habitar o corpo no qual reside. Indesejado, o embrião seria um hospedeiro escravizante e a mulher grávida seria uma vítima do estado moral da sociedade anti-abortista. A gravidez seria uma punição, a maternidade uma condenação sobre a qual a mulher não teria o direito de se manifestar. Não seria apenas um réu sem defesa, mas uma condenada. Afinal, na falácia dos argumentos, aceitar que a mulher se manifeste seria incorrer no risco de negar a sua “natureza” irreflexiva e meramente corporal.

Tal questão não é colocada nesta linguagem, pois uma fala neste sentido pode sempre desmistificar não apenas o aborto, mas também o mito da maternidade sem o qual mulheres podem questionar a obrigação de ter filhos e, assim, mudar o sentido de suas vidas – e quem sabe, daqueles que estão dela dependendo, seja como “filhos”, seja como “pais” de seus “filhos” – já previamente traçado no quadro da dominação masculina que é o patriarcado como sistema moral-político com jogos de linguagem e argumentos próprios.

Mas é preciso prestar ainda mais atenção ao argumento com que se põe em cena a questão da pertença entre embrião e corpo de mulher na relação com a questão do desejo. O embrião apenas pertenceria ao corpo da mulher na condição de hospedeiro, mas não seria submisso a ela, no sentido de depender de seu desejo. O desejo da mulher é descartado sumariamente como se mulheres fossem meras fêmeas animais submetidas à natureza. Isto porque se parte do pressuposto de que seu desejo não é suficiente para “espiritualizá-la”. É a isso que são reduzidas no discurso sobre a “vida” dos embriões. A escolha de uma mulher é simplesmente eliminada – abortada – previamente da questão. O suposto corpo não espiritualizado da mulher é o lastro a partir do qual se pensa a separação, a diferença de estatuto, entre o corpo do embrião e o da mulher. Em não correspondendo um ao outro, se o embrião está vivo, se a vida é sua e não tem relação com a vida da mulher – não pertence a ela – é porque ele não é um corpo da mesma natureza que o corpo de uma mulher, o que levaria a pensar ou que o corpo de uma mulher não é vivo (o que seria um absurdo), ou, ao contrário, que é meramente vivo (no sentido da mera vida de que fala Walter Benjamin, 2001, p.44) enquanto o corpo do embrião seria espiritualidade que se encarna e devém corpo. Outro absurdo é gerado, mas ele tem teor biológico, como se o corpo do embrião não proviesse do corpo da mulher. O que também garantiria o direito de tirá-lo de dentro já que ele já não estaria dentro. A falácia naturalista pesaria sobre as mulheres que teriam que obedecer a uma idéia de natureza a ser realizada na cultura (o mesmo argumento é usado para combater a homossexualidade). O embrião é marcado pela espiritualidade como elevação e distanciamento da corporalidade sexual, enquanto o corpo de uma mulher é marcado pela sexualidade como eliminação da espiritualidade, restando-lhe apenas a oportunidade de tornar-se espiritual pela maternidade. Ou seja, pelo corpo do embrião.

Está dado então o modo como se vem a garantir a existência do embrião e a necessidade da mulher enquanto mãe. É neste ponto que é preciso questionar o lugar da sacralização da maternidade compreendendo que o ato de tornar sacro é ao mesmo tempo tornar intocável e sacrificado (Agamben, 2002, p. 89-94). A mãe é o próprio homo sacer do direito romano, aquela que está incluída enquanto excluída. Aquela que não desejar tal santificação pode ser punida.

 

Aborto como metáfora I

9 de outubro de 2013

O texto a seguir será publicado no livro FILOSOFIA: MACHISMOS E FEMINISMOS em breve pela editora da UFSC. Considerando que o texto está pronto há mais de um ano e o livro se torna entre nós algo tão esperado quando demorado, decidi publicar o texto aqui. Será uma ótima oportunidade de receber críticas de leitoras pensantes. Agradeço, de antemão, a quem puder lê-lo e analisar, comentar, criticar.

Vou publicar em 3 partes para o texto não complicar o tamanho da postagem, mas peço que as partes não sejam consideradas separadamente.

Aborto como Metáfora

A todas as mulheres que descobriram que são livres.

A insignificância da discussão sobre aborto no Brasil se deve ao fato de que ela não chegou ao lugar onde devia. Inscrito no território do moralismo, o que se diz sobre aborto por aqui não passa, de uma maneira geral para a qual importa salvaguardar exceções, de espectro discursivo da ideologia masculinista contra as mulheres. Aborto é a mais perfeita metáfora do moralismo – uma metáfora do “mal” construída pelo olhar desrespeitoso contra as mulheres – que está na base fundamental do discurso patriarcal.

Antes de iniciar meus argumentos na intenção de entender o lugar desta metáfora no discurso masculinista, devo definir que, na construção de minha exposição chamarei de “mulheres” ao sujeito representativo de um gênero, ainda que estejamos orientadas pelo desejo de superá-lo, e de “mulher” ao indivíduo que pode engravidar. Desejo assim, desvencilhar-me da armadilha essencialista na qual a leitora menos atenta pode me colocar. E digo “leitora”, porque estou escrevendo pensando, sobretudo, em mulheres e em quem possa se interessar por uma fala dirigida à sua condição. Quero facilitar a compreensão do que tenho a dizer, já que, neste território uma das estratégias discursivas das mais usuais é sempre fingir que não compreendeu o que a outra queria dizer, muito embora o outro (os homens) sejam sempre ouvidos e aceitos (aliás, por eles mesmos e, infelizmente, por várias mulheres que não se dão conta de sua posição de sujeitos potencialmente livres, mas sempre também facilmente amarradas às armadilhas do discurso patriarcal). É por isso também que a leitora verá muitas aspas abraçando as palavras que usarei. Minha intenção é intensificar por meio delas os termos que soam problemáticos no contexto dos discursos e merecem por isso mais atenção.

Assim, posso seguir afirmando a primeira questão que não pode ser deixada de lado quando entramos neste assunto – e que continua me deixando perplexa depois de anos a me envolver com o problema. Questão que apenas pode ser posta de um ponto de vista feminista (este ponto de vista que se preocupa com o que acontece às mulheres e não está contra elas, independente de suas profissões, etnias, definições e escolhas): por que homens discutem tão facilmente um tema que seria, antes de mais nada, assunto de mulheres? Justamente porque estão “contra” as mulheres e porque falar seja o modo de se posicionar “contra”. Que estejam contra elas – aspecto que repetirei várias vezes, pois está na base do discurso que quero aqui questionar – implica que jamais levantarão argumentos a favor do aborto, pois aquele que argumenta contra o aborto não consegue – por ignorância ou autoritarismo – colocar-se em seu lugar. De um maneira geral podemos dizer que os homens falam de aborto porque estão acostumados a falar: é que ocupam o lugar dos discursos como protagonistas e autores e as mulheres como coadjuvantes e figurantes. É preciso ter em vista que um homem que queira falar sobre o aborto só pode fazê-lo do seu ponto de vista e este ponto de vista só valerá como discurso que merece ser ouvido caso tenha sido antes questionado enquanto “ponto de vista”. Que homens (padres, papas, juristas, advogados) se pronunciem muito mais do que mulheres, vem apenas comprovar o estágio precário do feminismo no Brasil quanto à questão da liberdade das mulheres, apesar das tantas lutadoras da causa dos direitos femininos que vem a ser o sentido geral do feminismo conseqüente.

Muitas vezes, infelizmente, o discurso antiabortista é promovido pelas próprias mulheres que concordam com os argumentos dos homens sem questionar sua proveniência interessada. Talvez elas mesmas tenham interesses na sustentação do que, as oprimindo, ao mesmo tempo lhes serve, em algum sentido, de sustento. Na prática do aborto por parte de mulheres há um interesse evidente. O de praticar a liberdade de não permanecer grávida. Mas há, também, entre mulheres, na contramão do exercídio de suas liberdades, muita escravização voluntária. Infelizmente, há casos em que mulheres alimentam com relação ao aborto (e mesmo outros temas relacionados ao seu desejo e seus corpos) aquilo que Ricardo Goldemberg denominou de círculo cínico (2002, p. 14). O círculo cínico é a estrutura da corrupção, ele implica um sujeito enganador e um enganado que aceita a posição de otário. Há, neste sentido, mulheres que são vítimas da escravização na qualidade de otárias, o que não deve ser dito na intenção da ofensa, mas da desmistificação dos interesseiros e submissos acordos entre sacerdotes e escravos da moral em que se tornam as pessoas de um modo geral quando se indispõem a pensar reflexivamente. Neste sentido é que pretendo usar a expressão “cinismo masculinista” para falar do discurso ideológico como círculo cínico que une homens e mulheres. O ponto de vista feminista, no sentido em que o manifesto aqui, vem a ser o desejo de sair deste círculo marcado pela corrupção das consciências e das ações. A crítica parte desta denúncia.

No lugar do cinismo masculinista que tem comandado o sentido dos debates tanto na esfera pública quanto na privada, deveria avançar a reflexão filosófica entre as mulheres que, no entanto, permanece estagnada. Enquanto o grito da indignação moral faz pose de suficiência ética, garante-se o lucro moral da igreja e de todas as instituições conservadoras (entre elas a família, tenha ela em seu ideário e práticas, melhores ou piores intenções em relação a seus membros nascidos com corpos de “mulheres”) contra a questão mais básica da decisão das mulheres sobre seus corpos e projetos relacionados, afinal, às suas próprias vidas. É espantoso que haja pessoas que não tenham segurança para decidir acerca de si mesmas neste aspecto. Não se discute o aborto neste sentido porque as mulheres são culturalmente alienadas da questão. E o são pelo próprio discurso e pela prática de “surdez” dos agentes e autoridades que faz deste mesmo discurso uma lei e uma moral. O que pretendo afirmar é que a forma do discurso, e do pseudo-debate (como se não se devesse discutir o sentido do “debate” para uma questão que é da soberana decisão de uma mulher) já existe para evitar que as mulheres se pronunciem em favor de si mesmas.

E este “si mesma” relaciona-se diretamente com o que podemos entender como sendo o seu próprio desejo. Desejo, aliás, que nos coloca desde já diante do cinismo masculinista em sua mais básica ação dicursiva: com o discurso contra o aborto, o cinismo masculinista quer, ele mesmo, abortar o desejo das mulheres impondo-lhes um conteúdo para este “desejo” que ele mesmo inventou. Assim como as mulheres são vitimas do aborto como metáfora do masculinismo – aborto que elas devem assumir como tabu-, o cinismo discursivo também realiza o aborto na base de uma metáfora: o aborto é praticado contra as mulheres como uma espécie de autocontradição performativa constantemente reproduzida. “Abortamos as mulheres para que elas não abortem” seria o lema subterrâneo do discurso masculinista. É o desejo (que é do outro, que é construção coletiva, que não é “natural”, mas cultural) que deveria muito mais entrar no debate das mulheres sobre elas mesmas, fazendo com que a mística masculinista que especula sobre “o que quer uma mulher”, o que seriam seus “orgasmos” ou a sua “natural maternidade”, caísse por terra. Somente as mulheres em seus próprios grupos podem quebrar o círculo no qual foram capturadas.

“Sou ser humano, não”

4 de outubro de 2013

“Sou ser humano, não”

“Sou ser humano, não”. A frase do policial dita a uma moça, provavelmente uma professora, quando tentava fazer-se ouvir por ele, estarreceu a muitos. A terrível verdade de fundo dos fatos foi escancarada pelo indivíduo fardado, o burocrata do sistema que está ali para fazer o que faz: espancar, bater, atirar, lançar bombas e gás lacrimogênio contra qualquer um. Ele não age por que quer, embora  possamos argumentar que é provável que também queira. Questionado sobre seu querer, talvez nos respondesse que não quer, o que nos estarreceria novamente e nos faria saber que está vazio de si mesmo.

O policial pode ser um homem burro, como afirmou Theodor Adorno sobre os nazistas. Um sujeito sem pensamento como Arendt veio depois nos mostrar. Mas de qualquer modo, este policial nos avisa o que todos já sabemos: que há algo de desumano na violência praticada por policiais a mando do governo. Acostumados que estamos com o círculo cínico do poder, vemos o policial declarando sua guerra em que o lado particular enlaça-se  ao braço mais forte do governo.  Não vemos novidade no fato de que cada um aproveita a barbárie como pode. Mas o que está por trás desse poder particular do policial e da empáfia governamental que a sustenta?

Com aquela ponta de dúvida que surge quando sabemos que as coisas não são bem assim, paramos para pensar no que ele quis dizer com sua frase. Pensamos em seus afetos, em sua família, na escola (de polícia, inclusive) pela qual passou, no país onde é um funcionário, além de tudo, onde é muito mal pago. Certamente, ele descarrega nos outros o seu próprio ressentimento em relação ao país onde vive, ao sistema cínico ao qual serve como um otário. “Sou ser humano, não”. Como verá seus filhos, caso os tenha, pensará que são seres humanos? Que diferença isso faria para ele? Certamente nos perguntamos como pode ter pensado uma coisa como essa e dito tão calmamente: que não é um ser humano. Como esse policial pode ter, sem vergonha alguma, declarado o subtexto da barbárie à qual todos estamos condenados? O policial foi cínico e, ao mesmo tempo, mostrou a todos o círculo cínico no qual está preso junto conosco.

Mas o que o policial disse não foi apenas essa verdade que doeu em todos nós e que nos faz saber que a situação é grave. Aliás, o que ele disse não foi apenas um dito, foi também um “feito”. Um feito que nos coloca diante de questões muito sérias. O que o policial deixou claro, ao olhar para a professora com aquele desdém que vimos na cena, é que ela não existe para ele. Ele a apagou com uma frase. Restou a ela apenas o silêncio. Onde ela estará agora?

Não ser “um ser humano”, naquele momento, não era um problema epistemológico simples, não era uma oração que descrevia uma situação, mas era um gesto “performativo”, um gesto com efeito e para provocar efeito. Uma fala performativa é uma fala que faz algo com o outro. Uma fala que foi a ação pela qual ele se autorizou a “não ser um ser humano”, ou seja, a não precisar de um outro ser humano. Não existe o “humano” como substância, mas é verdade que se há algo de bom em ser humano, é o respeito a um outro ser igual a si mesmo no simples direito de existir (por isso, podemos pensar que animais são humanos). Como ele se autorizou a não participar da coisa humana? Se essa coisa humana só tem sentido enquanto é reconhecimento do outro?

Por meio de seu gesto, o policial não precisava mais reconhecer a moça, ou seja, não precisava mais respeitá-la como ser humano, assim como um feroz cão de guarda que não sabendo que é humano, não deve “reconhecimento” a quem deve estraçalhar quando for o caso.

Digamos que o policial, funcionário do governo, não se sinta engajado na “condição humana”, podemos, sem dúvida,  perguntar de onde tirou este sentimento. Mas muito mais, no caso, parece que temos que nos perguntar quem o autorizou a isso? E, mais ainda, quais são as consequências desse pensamento quando sabemos que a política – quando ela é também uma ética – depende da responsabilidade pelo que somos, dizemos e fazemos uns com os outros?

Verdade que a política que temos não é nada disso, e este policial, fruto de seu tempo, fruto das condições sociais de nosso país, é filho de nossa política. Ele vai sujar as mãos de sangue enquanto Eduardo Eichmann Paes e seus colegas de fascismo, ficarão no gabinete brincando de fazer mira.

Como um policial da SS, ele está por um triz de matar seu semelhante, justamente por que não se vê a si mesmo como um semelhante, o outro não existe. Se existe, ele o apaga. Se não se vê participando da coisa “humana” da qual os outros participam, será que é porque ele se reconhece como melhor, ou como pior? Será que se reconhece a si mesmo? Será que chega a pensar nisso? Ou estará de tal modo preso ao imediato que não se pergunta e, como um nazista qualquer, simplesmente obedece amparado na ordem governamental?

Todos sabemos que o poder de polícia é a parte crua da violência do Estado. Todos sabemos também que o culto à sociedade de segurança não passa de um modo de sustentar o poder fazendo uso da violência. Em momentos como este que vimos acima tudo fica tão claro que é de estarrecer. Não sabemos o que fazer além de administrar o próprio medo da parte que nos cabe. A personalidade autoritária e fascista está entre nós e se manifesta sem vergonha. Como será possível conviver neste cenário? Que direito poderá surgir ou ser respeitado se a proposta é a da guerra de todos contra todos?

O estado é de barbárie social. E não deveria ser.

O que nos estarrece, por fim, é que este homem ainda jovem, não tenha pensado por um minuto em quem ele é. Ninguém que pense mesmo é capaz de ir fundo e só encontrar ódio dentro de si. O conhecimento é erótico e só um burro prefere o ódio ao desejo de saber que é, neste momento, estarrecedoramente manifesto pelos professores que, a despeito de todas as suas tragédias nessa profissão humilhada que é atualmente a de ensinar, são certamente “seres humanos” mais felizes.

O outro é o conceito fundamental da ética. O outro é aquele que me precede. Que me constitui em termos ontológicos e psicológicos. Mas em temos práticos, ou seja, em temos éticos, ele é, fundamentalmente, aquele com quem me relaciono. Na irrelação, o outro permanece como um espectro,  na forma de algo absurdo que facilmente apago para me sentir bem, pois que o outro externo é sempre amedrontador, sempre terrível. Minha tendência é passar por cima dele, fingir que ele não me toca. Dizer-lhe, que não sou da sua laia… ou “não sou ser humano não”…

Theodor Adorno, filósofo do testemunho do período nazista, disse algo mais ou menos assim: enquanto soubermos manter as aparências de civilização ainda podemos ter esperança. O nazismo sobrevive em cada um que perde de vista que as coisas podem ser diferentes.

Aos professores do Brasil e do Rio

2 de outubro de 2013

Prezados professores, meus colegas, prezados estudantes e ex-estudantes,

estive há dois dias atrás em um encontro de educação daqueles dos quais participamos para promover a nossa lucidez conjunta. O tema de debate da mesa da qual participei era “formação de professores”. A mesa era composta por César Nunes da UNICAMP e Emília Cipriano da PUC-SP. Nesse dia fiquei muito feliz pela qualidade da conversa, pela lucidez das abordagens. Sempre comprovo que nós que trabalhamos com educação sabemos muito bem do que é preciso em termos políticos para que as coisas melhorem em nosso país. Cristovão Buarque fez a conferência final do encontro e foi muito feliz em suas observações sobre caminhos concretos em termos de projetos. Ele insistiu na questão grave do salário dos professores e no projeto de educação nacional. A postura de Cristovão Buarque é a de um sobrevivente numa ilha no mar de lama da política nacional em relação à educação. Seu isolamento é prova de que o cenário geral é realmente biopolítico e condena a todos e cada um ao salve-se-quem-puder típico de um país sem cidadania.

No Brasil, não somos apenas privados de nossa cidadania, mas verdadeiramente condenados à injustiça, à degradação moral e física pela ausência de direitos, à indignidade.

Aquele foi um bom momento para pensar em muitas coisas: políticas, éticas, estéticas…

Sou professora há 20 anos. Sempre tive muito orgulho da minha profissão. Acho nobre, digno e muito bonito ser professora. No período em que fiz televisão, continuei sendo professora. Hoje, tendo muitos outros compromissos, continuo sendo professora. Amo a minha sala de aula com meus estudantes. Nosso encontro é um encontro xamânico, de poder, de alegria, de festa e de cura. Nunca em minha vida, saí da sala de aula sem acreditar que ali eu estou construindo um mundo melhor política e existencialmente falando. Que ali estou educando para a lucidez, contra a barbárie e para além do capital. Hoje, no entanto, me senti muito pequena e em perigo real.  Ao abrir a porta às 6 horas da manhã, peguei o jornal e vi essa foto:

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O choque, a perplexidade, o estranhamento. Adiei o pensamento. Segurei. Segui.

Tinha uma banca na PUC-SP que durou até o começo da tarde. Raphael Dallanese defendeu uma bela tese sobre comunicação e jogo sob orientação de Norval Baitello Junior a quem muito admiro. Foram horas de alegria acadêmica. Um bom debate é impagável. Ouvir as opiniões de outros colegas é instigante. Sempre é bom ouvir um professor falando, disso eu tenho certeza. Professores são muito interessantes, inteligentes, articulados, até mesmo sábios (e há, entre nós, até daqueles mais sábios ainda, os que riem de si mesmos). Até no mais ressentido, pois há muito ressentimento entre nós, brilha aquele fulgor de inteligência que sempre encanta.

Contudo, no fundo, no fundo, o martelo da indiganação contida desde as 6 da manhã provocava em mim uma dor de cabeça… eu nunca tenho dor de cabeça…

Era a foto.

Estou até agora tentando compreender como uma cena dessas é possível? Como um evento desses é possível? Que ódio é esse que flui nas ordens, nas posturas, configurando-se em violência aberta e mais do que cínica, uma violência que se desprende da própria condição humana e nos joga na inumanidade.

Não gostaria apenas de entender esse ódio, pois que a foto o torna explícito. Os policiais foram rebaixados pelo governo fascista a cães de caça. Neste momento falo do governo do Rio, mas existem tantos, como tivemos a oportunidade de comprovar este ano… A ditadura muda apenas de dono. os policiais foram rebaixados a fascistas miseráveis que dão prova de ignorância e insensibilidade, de miséria moral e política como aqueles que os regem.

Tivessem ido à escola, pensei eu. Tivessem experimentado o prazer da liberdade, do amor, do conhecimento. Se pelo menos ganhassem o dinheiro sujo que seus patrões endinheirados… seria mais fácil entender. Mas o poder está no governo e em cada um que a ele se submete…

Não gostaria apenas de entender. Gostaria de acabar com isso. Todos nós gostaríamos de acabar com isso, não é mesmo? De acabar com a injustiça que estamos assistindo. Com a violência que o governo fascista pratica sem sentir nada.

Como, me digam, como? Estou pronta como todos devemos estar nessa hora. Essa é a nossa pergunta e ela não poderá ficar por muito tempo sem resposta.